Publicado em: 18/04/2019 às 16h10

Irfan Abas debate a utilização do oxigênio ativo no tratamento da doença peri-implantar

Entrevistado por Luiz Cosmo, o professor holandês também fala sobre o papel determinante do profissional da Odontologia para a mudança de hábito do paciente.

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Irfan Abas e Luiz Cosmo conversaram sobre o tratamento de algumas doenças relacionadas aos tecidos moles. 

 

Trabalhar para a mudança de hábito do paciente é apenas um dos desafios diários do holandês Irfan Abas. Reconhecido internacionalmente por ser adepto ao uso de produtos à base de oxigênio para o tratamento de algumas doenças relacionadas aos tecidos moles, como periodontite e peri-implantite, Abas é especialista em Implantodontia, Odontologia Restaurativa e Reconstrutiva, e Cirurgia Plástica Periodontal.

Quando esteve no Brasil a convite da ImplantNewsPerio, foi entrevistado pelo brasileiro Luiz Antonio Mazzucchelli Cosmo, mestre em Implantodontia e especialista em Periodontia. Neste bate-papo, Irfan Abas expõe uma abordagem do tratamento da doença peri-implantar com a utilização do oxigênio ativo e também fala sobre o papel determinante do profissional da Odontologia para a mudança de hábito do paciente.

 

Luiz Antonio Mazzucchelli Cosmo – Você tem falado sobre a peri-implantite e sua abordagem envolve o uso de produtos à base de oxigênio para manter a assepsia no pós-operatório. Gostaria da sua avaliação sobre esse produto em comparação à clorexidina.

Irfan Abas – Os produtos à base de oxigênio e a clorexidina são muito contraditórios entre si. Primeiro, é importante olhar para o paciente como um todo, por isso falo tanto sobre mudança de estilo de vida. Se o paciente tem infecções bucais, seja em torno de dentes ou implantes, precisaremos tratá-las; e se isso está acontecendo é porque, provavelmente, ele está fazendo algo que não vai bem. Além disso, só podemos usar clorexidina por um curto tempo, pois é agressiva para os tecidos e dentes. Uma das consequências é não sentir mais o gosto dos alimentos por causa da impregnação na língua. Já o produto à base de oxigênio pode ser usado durante a vida toda – essa é a principal diferença entre os dois.
 

Cosmo – Como você trata os casos de peri-implantite?

Abas – Eu tento não olhar apenas para o problema, mas para toda a boca. Vou exemplificar com um caso que tratei: abri uma grande aba para remover apenas o tecido conjuntivo inflamado, fugindo das roscas, então esperei a cura e a cicatrização. Outra opção é a intervenção não cirúrgica, na qual ainda posso obter algum ganho ósseo em três meses. Mas, é claro que precisamos de muito mais pesquisas. Em minha opinião, a maior intervenção deve ser do paciente, que necessita mudar o modo de vida para que seja mais saudável.
 

Cosmo – Você fala bastante sobre o estilo de vida. O que você quer dizer com isso?

Abas – Ensino que o paciente deve escovar mais os dentes, usar escovas interdentais, falo sobre produtos etc. Dessa maneira, ele se sente motivado. Como sou o seu dentista, ele logo pensa: “se ele me disse para fazer isso, é importante e então eu vou fazer”. Porém, entendo que a motivação é uma emoção. Neste momento, na verdade, o paciente está muito animado porque estou dizendo como ele deve agir para curar o seu problema. Mas, depois de algumas semanas, ele esquece e não se importa mais. Então, a mudança de estilo de vida é tornar a motivação um hábito. Afinal, somos animais de hábito: acordamos, tomamos banho, tomamos café da manhã, lemos jornal, depois saímos para o trabalho. É nessa rotina diária que os pacientes precisam inserir o costume de limpar os dentes bem e usar os produtos adequados. Se conseguirmos isso, com base na minha experiência pessoal, eles podem manter o alto nível de higiene oral e, assim, os problemas serão resolvidos. Aí está a diferença entre apenas motivar e motivar para criar hábitos.
 

Campo de tulipas, na Holanda. (Imagem: Shutterstock)


 

Cosmo – Quando você remove o tecido conjuntivo inflamado em torno do implante, nunca faz incisões?

Abas – O primeiro passo é sempre anestesiar, pois realmente dói em torno de implantes inflamados. Sob meu ponto de vista, posso remover facilmente o tecido conjuntivo inflamado apenas com as curetas, mas não se cureta o lado do implante. Eu sempre menciono uma pesquisa de 1994, feita na Inglaterra, que revelou que o tecido conjuntivo inflamado entra no osso em vez de penetrar ao redor do implante. Então, eu tento raspar o osso em torno do implante e, em seguida, o tecido conjuntivo inflamado sai fácil. Mas, também é possível usar um bisturi, por exemplo, pois o paciente está anestesiado. Depois de remover o tecido conjuntivo inflamado, eu coloco um produto, como um gel à base de oxigênio, e o paciente vai para casa. Ele deve repetir essa mesma estratégia duas vezes por dia usando o creme dental à base de oxigênio. Em seguida, ele faz o enxágue, coloca o gel oral e não come ou bebe qualquer coisa por uma hora, para que o gel oral possa fixar nos tecidos moles. É possível usar esse método continuamente até a inflamação desaparecer, pois o ganho ósseo leva muito tempo.
 

Cosmo – Qual é a sua visão do futuro para o tratamento da peri-implantite?

Abas – Devemos recuar um pouco. Em quantos casos vemos um implante perfeitamente posicionado, com osso e tecido mole suficientes ao redor? Em quantos vemos doença peri-implantar? Há sempre implantes que falharam na angulação e não foram proteticamente bem colocados, onde a regeneração óssea guiada não foi feita corretamente etc. Então, o implantodontista deve fazer um bom planejamento, avaliar o volume ósseo e colocar o implante exatamente no local correto. Se não houver osso ou tecido mole suficiente, é necessário corrigir esses fatores. É muito importante que o cirurgião faça bem o seu trabalho. Podemos tratar cerca de 80% dos casos de doença peri-implantar com produtos à base de oxigênio, e talvez 20% não tenham tanta sorte. Para estes 20%, é preciso intervir cirurgicamente ou remover o implante, recuperar a região e colocar o implante na posição certa, fazer as próteses corretas etc. Aliás, essa é a principal dificuldade comparando a periodontite e a peri-implantite. Na peri-implantite, há muito erro humano. O profissional sabe quantas variáveis podem dar erradas quando coloca o implante ou faz prótese. Já com dentes naturais, o corpo sabe protegê-los muito bem.

 

Veja essa entrevista completa e outros conteúdos em www.odonto1.com/pcp.
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