Publicado em: 18/04/2019 às 16h15

Como está a nutrição do seu paciente?

O sucesso da reabilitação oral não depende apenas das mãos hábeis do cirurgião-dentista. Dentre as muitas variáveis da saúde do paciente, a deficiência nutricional pode colocar em risco todo o tratamento.

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Como impedir que problemas nutricionais comprometam o sucesso da reabilitação oral? (Imagem: Shutterstock)


Você é aquilo que você come. Esse ditado popular faz todo o sentido, sobretudo quando o assunto é saúde – e aqui também incluímos os fatores associados à Odontologia. Isso porque há uma estreita correlação entre saúde bucal e nutrição. A pessoa com uma dieta nutricionalmente pobre dificilmente resiste às infecções bucais, o que pode contribuir para doenças periodontais, uma das causas principais da perda de dentes em adultos.

De acordo com Durval Ribas Filho, médico nutrólogo e presidente da Associação Brasileira em Nutrologia (Abran), embora a má nutrição não cause doenças periodontais diretamente, muitos pesquisadores acreditam que ela avança com maior rapidez e pode ser mais grave em pessoas com dietas carentes de nutrientes. Além disso, a ciência comprova que nos primeiros mil dias de vida da criança a nutrição pode atuar de forma sistêmica em relação aos agravos bucais, tais como: cárie, desgaste dentário erosivo, más-oclusões e defeitos do desenvolvimento do esmalte dentário. “Como o corpo humano se renova a cada dia – matéria óssea, músculos, sangue, pele – é condição sine qua non manter uma alimentação adequada para a formação desses novos tecidos. A desnutrição torna a pessoa mais suscetível a infecções”, explica.

Marco Aurélio Bianchini, especialista em Periodontia e doutor em Implantodontia, lembra que as deficiências nutricionais causam diminuição das defesas do organismo, também conhecida como queda da resistência do hospedeiro ao ataque bacteriano. Assim, uma dieta equilibrada mantém as defesas em funcionamento e evita que o ataque bacteriano provoque danos. “A má nutrição prejudica a capacidade reparadora do organismo, e a falta de algumas vitaminas básicas influencia diretamente no reparo aos danos sofridos pelo corpo. Um exemplo disso é a ausência de vitamina D, que desequilibra fortemente todo o sistema do corpo. Pessoas desnutridas têm a capacidade de defesa abalada, e as bactérias da doença periodontal ficam livres para agir e destruir o periodonto, pois não têm quem as combata”, comenta.

A fim de evitar problemas na fase adulta, os cuidados devem começar ainda na infância. Para ter dentes fortes e resistentes à formação de cárie, a criança precisa de uma dieta rica em cálcio, fósforo e flúor, por exemplo. Mas, quando o assunto é idoso, Ribas Filho revela que os fatores de risco para a má nutrição são: depressão, pobreza, solidão, problemas mentais, desidratação, incapacidades físicas, pequena variedade de alimentos, enfermidades que elevam as necessidades nutricionais ou interferem na utilização de nutrientes, falta de exposição à luz solar, acuidade reduzida do paladar, problemas orais (boca seca, infecção, edentulismo, próteses não ajustadas, dificuldades de deglutição) e uso de medicamentos.

Um grupo que merece atenção especial são os pacientes edêntulos, pois costumam apresentar menor índice de massa corpórea por se alimentarem de comidas pastosas e amolecidas, que são mais fáceis de mastigar, mas têm menos fibras e nutrientes. Como a absorção do alimento começa pela boca, quando a dentição não está completa, é necessário atentar para a absorção de minerais e vitaminas. Nesse caso, a recomendação é a terapia multidisciplinar em conjunto com um médico nutrólogo, que poderá orientar a suplementação oral adequada para a obtenção de micro e macronutrientes relevantes e que estão em déficit na alimentação. “Isso ocorre muito com pacientes idosos, nos quais as perdas dentais acontecem principalmente pela progressão da periodontite, devido ao acúmulo de placa bacteriana e tártaro, bem como consequência das cáries radiculares”, acrescenta Ribas Filho.

Vale lembrar de outra condição que pode provocar uma dieta inadequada: o uso de próteses dentárias mal adaptadas. Isso porque, quando os protocolos não estão bem ajustados, causam ferimentos na boca e dificuldade de mastigação. Então, naturalmente, o paciente passa a escolher alimentos macios, processados ou ultracozidos, diminuindo o consumo de produtos in natura ricos em fibras e vitaminas. Por outro lado, quando bem executadas, as próteses dentárias são responsáveis por devolver ao paciente edêntulo a capacidade mastigatória e oferecer conforto psicológico e estético. A satisfação com o tratamento resultará em melhora da alimentação e, consequentemente, da qualidade de vida.

Ao cuidar dos dentes “de dentro para fora”, com uma alimentação adequada e suplementação, é possível melhorar a saúde bucal e prevenir futuros problemas dentários que impactam diretamente na saúde do organismo. E, como sabemos, a prevenção é a melhor maneira de evitar as doenças. Além disso, algumas situações bucais podem indicar a presença de doenças e disfunções, por exemplo, inflamações gengivais podem ter ligação com diabetes, hipertensão e elevadas taxas de colesterol e triglicérides. Sendo assim, ao cuidar da alimentação e das afecções orais, será possível diminuir o risco de doenças como as cardiovasculares, por exemplo.


A UNIÃO DE MEDICINA E ODONTOLOGIA

A Nutrologia é muito importante pela influência no desenvolvimento físico e mental do ser humano. Ribas Filho ressalta que os estudos científicos na área endossam que a boa alimentação chega a reduzir, em média, 75% a possibilidade de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis a curto e longo prazo, inclusive aquelas relacionadas à saúde bucal. Estar bem nutrido significa manter uma dieta balanceada para que o organismo possa obter os micros e macronutrientes, e assegurar uma boa saúde. “Alguns trabalhos relevantes encontrados na literatura científica, que relacionam nutrientes e tecido periodontal, apontam que a deficiência de vitamina C está associada à formação de bolsas periodontais e destruição tecidual. Além disso, a deficiência de vitamina C leva os tecidos periodontais à incapacidade de resposta aos efeitos destrutivos da inflamação”, diz. Dessa forma, um indivíduo bem nutrido tem mais facilidade de regeneração muscular, óssea, da pele e do sangue. Isso é fundamental para que a reabilitação ocorra.

Nessas condições, a reabilitação do paciente deve contar com uma equipe multidisciplinar, envolvendo dentista, médico nutrólogo, nutricionista e fonoaudiólogo, para abarcar todo o conhecimento necessário para o sucesso do tratamento. Cada profissional contribuirá com os seus conhecimentos: o dentista será responsável pela reabilitação oral; o médico nutrólogo auxiliará na investigação das deficiências vitamínicas e possíveis doenças associadas; o nutricionista irá elaborar um cardápio adequado às necessidades do paciente; e o fonoaudiólogo poderá trabalhar as questões de motricidade oral, mastigação, deglutição etc.

Bianchini concorda e adiciona que essa equipe de especialistas deve atuar de forma integrada. “Quando as defesas estão comprometidas, o sucesso dos tratamentos está em risco. Muitas vezes, basta um ajuste na nutrição para que o equilíbrio seja recuperado. Assim, pacientes submetidos a procedimentos de reabilitação oral, especialmente aqueles com histórico de doença periodontal e que receberam implantes, devem ser constantemente monitorados por uma equipe multidisciplinar que avalie frequentemente o metabolismo e a capacidade imunológica”, afirma.

Ajustar a alimentação do paciente pode não ser tão simples quanto parece. Há variáveis importantes que influenciam na tomada de decisão da equipe multidisciplinar. “A dieta dependerá da situação social, econômica e educacional. A nutrição é o estudo dos componentes nutritivos dos alimentos que devem ser ingeridos para manter o bom estado físico e mental das  pessoas. Estar bem nutrido significa que o indivíduo consome alimentos que forneçam todos os nutrientes, proteínas, hidratos de carbono, lipídios, vitaminas e minerais. Ou seja, a boa ou a má nutrição é o resultado do que se come”, descreve o médico nutrólogo e presidente da Abran. Portanto, o equilíbrio nutricional só é possível quando o paciente passa a compreender que a alimentação correta é fundamental para alcançar uma vida mais saudável.
 

Alimentos que contribuem para a saúde dos tecidos e mucosas orais

As vitaminas têm um papel fundamental na proteção da estrutura do dente, principalmente por prevenirem infecções. Veja como elas atuam e onde encontrá-las:


Vitamina A
Ação: ajuda a manter a saúde dos tecidos.
Fonte: fígado, gema de ovo e óleos de peixes. Os vegetais, como cenoura, espinafre, manga e mamão, também são boas fontes dessa vitamina porque contêm carotenoides.


Vitamina B
Ação: impede e/ou reduz a inflamação para promover a cura de problemas orais.
Fonte: carnes, leites, ovos, brócolis, cereais integrais, ervilhas, amendoim, castanhas, nozes, iogurte, laticínios em geral, frango, aspargo, espinafre e outros vegetais folhosos de coloração verde-escura, que são compostos por vitamina B2.


Vitamina C
Ação: ajuda a fortalecer o organismo e previne a inflamação na gengiva, que pode levar a hemorragias e afrouxamento dos dentes.
Fonte: kiwi, acerola, morango, laranja e limão.


Vitamina D
Ação: auxilia na absorção de cálcio para proteger o esmalte do dente.
Fonte: presente em alimentos de origem animal, mas também precisa de exposição solar.


Vitamina K
Ação: suporta tecidos dentários e evita o sangramento das gengivas.
Fonte: acelga, espinafre, brócolis e couve.


Minerais importantes para a saúde bucal:

- Ferro: apoio de alimentação saudável de células vermelhas do sangue e previne a inflamação da língua.

- Cálcio: mantém o tecido dentário forte (junto com os ossos) para prevenir a cárie e/ou perda dos dentes.

- Magnésio: ajuda a manter o cálcio no esmalte dos dentes.

- Zinco: inibe o crescimento das bactérias e a formação de placas ao longo da linha da gengiva.


É válido lembrar que, ao identificar o déficit nutricional, o médico nutrólogo consegue reverter o quadro por meio da suplementação oral. Ter uma dieta equilibrada, consumindo frutas e vegetais frescos, bem como proteínas e cereais integrais, é essencial para a saúde oral do paciente. Além das vitaminas e minerais, é importante adicionar à dieta tanto a niacina quanto a tiamina.

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