Publicado em: 26/04/2019 às 11h35

Estética e função: qual é o futuro da Implantodontia?

Marco Bianchini reflete sobre os próximos passos da especialidade, além da necessidade de aprender com os erros.

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No momento em que esta coluna está indo para as redes, eu estou em São Paulo (SP), participando de mais um congresso de Implantodontia: o V Meeting Internacional Implacil De Bortoli. Na coluna da semana passada, já abordamos o lançamento do livro que conta a vida do fundador desta importante empresa brasileira: Meu nome é Implante: a Biografia do Dr. Nilton De Bortoli. A festa de lançamento do livro foi ontem, recheada de emoções que serão contadas pela mídia nos próximos dias. Deixando a euforia de lado e sentado aqui, no auditório do centro de Convenções Rebouças, para assistir a vários colegas de primeira linha palestrarem sobre os temas mais importantes da Implantodontia, eu me pergunto: qual será o futuro da nossa especialidade? O que nos reserva o amanhã?

É uma pena que a Implantodontia moderna, hoje, esteja requerendo mudanças tão rápidas e com um apelo exagerado voltado para a estética. O ser humano vem mudando bastante as suas escolhas, e um hedonismo desenfreado, na busca da satisfação pessoal a todo custo, vai cada vez mais ganhando as nossas mentes. Esta valorização exagerada e extrema das aparências também recai na Odontologia. Assim, o que se busca hoje é a rapidez com estética perfeita, e as empresas de implante caíram nesta armadilha, sem ter como fugir. Em um dos trechos mais interessantes da biografia do Dr. Nilton De Bortoli, ele fala especificamente sobre este tema. Vejam a transcrição abaixo:

“A última coisa que me preocupava quando eu comecei a fazer os meus primeiros implantes era com a estética. Eu atendia pessoas que não frequentavam restaurantes porque não tinham condições de frequentar restaurantes. Elas tinham vergonha porque não conseguiam mastigar de jeito nenhum. Então eu punha lá umas lâminas e botava estes pacientes para mastigar. Eles ficavam como se estivessem no céu. Se não estava na cor perfeita ou se estava aparecendo um pedaço do metal, eles não estavam nem aí. ‘Esquece a estética, Doutor’, era o que eles me falavam, ‘eu quero é comer e mastigar’! No meu tempo, eles queriam comer, era gente que não podia comer, uns porque a prótese não parava, outros porque faltavam alguns dos dentes e não podiam comer direito. Hoje em dia é estética, só estética!”

É óbvio que não devemos desprezar a parte estética de uma reabilitação com implantes. Afinal, o sorriso é a expressão máxima da felicidade do ser humano. Logo, ele influencia na beleza facial como um todo, o que é maravilhoso para a nossa especialidade. Entretanto, não há como negar que o exagero de alguns colegas em superestimar a área estética em detrimento da função acaba por criar sérios problemas para quem está colocando implantes, especialmente para as gerações mais novas. Nossa missão como reabilitadores orais é devolver a estética e a função. É praticamente impossível separá-las e muito difícil dizer qual é a mais importante. Como em tudo na vida, o bom senso é o melhor caminho a seguir.

Aproveitando o intenso contato que tive com o Dr Nilton de Bortoli, apresento aqui a radiografia de um caso muito interessante, que ele fez no passado e que nos faz refletir sobre o futuro da Implantodontia e o que nos aguarda no amanhã da nossa especialidade.
 

Figura 1 – Radiografia de um paciente do ano 1991 com implantes produzidos pela empresa Implacil de Bortoli, fabricados no Brasil. Este mesmo paciente tinha uma lâmina colocada pelo Dr. Nilton De Bortoli na década de 1980.

 

Analisando este caso, demonstrado através desta radiografia panorâmica, observamos que a pouca reabsorção óssea, tanto da lâmina quanto do implante padrão Branemark e o formato liso e arredondado da parte mais coronária do implante cilíndrico, quase como uma plataforma switching, nos indica que o passado geralmente não está muito longe do futuro. Hoje em dia, muitos dos conceitos preconizados lá atrás estão voltando à moda. Carga imediata, implantes de corpo único, implantes mais finos, mais grossos, tudo isso já foi um dia usado, de maneiras semelhantes. Na Ciência, só se atinge o primor de uma técnica depois de muitos erros. Porém, o orgulho do ser humano bloqueia o reconhecimento daqueles que falharam, mas nunca deixaram de procurar acertar.

 

 

“Ai daquele que questiona quem o modelou, ele que é barro, barro do chão! Porventura dirá o barro ao que o formou: que fazes? ou a tua obra não tem asas? Ai daquele que diz ao pai: o que estas gerando? Ou à mãe: que coisa dá à luz? Assim diz o Senhor, o Santo de Israel, aquele que o modelou: perguntai-me as coisas futuras; demandai-me acerca de meus filhos, e acerca da obra das minhas mãos. Eu fiz a terra, e criei nela o homem; eu o fiz; as minhas mãos estenderam os céus, e a todos os exércitos dos astros Eu dei as minhas ordens.” (Isaías 45:9-12)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 

 

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