Publicado em: 12/08/2019 às 08h11

Histologia óssea para perioimplantodontistas

Luis Antonio Violin Pereira e equipe analisam o tecido ósseo, uma categoria de tecido conjuntivo caracterizado por matriz extracelular mineralizada.

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Os tecidos animais são constituídos por grupos de células organizadas para desempenhar uma ou mais funções. Há apenas quatro tipos de tecidos no corpo humano: epitelial, conjuntivo, muscular e neural. O tecido ósseo é uma categoria de tecido conjuntivo caracterizado por matriz extracelular mineralizada (a matriz óssea) e é considerado o componente estrutural dos ossos, os quais fazem parte do sistema esquelético1-2.
 

Natureza bioquímica do tecido ósseo3


 

Estrutura do tecido ósseo

Estruturalmente, o tecido ósseo pode ser classificado em cortical ou compacto; e trabecular ou esponjoso ou medular (Figura 1). Ambos são iguais em relação à natureza bioquímica, possuem lamelas (parte mineralizada) e células, mas diferem radicalmente em relação à: 1) presença de medula óssea; e 2) conteúdo de tecido mole associado. A medula óssea está presente somente no osso medular e o tecido mole é usualmente menor que 10% do volume no osso cortical, embora 75% do volume do osso medular seja composto por tecido mole4.

Figura 1 – (clique na imagem para ampliar)


 

Tecido não mineralizado dos ossos

O tecido mole dos ossos – formado por fibras, matriz extracelular e células, vasos e nervos – é denominado periósteo (superfície externa) e endósteos (superfícies internas). O periósteo consiste em uma camada fibrosa externa e uma camada mais celularizada internamente, que se dispõe em contato com a parte externa da cortical óssea. Os endósteos cortical e medular, e dos canais de Havers e Volkmann consistem em tecido conjuntivo mole que reveste internamente as superfícies correspondentes4. As células osteoprogenitoras, osteoblastos, osteoclastos e as células de revestimento ósseo estão presentes no periósteo e nos endósteos².
 

Tecido mineralizado dos ossos (lamelas)

A matriz óssea madura – formada por feixes de colágeno e outros componentes unidos à hidroxiapatita – é mineralizada. Os feixes de colágeno com 3 μm a 7 μm de espessura, mineralizados e orientados paralelamente ou circunferencialmente entre si, constituem as lamelas ósseas.

No osso cortical são encontradas as seguintes lamelas ósseas, identificadas de acordo com a disposição1:

• Lamelas ósseas concêntricas: dispostas concentricamente aos canais vasculares (canal de Havers);

• Lamelas ósseas intersticiais ou intermediárias: preenchem espaços entre os conjuntos formados pelas lamelas ósseas concêntricas;

• Lamelas ósseas circunferenciais externas: dispostas circunferencialmente e logo abaixo do periósteo;

• Lamelas ósseas circunferenciais internas: dispostas circunferencialmente na parte mais interna da estrutura cortical.

No osso medular, as lamelas ósseas estão dispostas em:

• Lamelas ósseas longitudinais: dispostas ao longo do eixo da trabécula;

• Lamelas ósseas concêntricas: quando a trabécula óssea for espessa e apresentar um canal vascular no seu interior.

Os osteócitos encontram-se envoltos pela matriz óssea mineralizada e comunicam-se entre si por canalículos, que contêm prolongamentos citoplasmáticos capazes de conectar essas células.
 

Unidade básica do osso cortical

A unidade básica do osso cortical é denominada ósteon ou sistema de Havers. O somatório dessas estruturas – em conjunto com o periósteo, o endósteo cortical e as lamelas circunferenciais externas, internas e intersticiais – constitui o osso cortical. O ósteon é constituído por:

• Canal de Havers, que contém vasos sanguíneos, nervos, tecido conjuntivo mole com células osteoprogenitoras, osteoblastos ou células de revestimento ósseo (endósteo do canal de Havers). A versão transversal desse canal, que segue o trajeto do periósteo ao endósteo e conecta os canais de Havers entre si, sem lamelas concêntricas, é chamada canal de Volkmann;

• Lamelas ósseas concêntricas e osteócitos com prolongamentos citoplasmáticos, que conectam essas células permitindo sua nutrição a partir dos vasos sanguíneos no canal de Havers.
 

Unidade básica do osso medular

A unidade básica do osso medular é denominada trabécula, que constitui uma rede de estruturas ósseas mineralizadas e anastomosadas entre si e em continuidade com o osso cortical.

O somatório das trabéculas – em conjunto com a medula óssea – compõe o osso medular. A trabécula é formada por4:

• Endósteo medular;

• Lamelas ósseas longitudinais e osteócitos com prolongamentos citoplasmáticos que conectam essas células.

As trabéculas menores que 0,2 mm de espessura não contêm vasos sanguíneos no interior, já as maiores possuem um vaso sanguíneo no centro e, muitas vezes, permitem a formação de um ósteon. A trabécula do osso medular é anatômica e funcionalmente análoga ao ósteon do osso cortical4.
 

Medula óssea

O espaço entre as trabéculas ósseas é preenchido pela medula óssea vermelha, a qual contém células hemopoéticas em diversos estágios de diferenciação (hemocitopoese) suportadas por uma rede de fibras reticulares, vasos e fibroblastos.

Em um estágio mais avançado do desenvolvimento em indivíduos adultos, a medula óssea vermelha fica restrita aos espaços presentes na crista ilíaca, no esterno e em alguns ossos maxilares. Nos outros ossos, nos espaços entre as trabéculas, predominam células adiposas que constituem a medula óssea amarela1.

 

REFERÊNCIAS
1. Ross PW. Histologia texto e atlas-correlações com biologia celular e molecular (7a ed.). Guanabara Koogan, 2016.
2. Yamada AT, Joazeiro PP, Pereira LAV, Consonni SR. Biologia tecidual: um guia ao microscópio (1a ed.) [On-line]. Disponível em <http//www.biologiatecidual.com.br>. Acesso em: 13-6-2019.
3. Alvarez K, Nakajima H. Metallic scaffolds for bone regeneration. Materials 2009;2(3):790-832.
​4. Jee WSS. The skeletal tissue. In: Weiss L, editor. Cell and tissue biology (6th ed.). Urban & Schwarzenberg, 1988. p.211-54.

 

Luis Antonio Violin Pereira

Professor titular do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia (Unicamp-IB).
orcid.org/0000-0002-9332-7285

 

 

 

 

 

 

Colaboração:

Carolina Frandsen Pereira da Costa

Ilustradora; Doutoranda no programa de pós-graduação em Biologia Celular e Estrutural do Instituto de Biologia (Unicamp-IB).
orcid.org/0000-0001-8009-0517








 

Sílvio Roberto Consonni

Professor doutor do Depto. de Bioquímica e Biologia Tecidual (DBBT) da Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Biologia.
orcid.org/0000-0003-3149-021X

 

 

 

 

 

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