Publicado em: 05/09/2019 às 10h10

Protocolo de funcionamento individual sob medida e em terapia periodontal não cirúrgica

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Gianna Maria Nardi

Pesquisadora e professora da Universidade de Roma “La Sapienza”, na Itália; Doutora em Higiene Dental; Mestra em Ciências Assistenciais Técnicas em Saúde do Trabalhador; Diretora de Ensino da CLID Sapienza di Roma Polo B.


O jato de ar (air-polishing) é parte indispensável para qualquer tratamento de descontaminação de cavidades orais e base para prevenção odontológica de grandeza primária, secundária e terciária. Minha experiência clínica confirma aquilo que os estudos científicos evidenciam desde 1984: o air-polishing é o tratamento mais eficiente e eficaz no que diz respeito à remoção mecânica do biofilme bacteriano e à descoloração de raízes e coroas (Weaks et al, 1984). Além disso, provou ser eficiente para a manutenção da higiene profissional de implantes e próteses.

A placa bacteriana tende a ocorrer em áreas anatomicamente difíceis de serem alcançadas (como as interproximais) utilizando métodos caseiros de higiene oral. Inflamações causadas pela placa dental provocam recessões gengivais, perda de papila e exposição de superfícies radiculares. O risco de inflamação gengival e formação de bolsas periodontais maiores que 4 mm em profundidade aumenta com a idade:

• Nos indivíduos com mais de 35 anos, a recessão gengival é maior (quase o dobro) na superfície distal do primeiro molar em relação à superfície mesial;
• Com aproximadamente 50 anos de idade, a superfície distal dos molares superiores tem alta incidência de envolvimento de lesão de furca;
• Por volta dos 65 anos, a porcentagem de sobrevivência dos molares é pequena.

A higiene dental domiciliar é de suma importância para o controle efetivo de placas, especialmente em áreas de difícil acesso (como as interproximais). O paciente deve entender que é crucial garantir a saúde dos tecidos da cavidade oral e manter as terapias de reabilitação (Nardi et al. Técnica de adaptação personalizada. Minerva Stomatologica 2014;63(1-4):557).

É igualmente importante a gestão individualizada dos tratamentos periodontais não cirúrgicos, escolhendo uma tecnologia que permita o debridamento periodontal minimamente invasivo, porém altamente eficiente – e isso pode ser feito escolhendo instrumentos seguros e ergonômicos. O Combi Touch® Mectron, utilizado no estudo de caso deste presente artigo, evidencia uma abordagem válida desta tecnologia.

Este equipamento combina escarificação piezoelétrica multifuncional de alta precisão com um jato de ar (air-polishing), para fornecer tratamento completo de profilaxia supragengival e subgengival. A unidade de ultrassom, graças à opção soft mode, permite debridamento ultrassuave, garantindo ao mesmo tempo ótima performance com tratamentos protéticos e restaurativos, além de aquecer e manter a água do sistema a 27ºC, auxiliando no tratamento de pacientes que apresentam sensibilidade elevada.

A unidade de polimento a ar permite o uso de dois tipos de pó (bicarbonato de sódio ou glicina), dependendo do tipo de tratamento desejado. A maior vantagem é a capacidade de gerenciamento do uso de ambos no mesmo paciente com apenas um clique (Figuras 1). Além disso, não é necessário trocar a peça de mão do jato de ar. Basta inserir qualquer um dos três bicos de pulverização disponíveis com base na aplicação clínica desejada.

 

Figuras 1 – A unidade de air-polishing permite o uso de três bicos diferentes, de acordo com a necessidade do tratamento.


A manutenção do equipamento é rápida e simples,graças aos recipientes armazenadores de pó, que podem ser removidos sem a necessidade de desligar o dispositivo, e ao sistema exclusivo antientupimento. Ademais, pode ser conectado ao sistema regular de água do consultório ou à garrafa lateral (de 500 ml).
 

Estudo de caso

Paciente do sexo masculino com 67 anos de idade, com aparente boa saúde sistêmica, queixava-se de desconforto gengival e mau hálito. A observação clínica envolvendo o uso de uma câmera de vídeo revelou a presença de biofilme bacteriano e tártaro nos espaços interproximais (Figuras 2). Os registros do paciente mostram que, anos atrás, ele foi submetido à reabilitação prótese-implante e que, como resultado do alto nível de reabsorção óssea e da presença de infecções, foram extraídos vários elementos e substituídos por implantes (nas áreas 1.4; 1.5; 2.4; 2.5; e 4.6).

Figuras 2 – Observação clínica usando câmera de vídeo.


Um exame físico revelou a presença de vermelhidão evidente em torno da maioria dos colos dos dentes, com uma grande quantidade de biofilme bacteriano, principalmente ao longo das superfícies interproximais (Figura 3). Apesar de não haver sinais de abrasão nas superfícies dos dentes, sinais de desgaste foram evidentes ao longo da borda incisal dos componentes 4.3, 4.2, 4.1, 3.1, 3.2; e 3.3, com perda de verticalidade e de orientação canina, bem como excessiva incursão lateral.

Figura 3 – Situação inicial.

 

Resultados de raios X (Figura 4) revelaram reabsorção óssea horizontal nos quatro quadrantes, sendo as áreas anteriores superior e inferior as mais afetadas. Com exceção do terceiro quadrante, os molares e pré-molares foram extraídos e substituídos por implantes. Isso gerou a hipótese de que, uma vez que o acúmulo de placa e tártaro sempre começa no nível lingual/palatino dos molares, os danos periodontais e a reabsorção óssea resultante provavelmente atingiram níveis tão altos que o operador anterior foi forçado a adotar essa estratégia reabilitadora.

 

Figura 4 – Raio X inicial.


Tratamentos periodontais não cirúrgicos

A fim de proporcionar um campo operatório mais amplo e maior conforto ao paciente, foi utilizado afastador de lábio e bochecha. Um limpador de língua foi inserido no tubo ejetor de saliva (Figura 5). Após limpar a superfície da língua, o índice de placa foi medido utilizando um agente revelador de fluoresceína (Figura 6).

Figura 5 – Limpador lingual inserido no tubo ejetor de saliva.

 

Figura 6 – Índice de placa bacteriana sendo medido por meio do agente revelador de fluoresceína.


O dispositivo Combi Touch® Mectron foi usado para removeras placas clinicamente. O pó de glicina foi usado com o bocal de pulverização de 120º para escarificação da área posterior (Figura 7). O ângulo deste bocal de pulverização possibilita a realização de deplaqueamento de forma eficaz, mesmo nos casos em que há dificuldades decorrentes da estrutura anatômica incomum dos tecidos moles, posições dentárias diferentes ou presença de componentes protéticos em áreas de difícil acesso.

Figura 7 – Uso do Combi Touch® Mectron para remoção clínica de placas bacterianas das áreas posteriores, com pó de glicina e bocal de pulverização de 120º.

 

Para remover a pigmentação dentária particularmente difícil, um bocal de pulverização de 90º foi montado na mesma peça de mão (Figura 8), desta vez usando pó de bicarbonato de sódio, que é eficaz na remoção dessa pigmentação e na descontaminação de superfícies oclusais, graças ao jato especial que protege o tecido gengival.

 

Figura 8 – Para remover pigmentações dentárias difíceis, um bocal de pulverização de 90o foi instalado na mesma peça de mão, desta vez usando pó de bicarbonato de sódio.


Enquanto o air-polishing estava em andamento, foi utilizadoum instrumento que permitiu ejetar a saliva e as partículas de bicarbonato ou glicina, evitando a dispersão de gotículas de aerossol infectadas. O paciente ficou muito feliz pelo uso do Combi Touch® Mectron, principalmente pelo sistema aquecer a água à temperatura de 27ºC, garantindo o máximo conforto.

É importante realizar o debridamento antes de sondar, para prevenir a transmigração bacteriana. Se houver superfícies radiculares expostas, o deplaqueamento é realizado com o uso de glicina em pó, que é biocompatível, finamente micronizado e pode ser usado em tecidos gengivais delicados. O pó de bicarbonato de sódio, por outro lado, é reservado para as descolorações mais difíceis. Ao usá-lo, mantenha o dispositivo em constante movimento e a uma distância de 4-5 mm da superfície do dente.

Como o Combi Touch® Mectron combina o jato de ar e a tecnologia ultrassônica em um único dispositivo, o operador pode passar para uma escala suave com o uso do inserto S1 (Mectron S.p.a., Itália) no modo soft (Figura 9), reduzindo a amplitude de oscilação da inserção, tornando o seu movimento compatível para a utilização em pacientes ultrassensíveis. O passo posterior ao deplaqueamento é a sondagem periodontal (Figura 10), com a finalidade de identificar bolsas com mais de 5 mm. Estes locais são descontaminados utilizando o bocal perio de 120o, no qual a ponta subgengival descartável estéril foi montada manualmente, tornando-se possível a entrada na bolsa periodontal de forma minimamente invasiva. A ponta é macia, flexível e anatomicamente adaptável à bolsa. É usado somente com pó de glicina, com pequenos movimentos dentro da bolsa para descontaminar o local (Figura 11).

Figura 9 – Graças à combinação da tecnologia do Combi Touch® Mectron, o operador pode passarpara uma escala suave com o uso do inserto S1 no modo soft.

 

Figura 10 – Com a sondagem periodontal, é possível identificar bolsas com mais de 5 mm em vários locais.

 

Figura 11 – Descontaminação de bolsa periodontal > 5 mm com o uso de ponta perio, subgengival estéril e descartável.



Uso de instrumentos de higiene oral em casa

O paciente precisará utilizar escova interdental (Figura 12), em vez de fio dental, para limpar efetivamente espaços interproximais de difícil alcance e com pouco trauma. Para o controle efetivo de placa, foi recomendada a escova dental que mais se adeque às necessidades estruturais e anatômicas, a fim de proporcionar uma limpeza efetiva sob e ao longo da linha da gengiva, e nos espaços interdentais (Figura 13). Para o controle químico de placa, recomendou-se um enxaguante bucal que contenha 0,06% de CHX + 0,05% de CPC e GUM Paroex Gel, duas vezes ao dia.

Figura 12 – Higiene oral em casa com escova interdental para limpar de maneira eficaz os espaços interproximais de difícil alcance e diminuir o trauma.

 

Figura 13 – Para o controle eficaz da placa, recomenda-se uma escova de dentes adequada a qualquer necessidade estrutural e anatômica.


Um check-up realizado duas semanas após a primeira consulta mostrou melhora significativa dos índices clínicos (Figuras 14 e 15). O paciente, satisfeito e motivado pelo aconselhamento profissional recebido, compreendeu a importância de se seguir os protocolos operacionais domiciliares. Ele foi agendado para acompanhamento regular a cada três meses.

Figura 14 – Check-up realizado após duas semanas, mostrando a melhora significativa dos índices clínicos.

 

Figura 15 – Resultado final.



Conclusão

A tecnologia Combi Touch® Mectron possibilitou a descontaminação da cavidade bucal de forma eficaz, devido aos bicos de pulverização com diferentes ângulos (90º ou 120º), com diferentes ângulos (90º ou 120º). Aliado a isso, há a vantagem significativa de poder trabalhar de forma mais ergonômica, alcançando locais inacessíveis anteriormente, utilizando sempre os pontos de apoio adequados e/ou as posições dos dedos, sem que haja sobrecarga no punho. A maior vantagem para o operador, portanto, é que a tecnologia em questão fornece um conjunto completo de ferramentas para tratamento periodontal não cirúrgico efetivo, rápido e minimamente invasivo, mesmo em bolsas periodontais com profundidade superior a 5 mm.

 

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