INPN - O portal das revistas ImplatNews e PerioNews
 
Compartilhe   Compartilhe Twitter Imprimir Indique a um amigo
Publicado em: 13/04/2016 10h28

Hiperplasia gengival em portador de lúpus eritematoso sistêmico

Vitório Campos da Silva e equipe mostram caso de paciente com hiperplasia gengival não dilantínica em transplantado renal.

Os conhecimentos relativos à etiopatogenia da doença periodontal enfatizam a importância da interação da placa dentobacteriana e seus produtos, e a resultante alteração inflamatória e imunológica nos tecidos periodontais1. Avanços em diálise e outros tratamentos têm aumentado a expectativa de vida para pacientes com doenças renais crônicas1. A perda da função renal resulta no acúmulo de produtos tóxicos que alteram a homeostasia, responsável pelo equilíbrio hídrico e eletrolítico2. Com o avanço da doença, restam dois tratamentos: hemodiálise ou transplante. No transplante, o maior problema é a rejeição e, para evitar tal problema, utiliza-se a quimioterapia. Porém, pacientes sob este tratamento, são susceptíveis a septicemias e apresentam, ainda, deficiência na cicatrização. Schuller et al, em 19733, foram os primeiros a demonstrar que imunossupressores utilizados em transplantados, reduzem a resposta inflamatória frente à placa bacteriana. Portanto, drogas e doenças que alteram o sistema imune são de interesse do periodontista.

Ciclosporina (CsA)

Segundo autores4, a CsA é um imunossupressor utilizado em transplantados, bem como em várias doenças imunológicas, sendo um peptídeo cíclico hidrofóbico composto por 11 aminoácidos. Devido a sua baixa toxicidade e potencial para o tratamento de várias doenças sistêmicas, a sua introdução aumentou a expectativa de vida nos transplantados de órgãos e medula em cerca de 96% nos primeiros cinco anos5.

Efeitos colaterais: nefro e hepatotoxicidade, hipertricose, linfoma e fibrose pulmonar, pericardial e renal. Na Periodontia, o efeito colateral é o crescimento da gengiva, primeiramente reportado em 1983, e caracterizado por um excesso e acúmulo de tecido conjuntivo gengival e/ou acantose e acúmulo de substância extracelular (Figura 3).

Segundo Riffel6, a CsA afeta o nível de citocinas como fator de necrose tumoral alfa e beta IL-3, 4, 5 e 6, além de alterar o metabolismo dos fibroblastos, inibindo a sua proliferação, aumentando a síntese de proteínas e colágeno.

Usuários de CsA consomem outros medicamentos que também contribuem para o crescimento gengival.

Azatioprina: é um agente citotóxico derivado da 6-mercaptopurina que inibe a síntese de bases purínicas, suprimindo a síntese de ácidos nucleicos e proteínas.

Corticoides: com efeito anti-inflamatório e imunossupressivo, inibem a proliferação de células T em resposta a antígenos, previnindo a liberação de IL-1 (pró-inflamatória), de células acessórias.

Nifedipina: várias drogas, incluindo bloqueadores de canais de cálcio, levam a um aumento gengival, modificando a interação placa dentobacteriana/tecidos periodontais. O efeito vasodilatador e aumento do suprimento sanguineo da nifedipina é conhecido.

 

Lúpus eritematoso sistêmico (LES)

É uma alteração inflamatória do tecido conjuntivo, de etiologia desconhecida, ocorrendo predominantemente em mulheres jovens (90%) e lesionando os vasos sanguineos. O soro da maioria dos pacientes contém fatores antinucleares (FAN), sendo uma doença autoimune, com lesões renais que, em casos graves, levam ao transplante renal7. Importantes sinais no diagnóstico precoce da doença são as lesões purpúricas petequiais, eritamatosas e puntiformes no palato.

 

Caso clínico

Paciente de 27 anos, sexo feminino, portadora de LES e transplantada renal há três anos, foi encaminhada no ano de 2000, pelo setor de Transplantes Renais do Hospital de Base de Brasília, preocupada com a estética e aumento gengival (Figura 1).

Foram realizadas cirurgias periodontais, gengivectomia/plastia sob antibioticoterapia, indispensável em imunossuprimidos. Observar resultado pós-operatório (Figura 2). A presença de queloide revela alteração do colágeno (Figura 4).
 

Figura 1 – Aumento gengival e interferência oclusal.

Figura 2 – Aspecto pós-operatório da região vista na figura anterior.

 

Acantose e acúmulo de substância extracelular, HE (20x).

Presença de queloide revelando alteração do colágeno.

 

Considerações finais

A imunossupressão não deprime completamente o sistema imune, portanto, cirurgias periodontais são necessárias em períodos de tempo variáveis.

O termo de aumento ou crescimento gengival parece mais correto do que hiperplasia, pois não há um verdadeiro aumento no número de células e sim, acantose nas células gengivais e hiperatividade fibroblástica, resultando em acúmulo de substância intercelular, proteínas (em especial colágeno), no tecido conjuntivo subjacente.

 

Referências

  1. Heard E Jr et al. The dental pacient with renal disease: precautions and guidelines. J Am Dent Assoc 1978;96:792-6.
  2. Rose BD, Black RM. Manual of clinical problems in nephrology. Boston, Toronto: Little, Brown and Company, 1988. p.371.
  3. Schuller PH et al. Periodontal status of renal transplant pacients receiving immunossupressive therapy. J Periodontol 1973;44:167-70.
  4. Michael S et al. Cyclosporine a upregulates interleukin-6 expression in human gingival: possible mechanism for gingival overgrowth. J Periodontol 1994:895-903.
  5. Hassell TM, Hefti AF. Drug-induced gingival overgrowth: old problem, new problem. Crit Ver Oral Biol Med 1991;2:103-37.
  6. Ryffel B. Aktivierung von humane T-lymphozyten und Hemmung durch ciclosporin. Habilitationsschrift. University of Basle, 1986:89p.
  7. Robbins SL et al. Systemic lupus erythematosus. In: pathologyc basis of disease. WB Saunders 1994;959-60.

 

Obs.: Se houver interesse, solicite o artigo completo pelo e-mail: vitoriodentistry@gmail.com.

 

Vitório Campos da Silva


Especialista em Periodontia, Esp. em Implantodontia, Pós-graduação UIC/Chicago IL, Mestre em Implantodontia, PhD Patologia Celular e Molecular, Pós-doutorando em Medicina.

 

 

 

 

 

Colaboração: 

Asp ODT Medeiros, Esp. em Ortodontia. Exército, Brasília DF

1° Ten Bruna Campos, Esp. em Radiologia. Aeronáutica, Brasília DF

 

 



E-mail
Cadastre seu e-mail e receba nossas Newsletters