INPN - O portal das revistas ImplatNews e PerioNews
 
Compartilhe  Compartilhe Twitter Imprimir Indique a um amigo
Publicado em: 15/12/2015 08h53

Utilização das diferentes tecnologias e técnicas laboratoriais na reconstrução das reabilitações totais

A seção Esse caso eu faço assim apresenta os casos clínicos de Dario Adolfi.
Dario Adolfi

Dario Adolfi é um daqueles raros profissionais capazes de transitar com naturalidade tanto no ambiente clínico como no laboratorial. Seu talento natural, aliado à sua visão integrada de cirurgião-dentista e ceramista, o levou a ser um dos mais reconhecidos nomes da Odontologia brasileira.

Nesta edição, ele traz um de seus casos clínicos inéditos, mostrando como diferentes técnicas e tecnologias podem ser associadas para a obtenção de um resultado satisfatório de alta previsibilidade. O periodontista Maurício Adolfi o acompanhou na condução do caso.

*Cirurgião-dentista formado pela Universidade de São Paulo, ceramista, diretor do Centro de Educação Spazio Education e palestrante internacional. Ele também é o autor do livro “A Estética Natural”, publicado pela Quintessence International em português, inglês, espanhol e russo, e autor de vários artigos na área Estética.

 

Introdução

As novas tecnologias vêm trazendo grande possibilidade para uma alta previsibilidade estética e funcional para as reabilitações totais. Essas tecnologias envolvem novas técnicas laboratoriais e materiais cerâmicos que muitas vezes são utilizados sem total conhecimento, principalmente pelo técnico dental, levando a fracassos através de fraturas ou outros insucessos que poderiam ser evitados.

Relato de Caso Clínico

No caso clínico que será descrito, o paciente apresentava vários trabalhos que foram executados de maneira pontual e que necessitavam de um planejamento com todos os requisitos estéticos e funcionais para uma melhor previsibilidade a longo prazo (Figuras 1 a 3).

Foi realizada uma desprogramação neuromuscular, para obter a correta posição de relação cêntrica do paciente, e a montagem dos modelos de diagnóstico em um articulador semiajustável com a utilização do arco facial. O enceramento de diagnóstico foi baseado em um protocolo estético e funcional para reabilitação oral, para a posterior confecção das coroas provisórias que devem ser baseadas neste protocolo1 (Figuras 4 a 6).

Foi utilizada a combinação das tecnologias CAD/CAM (computer-aided design/computer-assisted machining) para a produção das infraestruturas de zircônia, e um sistema de cerâmica prensada para a produção da cerâmica de cobertura sobre as estruturas de zircônia (Figuras 7 e 8). Para a finalização estética dessas restaurações, também foram aplicadas as técnicas laboratoriais de maquiagem e estratificação cerâmica, com os ajustes morfológicos estéticos e funcionais baseados no checklist estético2 (Figuras 9 e 10).

Tecnologia CAD/CAM

Com a tecnologia CAD/CAM do sistema Cerec, foram produzidas todas as infraestruturas de zircônia pela técnica do duplo escaneamento, baseadas no enceramento de diagnóstico executado com alta qualidade em um articulador semiajustável. A técnica do duplo escaneamento consiste na digitalização dos enceramentos de diagnóstico feitos para cada dente e, posteriormente, na digitalização dos preparos dentais (ou vice-versa), com o objetivo de produzir uma infraestrutura compensada que dará suporte para a porcelana de recobrimento, com uma distribuição uniforme do material, evitando possíveis fraturas (Figuras 11).

As infraestruturas de zircônia, após fresagem, são submetidas a um processo de sinterização que resulta em uma contração desse material, tornando-se altamente densificadas, atingindo uma resistência flexural em torno de 1.000 a 1.200 MPa.

As estruturas de zircônia são posicionadas sobre os preparos e transferidas através de uma moldagem de transferência, para a confecção dos modelos de trabalho (Figuras 12 a 16).

Tecnologia prensada

A técnica de prensagem sobre as estruturas de zircônia é uma alternativa para a produção de restaurações cerâmicas. Este processo baseia-se nos passos de produção conhecida de fundição e da técnica de prensagem regular. A grande vantagem dessa tecnologia está no restabelecimento estético e funcional através de um enceramento de alta qualidade sobre as infraestruturas de zircônia, sem a necessidade de um ceramista com habilidades especiais. Foram utilizadas as pastilhas de cerâmica vítrea de fluorapatita IPS e.max ZirPress, na cor HT A1, que apresentam um alto grau de translucidez e que têm o melhor comportamento estético para a técnica de maquiagem (Figura 6).

As infraestruturas de zircônia devem receber um recobrimento de ZirLiner, que ajuda na individualização da cor, fluorescência e nas qualidades de adesão da cerâmica prensada sobre a zircônia. Os procedimentos de injeção direta sobre as estruturas de zircônia, sem a aplicação do ZirLiner, resultam em pobres ligações que podem levar à delaminação. As estruturas não devem ser jateadas com óxido de alumínio ou pérolas de vidro para polimento, pois podem causar danos às superfícies. Somente após a aplicação do ZirLiner é que se deve fazer o enceramento e todo o processo para a prensagem com as pastilhas e.max ZirPress.

As coroas injetadas devem ser ajustadas no modelo de trabalho para a correta localização dos contatos oclusais e interproximais (Figuras 20 a 22). Posteriormente, é realizada a prova das coroas em boca, para possíveis ajustes oclusais e avaliação do guia anterior (Figuras 23 a 26).

A morfologia pode ainda ser melhorada com a técnica de reconstrução oclusal, denominada “técnica sem ponta”. Essa técnica consiste na preparação de uma broca de carbide de alta rotação (701), removendo toda a ponta ativa com um disco ou broca de diamante. A broca de carbide modificada é colocada em uma turbina laboratorial com 3.5 bars de pressão, iniciando-se a reconstrução pelas partes mais profundas da anatomia oclusal (sulcos principais e fossas).

Posteriormente, esses sulcos são arredondados com uma broca esférica de diamante, de menor tamanho possível, em um motor de bancada, com uma rotação aproximada de 25.000 rpm. Essa é a única maneira de se reconstruir a morfologia oclusal, por ser uma técnica regressiva, já que depois do ajuste oclusal em boca não será mais possível acrescentar material cerâmico sem criar novas interferências dos contatos oclusais (Figura 27).

Técnica de maquiagem

Na técnica de maquiagem, as restaurações injetadas são individualizadas com os diversos pigmentos de cor (IPS e.max Ceramic Shades, Essence), Figuras 28 e 29. Camadas bem finas desses pigmentos devem ser aplicadas após o acabamento e fixadas na temperatura de 770°C. Muitas vezes, serão necessárias várias queimas de fixação desses pigmentos para atingir os resultados esperados.

Duas queimas de material de glaze, com os mesmos parâmetros de queima dos materiais de pigmentação, devem ser feitas para assegurar que estes pigmentos não sejam removidos durante o processo de polimento e na escovação.

Um procedimento clínico bastante importante é a prova de, pelo menos, uma ou duas coroas maquiadas antes das restantes, para realizar um teste de cor e verificar a qualidade do resultado final. Isso vai evitar perda de tempo com uma maquiagem equivocada de todo o trabalho e possíveis correções e queimas desnecessárias (Figura 30).

Após a queima de glaze, as coroas cerâmicas devem ser polidas com pedra-pomes e feltro em um torno de bancada, para controlar o brilho superficial (Figuras 31 a 33).

Técnica de estratificação

A técnica de estratificação consiste em uma pequena redução de toda a superfície vestibular das coroas injetadas dos dentes anteriores, para obter melhor qualidade de translucidez e individualização da cor, com os diversos materiais incisais (Figuras 34 a 39).

Na zircônia, por esta não ser uma boa condutora de calor, é muito importante um resfriamento lento após o ciclo de queima com os materiais de estratificação, assegurando uma distribuição de calor uniforme, evitando estresse dentro do sistema e minimizando o risco de delaminação.

As coroas cerâmicas foram cimentadas com cimento Panavia 2.0, por apresentar melhor qualidade de cimentação para restaurações com infraestruturas de zircônia3.

Conclusão

Uma reabilitação total deve ter um diagnóstico, um prognóstico e um plano de tratamento bem definido, para uma previsibilidade a longo prazo.

A utilização das tecnologias CAD/CAM e injetada é uma excelente opção para a reconstrução das reabilitações totais, principalmente por se basear em um enceramento de alta qualidade, em que a maioria dos procedimentos laboratoriais não necessita de técnicos com grande experiência na técnica de estratificação cerâmica.

A combinação dessas tecnologias não só oferece uma previsibilidade a longo prazo, mas também um excelente desenvolvimento dos aspectos anatômicos e morfológicos das superfícies oclusais, com os corretos pontos de contato. Essas reabilitações devem ter um acompanhamento clínico constante para a avaliação do comportamento desses novos materiais, quando submetidos a esforços mastigatórios.

O trabalho executado foi finalizado em outubro de 2013, com acompanhamento clínico e radiográfico a cada seis meses, não sendo observados, até então, fratura ou insucesso relacionados a esses trabalhos.

Referências

  1. Adolfi D, de Andrade OS, Vernazza GJ, Adolfi MC. Functional and Esthetic Protocol for Oral Rehabilitation. In: Duarte Jr. S (ed). Quintessence of Dental Technology. Vol. 36. Chicago: Quintessence, 2013. p.139-61.
  2. Adolfi D. Functional, esthetic, and morphologic adjustment of anterior teeth. In: Duarte Jr. S (ed). Quintessence of Dental Technology. Vol. 32. Chicago: Quintessence, 2009. p.153-68.
  3. Blatz et al. J Prosthet Dent 2004.

Galeria


Assuntos Relacionados:
PróteseNews; Dario Adolfi; Maurício Adolfi; Esse caso eu faço assim; reabilitação total


E-mail
Cadastre seu e-mail e receba nossas Newsletters