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Publicado em: 14/04/2016 09h40

Os caminhos da Prótese Dentária

Paulo Martins Ferreira conta sua trajetória na Odontologia.
 

Nesta entrevista à PróteseNews, Ferreira fala sobre experiências, convicções, relacionamento profissional e o que o mercado espera dos protesistas desta geração.

Paulo Martins Ferreira

Paulo Martins Ferreira
Foi professor no Departamento de Prótese e Periodontia da FOB/USP. Fez o seu Master na Boston University, em 1984, e coordena uma equipe que, há mais de 27 anos, tem desenvolvido profissionais na inter-relação Prótese/Periodontia, atualizando e fornecendo novos insights que aceleram o aprendizado.


PróteseNews Você veio da Prótese Dentária, se encantou pela Periodontia e pegou os implantes “no olho do furacão”. Como foi esta história?

Paulo Martins Ferreira A chegada à Boston foi o sonho de estudar nos Estados Unidos, embora minha geração tivesse aversão aos norte-americanos. Fui para lá com o intuito de fazer Prótese, mas perdi os primeiros 45 dias de aula porque a bolsa demorou a sair pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Então, ofereceram-me o curso de Periodontia e, em uma conversa com o Dr. Waldyr Janson, que na época estava à frente do Departamento de Prótese da FOB/USP, ele me aconselhou que aceitasse. Em vez de fazer a especialização – e eu tinha doutorado em Prótese Dentária –, comecei no Master em Periodontia. Devido ao desencontro do calendário, o meu projeto de tese também foi deslanchado no primeiro ano, e os dois últimos anos foram voltados para a clínica.

PróteseNews Por que Boston atrai? Qual é o diferencial?

Paulo Martins Ferreira Na minha turma estavam Stefano Parma Benfenati e Colby Landsberg (dois nomes gigantes em publicação), e na turma anterior fui “bicho” do Massimo De Sanctis (outro grande nome). Acredito que a Boston University, naquele tempo, tinha os grandes nomes da Periodontia, como Henry Goldman (no departamento) e Myron Nevins, Hyman Smukler e Gerald Kramer (professores na clínica), além de Morris Ruben, na parte básica (pesquisas). O enfoque clínico era muito grande, tínhamos quase quatro dias de clínica e tudo estava concentrado no mesmo andar: Prótese, Periodontia e Endodontia. Apenas a Ortodontia ficava no andar superior. O planejamento era integrado, com a complementação reabilitadora. Não era comum o uso de implantes nos Estados Unidos, o que só aconteceu depois de 1985. Embora a Universidade de Harvard já falasse dos implantes, ainda não tinha a notoriedade da Boston University.

PróteseNews O que se fazia em Prótese lá fora já era muito diferente?

Paulo Martins Ferreira Não. Na época, o Departamento da FOB/USP já era bem atualizado, e os nomes citados acima eram dos professores do Waldyr Janson. A diferença estava na disponibilidade de material e instrumental, mas nossa técnica já era boa.

PróteseNews Sobre os implantes no planejamento da prótese, como foram interpretados pelas universidades lá fora?

Paulo Martins Ferreira Acho que a mudança de paradigma foi bem colocada. A minha geração é da secção de raízes, ou seja, o pilar que você iria colocar na formação do polígono de esplintagem de dentes. Falava-se em conexão rígida. A interpretação foi suave, mesmo porque, se você observar, a Universidade da Pensilvânia é uma coirmã da escola de Boston. O Dr. Walter Cohen e o Morton Amsterdam davam aulas em Boston, então, tudo estava alinhado.

PróteseNews Você acha que hoje estamos muito teóricos em relação às disciplinas clínicas?

Paulo Martins Ferreira Lá fora, para ser professor de Prótese, Periodontia etc., era preciso trabalhar na clínica. Esta é a filosofia. Acho que os requisitos de produção científica mudaram a ênfase. Por exemplo, como um professor de Prótese vai ensinar um preparo de dentes ou características de coroas provisórias se não sabe como fazer? Muitas vezes, isso se reflete nos profissionais formados, que não têm ideia do que seja uma coroa provisória. Por isso, no curso lá fora, o estudante de Periodontia não fazia a prótese, mas sabia suas características para guiá-lo na cirurgia. Já se fazia o enceramento diagnóstico, que hoje é referido como o planejamento reverso.

PróteseNews Nos últimos anos, as próteses estão mais para troca ou novos casos? Elas estão falhando antes do tempo? Isto está relacionado aos implantes?

Paulo Martins Ferreira Eu digo que não é a prótese em si, mas sim falha do profissional que aceita um determinado trabalho inadequado do laboratório e leva adiante o tratamento. Não há critério. Há quem diga “Eu não faço mais prótese metalocerâmica”. Concordo que vieram outros materiais – e isto é bom –, porém, não é a prótese que falha, é a indicação. Por exemplo, dizem que ela “não tem estética, não tem translucidez”, mas será que não faltou desgaste, por exemplo, na região proximal? O que dá estética é o preparo para receber o trabalho. Da mesma forma, este desgaste proximal também implica na altura da conexão da prótese e da higienização. Daí, voltamos na importância da coroa provisória, na indicação do procedimento cirúrgico e na indicação do material restaurador. Muitos dentes não têm altura de coroa clínica suficiente, então, economiza-se no desgaste e peca-se na qualidade final da prótese.

PróteseNews E a importância dos contornos da prótese: onde estão os detalhes?

Paulo Martins Ferreira O protesista precisa saber que, se o contorno da prótese não está adequado, ela é um fator etiológico secundário para a doença periodontal, já que o primeiro é a placa dentobacteriana. Penso que o troquel recortado errado depende da qualidade do molde dado ao laboratório. A minha geração foi treinada para fazer o recorte do troquel. Ao trabalhar bem a coroa provisória, haverá espaço para higienização. Entretanto, o tecido circundante pode estar alterado, e aqui é importante trabalhar com um periodontista que saiba o caminho a ser trilhado.

PróteseNews Quais são os pontos fundamentais nesta curva de aprendizado Prótese e Periodontia?

Paulo Martins Ferreira Um assunto que ainda hoje é muito discutido em Prótese reside em um artigo de quase 60 anos: as distâncias biológicas do trabalho clássico de Gargiullo, Wentz e Orban. O grande problema da prótese ainda é este. Vá aos laboratórios, olhe os modelos e veja se existe espaço sufi ciente entre os términos cervicais e entre as raízes adjacentes. Não há adaptação da prótese, a falha é do observador: o dentista. Existe uma indução do erro ao protético, não há contorno. Então, pede-se para acrescentar um pouco na proximal e a papila fica comprimida. Tira-se a cerâmica e surge a camada de opaco. Daí surge a banalização da manutenção dos dentes. Existe uma deficiência técnica na formação e na educação, pois o profissional desconhece a patologia periodontal. Eu ainda preciso comentar a sequência da terapia. Ensine a higienizar e controle os fatores locais (cárie, sobrecontornos nas restaurações). Muitas vezes, para termos controle do tecido, partimos para coroa provisória, não com requinte, mas sim para restabelecimento da lisura da superfície. Antes de tudo, é preciso limpar e entender as reações dos tecidos marginais. Em um segundo acesso com a sonda, a profundidade de bolsa diminui, mas o defeito ósseo ainda estará lá. Na minha época, era “bolsa zero” mesmo, o que gerava coroas clínicas longas e o contorno da deflexão dupla, mas era “chique” ter o dente longo.

PróteseNews Casquete e fio para afastamento: como você vê isto do ponto de vista clínico?

Paulo Martins Ferreira A melhor técnica de moldagem é aquela que você domina. O que eu não aceito é que a técnica do casquete seja menos agressiva que a técnica do fio de afastamento gengival. O acrílico e o fio, mecanicamente, levam à liberação de fatores inflamatórios (clique aqui e veja neste trabalho). Uma técnica não supera a outra, as duas causam problema. Hoje, com os novos materiais restauradores, a preocupação em se levar o término do preparo subgengivalmente é uma questão fora de discussão.

PróteseNews Escolha de componentes protéticos: uma grande pedra no sapato ou estamos batendo cabeça?

Paulo Martins Ferreira Bate-se cabeça sem necessidade, estão esquecendo a criatividade. Prefere-se uma prótese cimentada e não aparafusada, e este não é o meu problema na clínica. Agora, ao optar por uma prótese cimentada, entenda o pilar como se fosse um dente, ou seja, faça uma extensão submarginal para que tenha acesso para remover os remanescentes de cimento. Caso contrário, a literatura norte-americana está aí com mais de 50% dos casos de peri-implantite. Veja: isto vai ao encontro da história dos componentes protéticos. O profissional quer usar um implante famoso, mas o componente é pirata! Vamos lembrar que na literatura não se recomenda intercâmbio de componentes. Se o meu paciente tem um biotipo gengival fino e eu não vejo a necessidade de “engrossar” este biotipo, se eu optar pela prótese cimentada e um pilar de zircônia, vou querer que o técnico tenha posicionado o término 1 mm abaixo da margem gengival. Em uma mucosa (e não gengiva) peri-implantar, eu consigo acesso. A modernização não substitui a capacidade de raciocínio.

PróteseNews E a conversa do protesista com o técnico de laboratório?

Paulo Martins Ferreira Sempre defendi esta conversa, o que me remete à questão da passividade da prótese. Não é porque a prótese está unida (soldada) que ela deve entrar automaticamente. Não busque manualmente um paralelismo, não faça desgastes. No laboratório, a peça está adaptada. O profissional de Prótese tem que conhecer o laboratório.

PróteseNews Quais são os pontos mais importantes das próteses para carga imediata?

Paulo Martins Ferreira Primeiro: o planejamento; segundo: o posicionamento dos implantes. Então, tenha um modelo previamente estabelecido. Terceiro: a transferência; quarto: o cuidado com as promessas de entrega (24, 48, 72 horas), pois nada vale colocar uma infraestrutura e provocar tensão, já que são as horas críticas da prótese; quinto: usar implantes com bom comprimento e número; sexto: não dê a oclusão que veio do laboratório como certa, use um guia suave, não um “levantamento” pelos dentes anteriores ou pelo canino; e sétimo: saber o nível de atividade muscular (bruxismo).

PróteseNews Você tem dois filhos que são dentistas. Na geração deles, o que é diferente?

Paulo Martins Ferreira Eles interpretam muitas coisas de maneira diferente, mas o conhecimento técnico é fundamental. Hoje, o mercado é diferente, mas o paciente continua procurando o melhor e quer alguém que apresente resultados. Vale lembrar: a mídia e as redes sociais expõem o profissional ao julgamento público, então, é preciso que você seja especialista no assunto.

PróteseNews Para quem começa hoje na Prótese, o que você diria?

Paulo Martins Ferreira Posso recomendar que faça o mesmo caminho que fiz, mas que também tenha o conhecimento básico de preparo de dentes, dimensão vertical e do articulador, e os conceitos estéticos de montagem de dentes em prótese total, para absorver melhor o conhecimento da nova geração (por exemplo, o DSD). É mais uma arma para que a conversa com o técnico de laboratório flua tranquilamente.


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Prótese Dentária; Paulo Martins Ferreira; FOB; USP


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