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Publicado em: 2/23/2017 35h4

Miniplacas e mini-implantes: uma questão de tendência?

Em entrevista, o ortodontista alemão Benedict Wilmes detalha os dispositivos de ancoragem esquelética.
Benedict Wilmes (esq.) e Luiz Gandini Júnior (dir.) conversaram sobre dispositivos de ancoragem esquelética (foto: Jaime Oide).

 

A convite da revista OrtodontiaSPO, o ortodontista brasileiro Luiz Gandini Júnior, professor adjunto 3 do Depto. de Clínica Infantil de Ortodontia da Faculdade de Odontologia de Araraquara (Unesp), entrevistou o ortodontista alemão Benedict Wilmes, professor titular do Depto. de Ortodontia da Universidade de Düsseldorf, que possui ampla experiência na área de ancoragem esquelética. Essa é a primeira de uma série de encontros que marcam um intercâmbio de conhecimento entre grandes profissionais brasileiros e importantes nomes da Ortodontia internacional.

Neste bate-papo sobre dispositivos de ancoragem temporária (DATs), Wilmes faz um panorama sobre o patamar desta técnica na Alemanha e revela como as novas tecnologias podem ser incorporadas à rotina dos consultórios.
 

Luiz Gandini Júnior – Qual a sua visão sobre mini-implantes e miniplacas? E como esses dispositivos mudaram a Ortodontia nos últimos anos?
Benedict Wilmes – Hoje em dia, temos ótimas condições utilizando os dispositivos de ancoragem temporária (DATs) e podemos fazer o tratamento – em alguns casos – de modo mais eficaz. No entanto, houve períodos em que os profissionais usaram mini-implantes em todos os pacientes, sendo que alguns os “parafusaram demais”. No entanto, acho que saímos dessa fase hiperentusiasmada para uma fase de prática diária, na qual utilizamos implantes e placas apenas nos pacientes que realmente precisam e onde eles efetivamente podem ajudar. Agora acredito que voltamos à fase normal, na qual os DATs estarão sempre presentes no campo da Ortodontia, e isso é um fenômeno de alguns anos que fará parte da Ortodontia nas próximas décadas.
 

LGJ – Na Alemanha, os ortodontistas usam com frequência mini-implantes e miniplacas?
BW – Não conheço números concretos, mas, só de falar com os profissionais, percebo que a maioria tem implantes e instrumentos de remoção/colocação em seus consultórios. Eles não são usuários assíduos, embora existam alguns trabalhando muito com isso. Na Alemanha temos uma situação particular, pois cada ortodontista tem um técnico de laboratório em seu consultório. Por isso, estamos um pouco “viciados” tecnicamente, por conta de nosso histórico com aparelhos removíveis, além de termos uma tendência para mecânicas um pouco mais sofisticadas. Não precisamos enviar o aparelho para um laboratório externo, então, talvez haja aparelhos mais sofisticados na Alemanha, em comparação com outros países.
 

LGJ – Em relação aos mini-implantes e às miniplacas, quando você sugere usar um em vez de outro? Você tem alguma preferência?
BW – Na Universidade de Düsseldorf, estamos acostumados a utilizar a região anterior do palato no arco superior e entendemos que é um bom local de inserção. Nossa estratégia na maxila é usar somente mini-implantes no palato, e este é utilizado para diversos propósitos (distalização, mesialização, expansão, intrusão molar em casos de abertura posterior etc.). Na mandíbula, para movimentações no arco inferior, cada vez mais optamos por miniplacas, dependendo da idade do paciente. Se ele é muito jovem, instalamos miniplacas porque o osso entre os dentes não é denso e não está “maduro”, já que formou-se há pouco tempo e, portanto, apresenta densidade óssea muito baixa. Com essas características, os mini-implantes não funcionarão. Por isso, em pacientes jovens utilizamos miniplacas e, quando for mais velho ou adulto, adotamos mini-implantes no arco inferior. Resumindo, as miniplacas são utilizadas em nossa universidade, principalmente, no arco inferior para crianças, para tratamento ortopédico e para fechar o espaço no arco inferior, no caso de ausência de dentes.
 

LGJ – No Brasil, temos alguns problemas relacionados às miniplacas. Além do custo, os pacientes têm medo da cirurgia. Na Alemanha, como é aceitação dos pacientes em relação a esse tratamento?
BW – Temos os mesmos pacientes e os mesmos medos, então, ao usar mini-implante ou miniplaca é preciso explicar o porquê, os prós e os contras. Não podemos forçá-los a aceitar, a decisão é do paciente e dos pais. Você deve falar sobre os problemas que podem ocorrer e, embora seja uma cirurgia, os pacientes não sentem. Na verdade, eles se preocupam principalmente com o custo e com a dor. Nós fizemos um estudo sobre isso: se você colocar um mini-implante, talvez o paciente sinta dor por um dia, mas se você trocar os fios, ele sente dor por uma semana. Nós achamos que os parafusos são dolorosos, mas para os pacientes é outra história, eles têm uma perspectiva diferente e você tem que falar sobre isso também.
 

LGJ – Percebemos algumas tendências, como o fato de alguns profissionais diminuírem o comprimento dos implantes para as miniplacas e tentar usá-las em dentição mista. Também há outras sugestões, como aumentar o tamanho do parafuso em vez de usar um miniparafuso, de usar algo como um macroparafuso na área zigomática ou na área do manto para substituir as miniplacas. Você tem alguma experiência com isso? Qual é a sua perspectiva para o futuro?
BW – Sempre existem novas experiências, novas ideias e ortodontistas tentando coisas novas, mas o problema é que toda terapia tem prós e contras. Se você estiver usando implantes longos em vez de uma miniplaca, poderá haver alguns problemas, pelo fato de os macroparafusos estarem inseridos em mucosa móvel. Estou aberto a tudo, vamos ver nos próximos anos como os pacientes aceitarão esses parafusos longos e como será a taxa de sucesso. Embora a técnica dos macroparafusos seja interessante, acredito que é melhor fazer uma pequena cirurgia e, nos meses seguintes, durante o tratamento, trabalhar com as miniplacas. Talvez seja uma boa opção investir um pouco mais em uma pequena cirurgia para evitar alguns problemas durante o tratamento, como infecções no implante longo que está passando pela mucosa móvel.
 

LGJ – Você tem alguma experiência com os macroparafusos?
BW – Nós inserimos os parafusos longos na área do zigomático para intrusão molar. Funciona, mas o paciente não costuma ficar satisfeito porque o parafuso fica estável, mas a mucosa se movimenta, então ele sempre sente dor. Portanto, o paciente não fica tão à vontade com esses parafusos longos.
 

LGJ – E isso se relaciona com o tratamento da classe III também?
BW – Sim, nós temos um protocolo em Düsseldorf para a classe III, no qual usamos parafusos no arco superior e no palato, porém, no arco inferior não temos duas placas, mas apenas uma placa, e isso não é um grande problema para o paciente. Claro que são duas cirurgias, uma para inserir a miniplaca e outra para removê-la, porém, temos obtido bons resultados até agora com esse protocolo.
 

LGJ – Qual é a principal diferença entre o padrão de tratamento de um ortodontista brasileiro e um ortodontista em geral? O que você sente sobre isso?
BW – Eu não conheço a fundo os procedimentos no Brasil, o que vejo é que vocês têm muitos pacientes adultos. Em segundo lugar, andando pelas ruas, vejo que muitos adultos usam aparelho fixo. Na Alemanha, temos mais pacientes jovens porque o tratamento ortodôntico é coberto pelo plano de saúde público. É um sistema similar e com idades de tratamento parecidas ao que acontece nos Estados Unidos. Na Alemanha, não vemos muitos adultos com aparelho fixo porque eles não gostam de aparelhos visíveis, então temos usado aparelhos linguais e alinhadores. Também consigo ver uma tendência de menor incidência em tratamentos com aparelhos linguais e uma maior frequência de tratamentos com alinhadores. Por quê? É mais confortável, tanto para o paciente quanto para os dentistas. Nos próximos anos, a tecnologia dos alinhadores vai melhorar ainda mais e nós, em Düsseldorf, estamos combinando nossa mecânica de acessórios deslizantes no palato com os alinhadores. Então, fazemos coisas difíceis com a mecânica DAT e finalizamos com os alinhadores, o que acho ser uma boa opção para o futuro do tratamento invisível. Não sei como é no Brasil, mas talvez haja uma tendência de optar por mecânicas invisíveis também. Veremos nas próximas décadas.
 

LGJ – Temos muitos ortodontistas jovens no Brasil, então como você os aconselharia em relação ao uso de aparelhos? Você poderia comparar qual é a melhor maneira de ensinar os jovens a praticar a Ortodontia e colocar um equilíbrio entre a maneira tradicional de ensinar e as novas tecnologias?
BW – Em primeiro lugar, sou fã das novas tecnologias, então não é algo que devemos proibir. Se você usá-las da maneira certa, irá ajudar. Mas, por outro lado, há um risco de que jovens ortodontistas e clínicos gerais, pensem “ok, agora eu posso fazer tudo, não preciso estudar e me especializar”, e assim não aprenderão o básico da Ortodontia. No meu ponto de vista – e é isso que nós fazemos na universidade – eles aprendem sobre os tratamentos com aparelhos convencionais primeiro, então devem fazer dobras, alças de fechamento de espaços e assim por diante, além de todas as dobras de primeira e segunda ordem. Acho que eles podem incluir a tecnologia, seus sistemas e braquetes preferidos, mas é claro que você deve aprender o tratamento tradicional para ver o que é possível ser feito com o básico da Ortodontia.


Assuntos Relacionados:
Miniplacas; mini-implantes; entrevista; ortodontia; Benedict Wilmes; dispositivos de ancoragem esquelética; Luiz Gandini Júnior


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