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Publicado em: 17/08/2017 10h56

Guillermo Cagnone: a Prótese Dentária sob o olhar de los hermanos

A Argentina carrega similaridades com o Brasil, porém, o modelo de formação em Odontologia e algumas vivências ainda são diferentes.
Fachada da Faculdade de Odontologia da Universidade de Buenos Aires. (Fotos: Shutterstock e divulgação)

 

 
Por Paulo Henrique O. Rossetti
 
O argentino Guillermo Cagnone foi apresentado à Odontologia por um irmão, que é técnico em prótese dentária e com quem continua trabalhando até hoje. Todo seu desenvolvimento acadêmico aconteceu na Faculdade de Odontologia da Universidade de Buenos Aires, na capital argentina. Foi nesta instituição que ele obteve o título de especialista em Prótese Dentobucomaxilar e se tornou professor adjunto no Depto. de Clínica II de Cirurgia e Prótese, e professor coordenador do curso de especialização em Prótese Dentobucomaxilar.
 
Nesta entrevista, Cagnone fala sobre as características do ensino de Odontologia na Argentina e sobre os conceitos adotados na prática da Prótese Dentária.
 
 
PróteseNews – A Argentina é um país de grandes professores que sempre foram buscar conhecimento em outros países. Como se explica essa tradição?
Guillermo Cagnone – A Argentina foi muito influenciada pela cultura e pelas correntes imigratórias europeias, desde a segunda metade do século 19. Entre os anos 1870 e 1930, teve um intercâmbio comercial muito forte com os países europeus, que deixaram sua marca em nossos costumes, arquitetura e educação. As famílias mais ricas da época enviavam seus filhos para estudar na Europa, especialmente na França e Inglaterra. Mais tarde, por volta dos anos 1940-1950, com a consolidação da universidade, formaram-se várias gerações de dentistas – muitos deles se projetaram com grande expressividade, como Grinspan, Saizar, Maísto, Parula, Ritacco, Etchepareborda, Carranza, Alonso e Alvarez Cantoni, para citar alguns. Neste sentido, quero destacar a educação universal e gratuita que a Universidade de Buenos Aires, há mais de 200 anos, oferece a todos os alunos de graduação.
 
 
PrNews – Qual a sua opinião sobre próteses totais em zircônia? A taxa de sobrevida é boa?
GC – É uma pergunta controversa. A zircônia, também conhecida como “metal branco”, é um material biocompatível, leve, rígido, estético e caro, que chegou a ter muitas aplicações em Odontologia Restauradora. Em referência à sobrevida em estruturas totais para próteses fixas implantoassistidas, estudos recentes relatam uma taxa significativa de ruptura em mandíbulas, provavelmente por causa de sua extrema rigidez e flexão mandibular no sentido horizontal. Na maxila superior, elas parecem ter uma perfomance melhor.
 
Em uma pesquisa pessoal feita com quatro técnicos em prótese dentária de laboratórios de qualidade de Buenos Aires, concluiu-se que a porcentagem de estruturas totais de zircônia não excedia 5%, quando comparada às estruturas metálicas (enceradas ou CAD/CAM) requisitadas por protesistas a seus laboratórios. Eles atribuíram a pouca aceitação dessas estruturas, por parte da comunidade odontológica da Argentina, devido ao seu elevado custo e significativo percentual de ruptura ou chipping, embora todos digam que esse último problema possa ser diminuído em estruturas não monolíticas, com o correto desenho digital ou enceramento que preservam a espessura uniforme para o recobrimento da porcelana.
 
Sala recém-modernizada de Clínica Cirúrgica da universidade argentina.

 

PrNews – Como funciona o programa de pós-graduação? Qual a duração, programação básica e filosofia de reabilitação bucal?
GC – Nossa pós-graduação em Prótese Dentobucomaxilar é composta por 1.280 horas, distribuídas em quatro módulos. Há cinco anos, incorporamos a modalidade de e-learning para os módulos 1 e 2, com um total de 380 horas. Nestes dois módulos, os alunos adquirem conhecimento teórico sem sair de casa ou do trabalho, por meio de aulas, seminários, fóruns semanais e demonstrações sincrônicas cirúrgico-protéticas (ou seja, ao vivo). Isso implica em uma baixa muito importante nos custos para os alunos.
 
Finalizados estes dois módulos, os alunos assistem a uma sessão de workshops presenciais de 60 horas, onde praticam as habilidades necessárias relacionadas aos conhecimentos teóricos adquiridos nos dois módulos de e-learning. Isso os subsidia para um diploma da Faculdade de Odontologia da Universidade de Buenos Aires.
 
Aqueles que desejam continuar, para adquirir título de especialista, se aplicam para cursar os módulos 3 e 4, com um total de 450 horas cada, na modalidade presencial e com nove sessões, de março a novembro (dois dias inteiros por mês), com atendimento a pacientes de média e alta complexidade. A filosofia de ensino tem a integralidade como base, com uma relação professor-aluno de um para dois, sendo a reabilitação oral interdisciplinar com todas as áreas da “árvore” terapêutica disponíveis atualmente.
 
Salas dedicadas ao treinamento em Prótese Dentária e atendimento a crianças.

 

PrNews – Muitas vezes, a situação econômica oferece desafios, especialmente nos países da América do Sul. Como os acontecimentos recentes têm influenciado a prática da Prótese Dentária na Argentina?
GC – Esse é um exercício ao qual acabamos nos acostumando. As flutuações financeiras – e por que não, políticas – influenciam o poder de compra da classe média, que consome os benefícios odontológicos. Sem ir muito longe, há dois anos, em nosso país não era permitida a entrada de grande quantidade dos importados que utilizamos diariamente em próteses. Cabe recordar que a Argentina tem uma indústria odontológica tão importante quanto o Brasil, o que dificultava muito o abastecimento desses insumos. Por sorte, esse problema foi solucionado. Hoje em dia, várias instituições bancárias e financeiras oferecem empréstimos para os pacientes financiarem os tratamentos dentários que têm um custo elevado.
 
 
PrNews – Como você trabalha com seus alunos as informações de periódicos científicos?
GC – Sem dúvida, o bombardeio de informações hoje é assustador. Os alunos (e também os pacientes) têm acesso a muitas informações, o que é um desafio para nós, formadores de opinião e prestadores de serviço de padrão elevado. O melhor é orientar para a seleção de informação que atende os requisitos mínimos de rigor científico, sem viés comercial. Acredito que o melhor caminho a seguir é consultar bases sérias de dados, consensos de entidades globalmente reconhecidas e revisões sistemáticas, evitando a literatura sem credibilidade.
 
 
PrNews – Quais são as suas expectativas para o IN 2017? O que os brasileiros podem esperar?
GC – Sem dúvida, o IN se tornou o mais importante encontro científico da prótese implantoassistida da América Latina. São ministradores internacionais de primeiro nível, os melhores expoentes de prestigiadas universidades brasileiras, tanto clínicos como técnicos de prótese dentária, além de corporate sessions, mesas-redondas, painéis científicos, tudo o que há de mais recente em literatura odontológica e muito mais. Também, a sempre surpreendente exposição com estandes das empresas e, acima de tudo, a hospitalidade paulista, que sempre nos faz sentir em casa. É um evento que se renova e melhora a cada edição, garantia absoluta de qualidade científica e profissional respaldada pelo trabalho de dois anos de um grupo de profissionais ultradedicados ao IN.

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