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Publicado em: 17/08/2017 10h59

Seleção de cor: a chave do sucesso

Seja pela técnica manual ou digital, a determinação da cor de restaurações protéticas interfere na estética e na harmonização final do sorriso.
Por Clayton Morais dos Santos, 
Luciana Sargologos e Marc Oliver Lindner
 
O sucesso dos tratamentos restauradores estéticos vai além dos aspectos funcionais e morfológicos, já que a boa aparência dos dentes desempenha um papel fundamental no bem-estar emocional e social das pessoas. Para reconstruir os tecidos dentários e circundantes que foram perdidos por doença, desgaste ou trauma, é preciso enfatizar o objetivo da Odontologia contemporânea, ou seja, a total integração estética, reproduzindo quase com perfeição todos os detalhes dos dentes naturais.
 
Nesse contexto, considerar as questões óticas é um dos fatores-chave para o resultado positivo. E aqui estamos falando do cuidado redobrado durante a seleção de cor, que define a tonalidade do material restaurador direto ou indireto e proporcionará a naturalidade tão desejada. “Esse procedimento é indispensável para qualquer caso de restauração, desde classe I em resina fotopolimerizável, passando por coroa total no incisivo central, até a reabilitação completa. No caso das restaurações indiretas, a dificuldade aumenta, pois a seleção de cor é realizada na clínica pelo cirurgião-dentista e será transmitida, na maioria das vezes, para um laboratório externo”, comenta Marc Oliver Lindner, especialista em Prótese Dentária.
 
A especialista em Dentística Restauradora Luciana Sargologos e o técnico em prótese dentária Clayton Morais dos Santos afirmam que a determinação da cor, que precede todo tratamento restaurador estético, pode ser considerada uma etapa crítica para alcançar a satisfação do paciente. “Ela ainda representa um grande desafio para os cirurgiões-dentistas e técnicos em prótese dentária, mesmo aqueles que já estão familiarizados com a observação de cores. Isso porque as pessoas veem as cores de maneiras diferentes, suas habilidades são distintas na percepção dessa diferença e, portanto, podem ter opiniões divergentes com relação à magnitude de tonalidade entre dois objetos”, explicam.
 
Tradicionalmente, a seleção de cor em Odontologia é feita por métodos visuais, através de comparações, utilizando algumas escalas, como as de cerâmica e as dos sistemas de resinas compostas. Mais recentemente, a tecnologia trouxe a possibilidade de aferir as propriedades óticas, obtendo a resposta através de aparelhos como espectrofotômetros, colorímetros e técnicas computadorizadas de análise de imagens. A percepção das propriedades óticas usando estes equipamentos tem ganhado cada vez mais adeptos, pois torna o processo objetivo, quantificável e rápido.
 
 
Metodologia tradicional
 
O sistema de cor norteia o trabalho de protéticos e protesistas para que as restaurações fiquem invisíveis na cavidade oral do paciente. Segundo Lindner, os dois sistemas mais utilizados na Odontologia mundial são o Vita classical A1-D4 e o Vita 3D-Master. “O conhecimento e a técnica de uso de ambos são obrigatórios para o profissional que realiza tratamentos estéticos, e a literatura é clara neste ponto. Para a maioria das restaurações diretas, ainda é necessário realizar a seleção de cor com o sistema antigo (Vita classical A1-D4), pois todos os materiais são comercializados com esta nomenclatura de cor. Já as restaurações indiretas devem ser feitas, de preferência, com o sistema mais atual (Vita 3D-Master). A diferença principal entre eles é que o mais antigo avalia apenas matiz e croma, enquanto o mais recente afere também o valor (nível de claridade). A escala mais nova, existente desde 1998, é organizada por grupos de valor, ou seja, o fator mais importante para a perfeita harmonização do trabalho restaurador”, sintetiza o profissional.
 
O uso de espectrofotômetro elimina a subjetividade durante o procedimento, uma vez que a idade, a fadiga, a condição de luz e as cores do meio ambiente dificultam e atrapalham a correta escolha da cor pelo método visual. “Como o aparelho é apenas uma máquina, precisa de um operador competente e treinado. E, embora seu uso seja fácil, o resultado deve ser interpretado e comprovado por meio da escala visual”, acrescenta o especialista em Prótese Dentária.
 
No caso das restaurações indiretas, a comunicação com o laboratório precisa ser a mais completa possível, e o envio de uma fotografia é obrigatório – mesmo sendo tirada de um smartphone. Para compensar as condições de luz inconstantes da clínica odontológica e da câmera fotográfica, basta calibrar a informação de cor na imagem posicionando a amostra da escala no mesmo plano dos dentes do paciente, ou seja, a amostra deve estar no mesmo eixo e plano do dente natural, para que a luz incida igualmente sobre ambos.
 
Escala de cor Vita classical A1-D4. Organizada em matiz (A, B, C e D) e croma (1, 2, 3, 3.5 e 4), é aplicada na Odontologia desde 1956.

 

Facetas de resina fotopolimerizável de 12-22. Neste caso, foi utilizada a escala Vita classical A1-D4 para a seleção de cor, sendo A2B na cervical, corpo B1B e incisal WE, pois o material existe apenas neste sistema de cor.

 

No momento de fotografar, posiciona-se no terço médio uma amostra de cor mais clara e outra mais escura, considerando o grupo de valor selecionado na escala como sendo o ideal. “O técnico em prótese dentária recebe apenas uma moldagem, que se tornará um modelo de gesso. Então, para realizar um trabalho estético perfeito, ele precisa ser abastecido com informações complementares, como sexo, idade, brilho, textura e características individuais”, conta Lindner, ao explicar o porquê da fotografia ser tão importante: ela informa também a distribuição ao longo dos terços do elemento dentário e as características óticas e individuais apresentadas em cada caso.
 
O dente natural apresenta três regiões principais: terço cervical, terço médio e terço incisal. A cor da região incisal, formada predominantemente pelo esmalte, geralmente apresenta efeitos óticos de opalescência nos tons azulados, acinzentados e/ou alaranjados, bem como o halo incisal esbranquiçado. Estas cores opalescentes não estão representadas nas escalas classical A1-D4 ou 3D-Master, e nem o espectrofotômetro tem a capacidade de codificá-las. Geralmente, no terço médio está a cor principal de referência para o trabalho restaurador, onde será determinada a cor base do dente, que é o ponto de partida para a seleção de cor pelo método visual e com comprovação através do espectrofotômetro.
 
Em seu consultório, primeiramente, o especialista em Prótese Dentária seleciona de forma visual a cor através da escala e, a seguir, confirma a seleção por meio do espectrofotômetro – principalmente, certificando-se de que acertou o grupo de valor. Se a escolha visual é confirmada pelo espectrofotômetro, ele tem total segurança e confiança para dar andamento ao trabalho. “Após determinar a cor base, avalio o terço cervical e suas características usando a escala e o espectrofotômetro. Às vezes, a cervical apresenta um escurecimento e amarelamento do colo com exposição radicular tão forte que esta tonalidade não é representada na escala. Assim, uma fotografia da cervical com a amostra de cor mais próxima disponível na escala orienta o técnico na maneira em que precisa intensificar e/ou escurecer esta região”, detalha.
 
Escala de cor Linearguide 3D-Master. Apresenta um guia de valor e cinco guias de croma/matiz. Organizada em seis grupos de valor (0-5), croma e matiz, é usada desde 1998.

 

O espectrofotômetro é capaz de gerar um gráfico em sua tela informando as diferenças de cor (Delta E), valor, croma e matiz entre a cor física determinada pelo seu sensor e a amostra dentária do sistema Vita classical A1-D4 ou 3D-Master. “Então, por último, avalio o terço incisal, região altamente rica em efeitos opalescentes azulados e alaranjados, cujas cores não estão representadas nas escalas e não são codificadas pelo espectrofotômetro – portanto, somente a fotografia pode orientar o técnico”, finaliza Lindner.
 
Espectrofotômetro digital Vita Easyshade V e o resultado de cor por regiões, apresentado na tela no sistema 3D-Master e classical A1-D4.

 

Imagem obtida através de um smartphone, com escala de cor na mesma foto. O ceramista conseguiu uma aplicação de cor exata com o auxílio desta fotografia.

 

Imagem com as amostras de cor da escala 3D-Master, com grupo de valor mais claro (1M2) e mais escuro (3M2).

 

Se o profissional souber qual o material utilizado pelo técnico, pode adquirir uma escala de efeitos de esmalte daquele material específico. Lamentavelmente, todo material possui efeitos e tonalidades bem diferentes no seu sistema. Então, esta escala somente tem valia se for do mesmo material que o técnico irá utilizar.
 
Região incisal dos dentes naturais apresenta efeitos óticos de opalescência azulada, alaranjada e/ou acinzentada. As escalas de cor classical e 3D-Master, e o espectrofotômetro não determinam a tonalidade deste efeito. A imagem em preto e branco auxilia na visualização da localização destes efeitos no dente. Somente com a imagem ou com as escalas de efeito específicas do sistema cerâmico é possível determinar a cor destes efeitos de esmalte.

 

Gráfico da tela do espectrofotômetro indicando as diferenças de cor (E), valor (L), croma (C) e matiz (H) que a cor da escala classical Vita A3 apresenta em relação à cor medida no dente do paciente.

 

Protocolo de seleção de cor

 

 
Avanço tecnológico
 
Com o desenvolvimento da Odontologia digital, alguns scanners intraorais utilizados para a confecção de próteses pelo sistema CAD/CAM têm a capacidade de aferição da cor das estruturas dentais, auxiliando dentistas e técnicos na confecção das próteses, tornando a tomada de cor mais fácil e rápida. “Enquanto o scanner está captando as imagens digitais dos dentes e construindo o modelo 3D, a cor das estruturas já é adquirida automaticamente e mostrada dentro do próprio software de escaneamento e enviado ao laboratório de prótese juntamente com o escaneamento, o que aprimora a comunicação clínico-laboratorial”, descrevem Luciana e Santos.
 
Em relação à fidelidade desse processo digital, eles argumentam que, por se tratar de uma ferramenta extremamente nova, ainda não há estudos comparativos com outros métodos. Então, o melhor a fazer é conferir com as escalas tradicionais, mas sempre lembrando que existem múltiplos fatores a serem levados em consideração para a obtenção de um resultado satisfatório, como: cor do remanescente, espessura da cerâmica, tipo de cerâmica e características óticas do cimento escolhido. “Espera-se que, a exemplo da impecável precisão dos scanners intraorais já comprovada por inúmeros trabalhos científicos, a aferição de cor seja de igual credibilidade”, justificam.
 
Ao mencionar que utiliza o scanner intraoral Omnicam (Sirona), Luciana diz que a tomada de cor é conseguida automaticamente durante o escaneamento, e sua ponteira intraoral é calibrada com uma frequência mensal solicitada pelo software. O calibrador é reconhecido através da leitura de um QR Code pela ponteira do scanner e, em um processo que leva poucos segundos, introduz-se o kit de calibragem na ponteira do scanner e aciona-se a calibragem no software. A tomada de cor pelo scanner pode ser configurada para a escala classical ou 3D-Master, de acordo com a preferência do usuário. Após concluir o escaneamento do caso clínico, já na fase de modelo digital no software, é possível ver as diversas regiões dos dentes e suas respectivas tomadas de cor. Eventuais regiões dos dentes onde o software entende a leitura como não confiável ou pouco confiável serão sinalizadas, respectivamente, com as cores vermelha e amarela, enquanto as confiáveis são sinalizadas com a cor verde. “Essa confiabilidade se dá pela qualidade da superfície dental durante a leitura do scanner. Porém, situações como irregularidades e saliva podem comprometer a tomada de cor pelo equipamento”, finaliza Luciana.
 
O calibrador é inicialmente reconhecido através da leitura de um QR Code pela ponteira do scanner.

 

A calibragem é um procedimento fácil e rápido, que consiste na introdução do kit de calibragem na ponteira do scanner e acionamento no software.

 

A seleção de cor pelo scanner pode ser configurada para a escala classical ou 3D-Master.

 

Após o escaneamento, na fase de modelo digital no software, é possível ver as diversas regiões dos dentes e suas respectivas tomadas de cor pelo software.

 

 
 
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Clayton Morais dos Santos
Técnico em Prótese Dentária; Diretor executivo do Laboratório Julio de Prótese.
 
Luciana Sargologos
Especialista em Dentística Restauradora; Designer de planejamento digital do sorriso; Pós-graduada em Odontologia do Sono; Speaker e trainner Dentsply Sirona.
 
Marc Oliver Lindner
Mestre em Clínica Odontológica; Especialista em Prótese Dentária e em Implantodontia.
 

 

 

Assuntos Relacionados:
seleção; cor; Prótese Dentária; restaurações protéticas


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