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Publicado em: 2/27/2018 95h0

Biografia: Tadachi Tamaki, um samurai entre os protesistas

Inspirado pela filosofia tradicional japonesa, Tadachi Tamaki fez história no ensino da Prótese Dentária brasileira.
(Ilustração: Lézio Júnior)


Por Adilson Fuzo


No período feudal do Japão, a filosofia do Bushido servia como um código de conduta para os samurais que viviam naquele país. A doutrina, que pode ser traduzida como “o caminho do guerreiro”, atravessou os séculos como uma poderosa fonte de inspiração, tanto no Oriente como no Ocidente.

A Prótese Dentária também teve um importante samurai em sua história: o paulista Tadachi Tamaki, um dos professores que mais contribuíram para o desenvolvimento da especialidade no Brasil. Tamaki se aposentou em 1993 e faleceu em 2014, deixando um grande legado para a Odontologia, principalmente na área do ensino.

A história do professor começa quando seu pai, Sakiti Tamaki, e sua mãe, Hissa Tamaki, deixaram a província de Mie, no Japão, em busca de oportunidades nos cafezais que se expandiam rapidamente no interior do Estado de São Paulo, em 1913. Inicialmente, eles se instalaram em Brodowski, na região de Ribeirão Preto. Logo depois, o casal veio tentar a vida na capital, onde o senhor Sakiti montou uma fábrica de barcos próximo ao Rio Tietê. Infelizmente, com a epidemia de gripe espanhola de 1918/1919, ele foi obrigado a abandonar seu negócio e voltar para o interior do Estado, na pequena cidade de Promissão, onde estabeleceu um pequeno sítio.

Foi nesse período que Tadachi nasceu, em 1923, sendo o quinto filho de uma família de sete crianças. Desde cedo, o jovem Tadachi mostrou que a disciplina e a tenacidade seriam sua espada para vencer na vida. Seus primeiros anos de estudo aconteceram na escola rural criada pelo seu pai, junto com os irmãos e as crianças das redondezas. Depois, passou por um internato ginasial municipal, da cidade de Marília.

Tadachi também morou um período na cidade de Casa Branca, onde dividia seu tempo entre o trabalho em um escritório de contabilidade, durante o dia, e um curso técnico comercial, à noite. Mais tarde, mudou-se de vez para a capital paulista, para concluir o colegial científico (hoje, o equivalente ao ensino médio) no tradicional Colégio Roosevelt, no bairro da Liberdade.

Tamaki foi um dos grandes promotores da prática do kendo e iaido no Brasil. (Fotos: acervo pessoal)


 

PRONTO PARA O COMBATE

No período que antecedeu a industrialização do Brasil, a vida dos imigrantes nunca foi fácil. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, o relacionamento dos brasileiros com os nativos das nações inimigas ficou ainda mais espinhoso.

Por tudo isso, como filho de imigrantes japoneses, Tadachi enfrentou uma série de dificuldades convivendo com os brasileiros. Contudo, em nenhum momento desanimava ou reclamava. Pelo contrário, prevalecia sempre o seu espírito positivo. A cada obstáculo ultrapassado, agradecia a proteção de Deus e de seus ancestrais.

Em 1949, aos 26 anos, finalmente pôde concretizar seu sonho, ingressando na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (Fousp) e concluindo o curso de graduação, em 1951, em primeiro lugar de sua turma.

O desempenho de Tadachi foi tão positivo que o jovem cirurgião-dentista foi convidado pelo Prof. Carlos Aldrovandi para permanecer na instituição lecionando na cadeira de Prótese Dentária da USP, iniciando, assim, sua carreira na área de ensino, em 1952.

Nos anos seguintes, a prática de artes marciais tornou-se um pilar importante na vida de Tadachi Tamaki, sendo ele um dos grandes difusores do kendo no Brasil, tendo alcançado o 7o dan ao longo de sua vida. Ele foi ainda um dos introdutores do iaido no Brasil, chegando ao 5º dan.

A família foi um pilar importante na vida de Tadachi. Casou-se com a protesista Sunao Taga Tamaki, que também viria a se tornar professora titular de Prótese na Fousp. Anos depois, o casal teve dois filhos: Armando, formado em Medicina, e Nely, formada em Odontologia.

A professora Sunao Taga Tamaki,
esposa e grande companheira de Tadashi.
O professor possuía
muita habilidade manual.


 

DIANTE DO PERIGO, UM PASSO À FRENTE

Em 1960, Tamaki resolveu submeter-se ao concurso para obter o título de livre-docente pela USP. Esse episódio redefiniu os rumos de sua carreira.

“Assim que começou a primeira prova do concurso, das cinco programadas, meu chefe veio me comunicar que a banca examinadora não me aprovaria. Dessa forma, eu deveria arranjar uma desculpa e desistir do concurso”, contou Tamaki anos depois. “Respondi, com muito respeito: ‘professor, vou continuar’. Desapontado, ele disse: ‘Então, o risco é todo seu’. Foram cinco dias inesquecíveis da minha vida. Lutei como uma fera acuada e consegui aprovação. Qualquer praticante de kendo, o esporte dos samurais, seguiria o mesmo caminho, porque o kendo apregoa que, no perigo iminente, dá-se um passo à frente, nunca para trás”.

Ao conquistar o título de livre-docente pela USP, Tamaki tornou-se o primeiro nissei a ocupar tal posição na universidade. Sua tese sobre curva de compensação deu origem a dezenas de pesquisas de mestrado e de doutorado, sob sua orientação. No entanto, diante do desgaste com seu mestre no período de avaliação, Tamaki preferiu pedir demissão da Fousp e buscar um novo desafio.
 

O CHAMADO EM BAURU

A criação da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) abriu muitas portas para os professores brasileiros na década de 1960. Tadachi foi um dos professores que mais se beneficiaram desse momento, sendo convidado pelo diretor Paulo de Toledo Artigas, em 1963, para implantar o curso de Prótese Dentária e Prótese Bucomaxilofacial no novo campus. O samurai não recuou diante do desafio e mudou-se com a família para Bauru, onde permaneceria por nove anos trabalhando intensamente.

Mais tarde, em 1965, realizou o concurso de professor catedrático e tornou-se professor efetivo. A pesquisa, que resultou em tese, foi um estudo sobre o relacionamento maxilomandibular na confecção de prótese totais, uma vez que na época havia muita controvérsia sobre o assunto. Essa pesquisaresultaria no desenvolvimento de sua primeira invenção, o Articulador TT, totalmente ajustável, patenteado pela USP. Anos mais tarde, ele criaria também o Pantógrafo e o Arco Facial Cinemático do Articulador TT.

Ainda no período em que esteve em Bauru, Tamaki organizou e coordenou o primeiro curso de mestrado em Reabilitação Oral, em 1970, atraindo muitos docentes de todo o País para a região. Naquele ano, foi eleito vice-diretor da FOB/USP, representando a unidade no Conselho Universitário.

Tadachi Tamaki recebeu muitas homenagens. Uma das mais importantes foi o título de Cidadão Paulistano.


 

O RETORNO DO GUERREIRO

No início dos anos 1970, o Brasil vivia um sonho de euforia e ufanismo embalado pelo chamado “milagre econômico” e pelo esquadrão canarinho, comandado por Pelé. As universidades brasileiras, por sua vez, também investiam na expansão de suas atividades.

Diante desse cenário, a carreira de Tadachi Tamaki estava em franca ascensão na cidade de Bauru, mas sua cabeça estava a 330 km dali. “Em Bauru, não me faltava nada, mas São Paulo não saía do meu pensamento. Depois de oito anos, abriu uma vaga na Fousp, para a qual me candidatei e, com a ajuda do diretor, voltei para a minha faculdade”, disse o nissei.

Ao chegar à cidade de São Paulo, assumiu a disciplina de Prótese Total e foi eleito presidente do conselho de pósgraduação, com a incumbência de implantar o curso de mestrado na capital paulista.

Apesar da experiência bem-sucedida de Tamaki ao instituir o mestrado em Bauru, a criação de um curso semelhante em São Paulo foi bem mais desafiadora, pois havia resistência política por parte dos docentes. A persistência do samurai prevaleceu mais uma vez e, em 1973, Tamaki conseguiu aprovar o curso de pós-graduação em Clínicas Odontológicas em nível de mestrado. A nova fIlosofia do curso teve ampla aceitação em todo o País. Mais tarde, em 1979, aprovou o curso em nível de doutorado.

O retorno de Tamaki para São Paulo, na década de 1970, também marcou seu trabalho pela institucionalização do kendo e do iaido no Brasil, quando o protesista participou da fundação e presidiu a Federação Paulista de Kendo. A partir de 1981, até sua aposentadoria, conciliou seu trabalho na Prótese com aulas de kendo, na Faculdade de Educação Física da USP. Entre os anos de 1973 e 1987, o protesista exerceu a presidência do conselho de pós-graduação da Fousp. Paralelamente, entre os períodos de 1981/84 e 1987/90, ocupou o cargo de vice-diretor da instituição. Também chefiou o Departamento de Prótese Dental por inúmeras vezes.

Recebendo a comenda
“Ordem do Sol Nascente, raios de ouro com roseta.”
Demostrando o
Articulador TT no Japão.

 

EMBAINHANDO A ESPADA

“À medida que o tempo limite de minha aposentadoria ia chegando, senti que o tempo estava correndo depressa demais. Quando o dia chegou, em 1993, eu disse ‘cumpri o primeiro sonho de minha vida’, mas eu já estava com o coração cheio de nostalgia, porque estava deixando minha querida faculdade”, recordou Tadachi Tamaki em um discurso realizado na Câmara dos Vereadores de São Paulo, quando recebeu o título de Cidadão Paulistano.

Plenamente realizado na Odontologia, Tamaki investiu sua energia de guerreiro no fortalecimento do kendo e do iaido no Brasil. Dessa forma, ele ajudou a fundar e presidiu a Confederação Brasileira de Kendo, em 1998, a Confederação Sul-Americana de Kendo, em 2003, e a Confederação Latino-Americana de Kendo, em 2008. Assim, ele cumpriu o que considerava ser o segundo sonho de sua vida.

Tadachi Tamaki faleceu em 2014, aos 91 anos. Como um bom samurai moderno, cumpriu seu destino lutando com disciplina e virtude. Um legado inspirador para os protesistas de qualquer geração.

 

 


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