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Publicado em: 4/11/2019 51h5

Customização em Odontologia Estética

Do visagismo ao conceito de identidade visual do sorriso (VIS) – Parte I


Durante anos, a evolução da Odontologia tem sido no sentido de desenvolver conceitos, técnicas e materiais que visam a mais adequada integração dos tratamentos reabilitadores às características biológicas e estruturais dos pacientes, objetivando restabelecer a mastigação, fonética e estética para um viver mais pleno. Como consequência do grande esforço de dedicados profissionais de todo o mundo, hoje é possível oferecer tratamentos que atendam a tais requisitos.

A estética do sorriso é um dos principais motivos que levam os pacientes aos consultórios odontológicos1. Fundamentos de desenho do sorriso permitem uma adequada integração dos tratamentos às características faciais, assim como técnicas e materiais modernos são capazes de corrigir imperfeições com o mínimo desgaste das estruturas dentais e o máximo efeito natural das restaurações.

No entanto, o nível de informação e exigência dos pacientes tem levado a profissão a alguns questionamentos referentes à individualização dos tratamentos, especialmente aqueles relacionados à integração dos trabalhos às características psicológicas de cada paciente, que, se ignorados, podem incorrer na insatisfação, apesar de atenderem aos quesitos técnicos e estarem em concordância com as normas estéticas.

No mundo contemporâneo, existe uma tendência em vários segmentos do mercado de oferecer produtos e serviços customizados aos clientes que buscam autoconhecimento e expressão de sua individualidade. Geralmente, as decisões de compra favorecem produtos e serviços com os quais eles se identificam.

A Odontologia, como prestadora de serviços e atuante na face humana, não pode abrir mão de se sintonizar com tal tendência. Sabe-se que tratamentos que promovem alterações no desenho facial, dentre os quais se incluem os trabalhos de Odontologia Estética e Harmonização Orofacial, afetam a autoimagem, autoestima e comportamento dos pacientes. Faz-se então necessário aos profissionais atuantes na face o domínio da linguagem visual artística, assim como certo conhecimento sobre Psicologia, para oferecerem tratamentos que, além de bonitos, promovam mudanças positivas e significativas na vida das pessoas.

Pode-se considerar uma iatrogenia – do ponto de vista psicológico – oferecer um sorriso perfeitamente de acordo com as normas estéticas, mas com um significado expressivo desalinhado em relação à identidade do paciente, por exemplo, um sorriso de expressão forte para uma pessoa tímida, reservada e delicada. Mesmo que o resultado seja visualmente agradável, o impacto na vida dessa pessoa pode ser desastroso, pois afetará como ela se percebe, como será percebida pelos outros e, consequentemente, como se comportará2.

O objetivo desse trabalho é demonstrar que, além das normas estéticas estabelecidas por renomados autores ao longo do tempo, a expressão emocional dos tratamentos, dada principalmente pelas formas e linhas constituintes do sorriso, também deve ser levada em consideração na elaboração do plano de tratamento, com o intuito de obter uma adequada integração dos trabalhos à identidade de cada paciente. A customização aqui abordada não se restringe à perfeita adaptação dos trabalhos protéticos, tampouco a um atendimento personalizado, mas sim ao estabelecimento de um elo entre a expressão visual do novo sorriso criado e a autoidentificação pessoal, o que tende a potencializar a aceitação e satisfação por parte dos pacientes quanto aos tratamentos oferecidos.

 

Visagismo

A palavra visage – oriunda do francês – significa face, assim como o termo visagismo designa o estudo da face quanto à relação estética entre seus elementos, seus traços  constituintes e sua expressão visual. O artista plástico Philip Hallawell deu grande impulso ao desenvolvimento do visagismo com a associação da expressão visual dos traços faciais, dados por linhas e formas, à teoria dos arquétipos estabelecida por Carl Jung3. Tal associação sugere que os traços faciais são percebidos inconscientemente pelo observador, gerando sensações que influenciam a maneira como se percebe alguém, ou seja, a rápida observação de uma face gera uma primeira impressão marcante.

Recentes estudos de neurociência demonstram que figuras, como pinturas, fotografias e imagens em geral, incluindo as faces humanas, são processadas em frações de segundo por uma estrutura cerebral ancestral chamada amígdala. Essa estrutura é responsável por dar uma resposta emocional rápida àquilo que se observa, gerando reações que objetivam a sobrevivência e a reprodução da espécie. Essa resposta emocional é mais rápida e poderosa do que o processo cognitivo referente ao pensar sobre aquilo que se vê. Dessa forma, os mais diversos tipos faciais, incluindo os traços das feições e do desenho do sorriso, provocam um forte impacto emocional no observador sem que o mesmo tenha consciência disso.

 

Símbolos arquetípicos

Ao longo de muitos anos viajando por diferentes culturas pelo mundo, Jung percebeu que determinados símbolos eram interpretados e usados com o mesmo significado por todos os seres humanos4. Chamou-os de arquétipos por serem percebidos de maneira inconsciente e emocional, relacionados a estruturas anatômicas ancestrais comuns aos cérebros humanos5.

Fascinado por faces humanas, Charles Darwin observou em suas viagens que as expressões faciais relacionadas aos mais variados estados emocionais eram interpretadas da mesma forma em diferentes culturas6. Hoje, à luz da Neurociência, compreende-se como o cérebro humano processa imagens e o motivo pelo qual a interpretação das expressões faciais é comum a todos7. Pode-se considerá-las símbolos arquetípicos, de acordo com a teoria junguiana.

Assim como as faces, também os sorrisos geram reações emocionais pelo conjunto de linhas e formas que o configuram. Tal conhecimento permite aos dentistas trabalhar conscientemente com os elementos visuais na construção de uma reabilitação para alcançar resultados expressivos, que devem, por fim, estar alinhados à personalidade e vontade de expressão dos pacientes8.

 

Linguagem visual

À comunicação não verbal imediata e inconsciente dada pelos elementos visuais básicos, como linhas, formas e cores, dá-se o nome de linguagem visual9. As linhas representam os elementos mais básicos da linguagem visual, e sua expressão emocional varia de acordo com o seu tipo. Podem ser divididas em retas e curvas, sendo as retas subdivididas em verticais, horizontais e inclinadas. A expressão das linhas retas varia de acordo com sua relação com a gravidade, de tal modo que as horizontais expressam estabilidade, passividade e calma por sua concordância com a gravidade, enquanto as verticais, por representarem o crescimento de algo contra a gravidade, geram a sensação de força e poder, assim como as linhas inclinadas passam a sensação de instabilidade, tendência ao movimento e dinamismo.

Já as linhas curvas representam a transição suave na junção de dois planos perpendiculares imaginários que de outra forma se chocariam em um abrupto ângulo reto. Essas são associadas à delicadeza, ao feminino e ao sensual. A combinação de linhas confere formas mais básicas, transferindo a elas sua própria expressão. Assim, tem-se o retângulo vertical expressando força pelo predomínio do elemento vertical; o triângulo, dinamismo; o oval, delicadeza; e o quadrado, estabilidade, monotonia e imobilidade, pelo equilíbrio entre seu elemento vertical e o horizontal. Tais formas básicas podem ser observadas no contorno facial, assim como no formato de incisivos centrais e na configuração 3D de dentes anterossuperiores, despertando diferentes sensações nos observadores e sendo, portanto, determinantes da formação do senso de identidade de cada um.

A mensagem visual de uma face, processada de forma inconsciente e com um significado emocional específico, influencia como a pessoa é percebida e tratada por outras em seus diversos relacionamentos diários, gerando e/ou reforçando a sensação que essa mesma pessoa tem de si. Por isso, é tão importante que a imagem de um sorriso ou das intervenções orofaciais seja planejada além das normas estéticas, incluindo também informações referentes à identidade pessoal.

 

Temperamentos humanos

Hallawell associou a expressão dos elementos de linguagem visual aos tipos temperamentais humanos, tomando como referência a teoria dos temperamentos de Hipócrates (460-370 a.C.)10. De acordo com ele, que é considerado o pai da Medicina ocidental, cada ser humano é uma mistura única de quatro tipos temperamentais distintos: colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático. Para Hipócrates, em cada pessoa pode-se identificar um ou dois temperamentos mais evidentes ou dominantes. Abaixo, seguem as principais características psicocomportamentais de cada temperamento:

• Colérico: dominante, determinado, objetivo, explosivo, intenso, líder, passional;
• Sanguíneo: extrovertido, comunicativo, entusiasmado, dinâmico, envolvente;
• Melancólico: introvertido, organizado, perfeccionista, ansioso, artístico, tímido, com grande capacidade de abstração;
• Fleumático: diplomático, pacífico, calmo, espiritualizado, místico, discreto, tendendo à submissão.


Contudo, para a atuação em Odontologia, os autores decidiram renomeá-los com uma nomenclatura própria para facilitar a comunicação com os pacientes, uma vez que se notou uma resistência quanto à aceitação de nomes como melancólico e colérico pelos significados pejorativos que essas palavras assumiram com o decorrer do tempo. Assim, optou-se por denominar o termo colérico de “forte”, o sanguíneo de “dinâmico”, o melancólico de “delicado” e o fleumático de “calmo”. Também se objetivou, através dessa nova nomenclatura, facilitar a associação dos tipos psicológicos aos tipos de desenho do sorriso listados a seguir.

 

Linguagem visual e smile design

Em 2011, Paolucci e cols. propuseram a aplicação do visagismo em Odontologia por considerarem que os conhecimentos técnicos e científicos deveriam ser associados a conhecimentos de áreas distintas e complementares, como a linguagem visual artística e a psicologia, como forma de customizar os tratamentos estéticos dentofaciais.

O conhecimento de linguagem visual, fortemente estudado nas artes visuais, quando aplicado aos principais elementos expressivos do desenho do sorriso, como formas dentais, plano incisal, posicionamento dental 3D no arco e relação proporcional interdental ou “dominância”, determina quatro tipos de desenhos de sorriso de expressão primária11:

• Delicado: dentes ovais, dominância média, plano incisal curvo e posicionamento dental padrão ou médio;
• Dinâmico: dentes com formas predominantemente triangulares, dominância média, plano incisal angulado e posicionamento dental inclinado (torque negativo);
• Calmo ou estável: dentes quadrados ligeiramente arredondados, dominância fraca (simetria horizontal ou corrente) e posicionamento padrão ou médio no arco;
​• Forte: composto por formas dentais retangulares, dominância forte de centrais e caninos sobre laterais (simetria radial), plano incisal reto e posicionamento dental retilíneo no arco em vista frontal (torque zero).


Esses quatro desenhos de sorriso de expressão primária ou pura (compostos por elementos de expressões visuais coerentes) podem ser associados indiretamente às principais características dos temperamentos propostos por Hipócrates, de modo a representá-los visualmente (Figuras 1 a 5).

Figuras 1 – Inicial pré-operatório.

 

Figuras 2 – Delicado.

 

Figuras 3 – Dinâmico.   |   Figuras 4 – Calmo.   |   Figuras 5 – Forte.


Comparativo entre os desenhos do sorriso

 

 

 

 

Conclusão

Os quatro tipos de sorriso propostos para a paciente em questão são aceitáveis esteticamente. Todos foram elaborados de acordo com os princípios artísticos fundamentais à estética dentofacial, como simetria, paralelismo, proporção, dominância e perspectiva, apresentando, porém, expressões visuais distintas. Surgem então importantes questões: com qual deles a paciente mais se identifica ou qual deles mais a agrada?

Nota-se, com certa frequência, a insatisfação de alguns pacientes quanto ao resultado final de tratamentos desenvolvidos ao rigor dos princípios e parâmetros estéticos, o que demonstra haver outros elementos a serem considerados nos planejamentos. Sabe-se que intervenções no desenho do sorriso alteram a expressão facial, fonte incontestável da identidade pessoal, o que inevitavelmente gera consequências emocionais e psicológicas.

O conceito de identidade visual do sorriso (VIS) propõe a investigação da identidade de cada paciente, composta principalmente por seu desenho facial (aspecto físico da identidade) e sua personalidade (aspecto abstrato da identidade), para elaborar um desenho de sorriso que, além de estético, seja coerente.

A reabilitação estética deve, por fim, representar visualmente o indivíduo através de sua mensagem emocional subliminar, permitindo que ele se reconheça ao espelho. Essa é constituída pelo conjunto de símbolos visuais (linhas e formas) que devem ser acrescentados de forma consciente pelos profissionais como medida de individualização dos tratamentos.

Tal abordagem tem mostrado resultados satisfatórios, minimizando insatisfações finais por parte dos pacientes, por buscar preencher o gap que pode ocorrer entre a imagem percebida e a identidade pessoal ao fim de tratamentos reabilitadores estéticos.


 

Nota: Na parte Il, serão apresentadas as principais diferenças entre os conceitos de identidade visual do sorriso (VIS) e visagismo quanto aos fundamentos e métodos de aplicação clínica, assim como o processo de definição do desenho de sorriso final para o caso clínico em questão.

 

Referências
1. Gurel G. The science and art of porcelain laminate veneers. Quintessence Pub, 2003.
2. Paolucci B. Visagismo e Odontologia. In: Hallawell P. Visagismo Integrado: identidade, estilo, beleza. São Paulo: Senac, 2009. p.243-50.
3. Hallawell P. Visagismo: harmonia e estética. São Paulo: Senac, 2003.
4. Jung CG. Man and his symbols. New York: Dell, 1968.
5. LeDoux J. The emotional brain: the mysterious underpinnings of emotional life. New York: Simon and Schuster, 1998.
6. Darwin C. The expression of the emotions in man and animals (1872). London: Haper Collins, 1998.
7. Ekman P. Facial expression of emotion: new findings, new questions. Psychol Sa 1992;3:34-8.
8. Paolucci B, Calamita M, Coachman C, Gurel G, Schayder A, Hallawell P. Visagism: the art of dental composition. Quintessence of Dental Technology, 2012.
9. Arnheim R. Visual thinking. University of California Press, 1969.
10. Hallawell P. Visagismo integrado: identidade, estilo e beleza. São Paulo: Senac, 2009.
11. Paolucci B. Gurel G, Coachman C et al. Visagismo: a arte de personalizar o desenho do sorriso. São Paulo: VM Cultural Editora, 2011.

 

Coordenação:

Guilherme Saavedra

Professor assistente do Depto. de Materiais Odontológicos e Prótese, e professor da especialidade de Prótese Dentária do programa de pós-graduação em Odontologia Restauradora – ICT Unesp. Professor visitante da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, em Portugal.

 

 

 

 

 

 

 

 

Autores convidados:

Bráulio Paolucci

Cirurgião-dentista – Universidade Federal de Alfenas; Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Lavras; Mestre em Implantodontia e Reabilitação Oral – Universidade de Paris; Autor do livro Visagismo: a arte de personalizar o desenho do sorriso.

 


 

 

 


 

Adriano Schayder

Técnico em prótese dentária – Escola de Técnicos Dentários Atenas, em Alfenas/MG; DSD master by Christian Coachman; Membro do time Visagismile by Galip Gurel; Proprietário do Schayder Dental Studio, em São Paulo/SP; Coautor do livro Visagismo: a arte de personalizar o desenho do sorriso.

 

 

 

 

 

 


 


Assuntos Relacionados:
Odontologia Estética; visagismo; identidade visual do sorriso; estética do sorriso; Guilherme Saavedra; Bráulio Paolucci; Adriano Schayder


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