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Publicado em: 8/3/2012 12h14

Extrair dentes hígidos vale a pena?

Marco Bianchini discute a polêmica da eutanásia dental e o impulso desenfreado para a colocação de implantes.

A Implantodontia revolucionou a Odontologia repondo dentes perdidos de uma maneira eficaz e duradoura. Entretanto, a ansiedade de muitos acabou por transformar uma modalidade de tratamento específica em alternativa única de se reabilitar áreas com dentes perdidos, o que é, com certeza, um grande engano.
 
Antes dos implantes osseointegrados, a Odontologia e, mais especificamente a Periodontia, preocupava-se intensamente em recuperar dentes perdidos e manter elementos abalados a todo o custo na boca. Isso ocorria devido aos resultados desastrosos que muitas reabilitações protéticas traziam aos pacientes em longo prazo. Os próprios dentistas confiavam pouco no resultado dos trabalhos protéticos ao longo dos anos. Desta forma, as técnicas regenerativas dos periodontos de proteção e sustentação foram intensamente estudadas e aplicadas com relativo sucesso, "salvando" muitos dentes perdidos.

Surgiram então os implantes, a oitava maravilha! As dentaduras e próteses removíveis estavam eliminadas do dicionário odontológico. As próteses fixas convencionais sobre dentes estariam com os dias contados e a Periodontia não precisaria mais dedicar-se a recuperar o periodonto. Era a "terceira dentição" chegando para ficar e oferecendo excelentes e previsíveis tratamentos para edêntulos totais ou parciais. 

Foi justamente neste momento de euforia e satisfação pelos resultados obtidos com a Implantodontia que a presunção do ser humano tomou o lugar da prudência e dentes naturais hígidos ou com uma boa perspectiva de serem mantidos na boca passaram a ser extraídos para dar lugar a implantes, pois "funcionariam" melhor. É muito antiga a tendência do ser humano de querer ser melhor do que a própria criação: "Vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até o céu. Assim nosso nome será famoso e não seremos espalhados pela face da terra." Genesis 11:4.

A partir deste instante a terapêutica odontológica sofreu um grande revés, pois dentes não precisavam mais ser "salvos". Com certa frequência, é possível escutar comentários como: "é melhor extrair logo, antes que se perca todo o osso e não se possa mais colocar o implante"; "Eutanásia dental é a solução"; "A Periodontia caiu de moda"; "Qual é o sentido de se manter dentes abalados?"; "O implante resolve".

Baseados nestes conceitos equivocados, muitos aderiram à eutanásia dental e uma verdadeira carnificina de dentes hígidos vem sendo realizada. Anúncios publicitários que prometem "dentes fixos em 24 horas" são comuns de se encontrar nos jornais de circulação nacional.

Pobres incisivos e caninos inferiores hígidos. Extraídos impiedosamente para dar lugar a próteses fixas tipo protocolo de onde, após alguns meses, saem cobras e lagartos, devido às dificuldades de higienização.

O tratamento de áreas edêntulas passa impreterivelmente pela Implantodontia. Porém, extrair dentes totalmente hígidos, apenas com o intuito de facilitar a colocação de implantes denota uma preguiça mental. Torna-se necessário que tenhamos mais coragem e criatividade para planejamentos mais ousados que preservem os dentes.

A Odontologia deve continuar a sua ação preventiva preservando dentes e os implantes não devem condenar dentes hígidos à extração com a prepotência de funcionarem melhor do que os dentes naturais.

A extração de dentes condenados foi, é, e sempre será um tratamento. Dentes condenados devem ser extraídos e, na maioria das vezes, podem ser substituídos por implantes. Contudo, o planejamento para a colocação de implantes passa por uma série de avaliações que podem contra-indicar esta terapia que, decididamente, não é a única maneira de se tratar áreas edêntulas. Mas isto é assunto para outro dia. Até a próxima semana.

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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