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Publicado em: 8/23/2012 75h0

Dente decíduo ou exodontia e implante?

Algumas vezes, o melhor tratamento é não interferir. Bianchini fala sobre a incrível capacidade de adaptação do ser humano.

O ano era o de 1992 e eu tinha apenas um ano de formado e 24 anos de idade. Nessa fase da vida profissional, o consultório geralmente é abastecido por parentes e amigos. Um destes grandes amigos, Alexandre Reinaldo Graziotin, na época com 21 anos de idade e fazendo concursos públicos na área da Justiça, me procurou para tratamento. Como se costuma dizer no meio clínico: "problemas geralmente acontecem com parentes e amigos". O que era pra ser apenas uma consulta simples com profilaxia acabou virando um diagnóstico. Na época, bastante preciso, mas que se mostrou falho ao longo destes 20 anos em que o Alexandre continuou como meu cliente fiel.

Radiografia periapical da área do dente 23, no ano de 1992

Radiografia periapical da área
do dente 23, no ano de 1992.

O que ocorreu é que o Alexandre tinha em boca o canino esquerdo decíduo, erupcionado e sem mobilidade. O seu canino permanente (23) estava incluso e impactado. Prontamente eu solicitei todos os exames radiográficos possíveis e entrei em contato com colegas da área de Ortodontia e Bucomaxilofacial. O diagnóstico de todos, inclusive o meu, foi pela exodontia do decíduo e tracionamento do canino para a posição correta ou exodontia dos dois dentes caninos (decíduo e permanente), enxerto e implante. Além disso, alertamos o paciente que se ele deixasse tudo como está, poderiam ocorrer danos aos dentes vizinhos, complicando ainda mais o caso. Haja vista que ele possuía desgastes incisais fortes e um perfil emocional que combinava com bruxismo.

O modelo de tratamento proposto não agradou muito o Alexandre. O tempo de duração do tratamento e as etapas cirúrgicas o desencorajaram. Mas o que mais o intrigava é que a sua mãe, dona Vanda, teve um dente decíduo que ficou na boca até ela completar 50 anos. Assim, o Alexandre resolveu deixar tudo como estava e não realizou tratamento algum.

Radiografia periapical da área do dente 23 no ano de 2012.

Radiografia periapical da área
do dente 23 no ano de 2012.

Os anos foram passando e o Alexandre continuava indo ao meu consultório, de duas a três vezes ao ano, para consultas de rotina e profilaxia. Eu radiografava a região e não observava grandes mudanças. Durante esse tempo, ele inclusive sofreu um acidente, onde fraturou ossos da face e teve intervenção cirúrgica bucomaxilofacial. Mas os seus caninos (decíduo e 23) continuavam lá, firmes e fortes. Nessa fase, o cirurgião bucomaxilo que o operou avaliou a área dos caninos e disse estar tudo estável. Assim, o diagnóstico de toda a equipe estava indo por terra e a dona Vanda (mãe do Alexandre), por ter uma situação semelhante, acabou poupando o filho de um sobretratamento.

Neste mês faz 20 anos que o Dr. Alexandre, hoje promotor público estadual, é meu cliente. Nós brincamos muito com essa situação. Sempre que ele vem no meu consultório ele fala: "O canino vai cair hein!" ou "Os meus dentes vão ficar totalmente desgastados pelo bruxismo."

Vista frontal em 2012. Observar o desgaste incisal dos incisivos, que já existia há 20 anos.
Vista frontal em 2012. Observar o desgaste incisal dos incisivos, que já existia há 20 anos.
Vista vestibular do canino decíduo esquerdo em 2012.
Vista vestibular do
canino decíduo esquerdo em 2012.

Nada do que eu previ acabou acontecendo. Essa situação nos remete ao que eu venho comentando nas últimas colunas. O tratamento com implantes, muitas vezes, leva o profissional a uma preguiça mental de avaliar e observar as respostas do paciente em longo prazo. O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar e nem tudo que parece fora de padrão é passível de tratamento. Graças à dona Vanda, o Alexandre se livrou de cirurgias, implantes próteses e aparelhos ortodônticos. E eu de uma investigação do ministério público.

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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