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Publicado em: 9/5/2012 54h3

E se o seu paciente engolir um instrumento?

Marco Bianchini conta a história de um pequeno deslize que pode ter graves consequências.

O dia a dia de um profissional que trabalha com implantes envolve o manuseio das chaves desenvolvidas pelos fabricantes. Seja para a parte cirúrgica, como para a protética, frequentemente, o implantodontista está usando estas pequenas ferramentas. O especialista em implantes não está longe das demais especialidades odontológicas. Na nossa profissão, seja qual for a área, estamos sempre em contato com pequenos instrumentos e ferramentas que, geralmente, estão envoltos em saliva ou sangue e podem ser deglutidos involuntariamente pelo paciente. 

No ano passado tivemos um caso desse estilo na clínica de mestrado do Cepid-UFSC, que vou relatar a vocês hoje. Também estou disponibilizando, para download, a íntegra do artigo publicado sobre este episódio.

Uma paciente de 40 anos de idade estava sendo submetida a uma cirurgia de segundo estágio, para acesso a plataforma dos implantes e posterior moldagem para confecção de uma prótese protocolo. Quando o profissional estava acessando o implante mais distal, a chave escorregou dos seus dedos e caiu no assoalho bucal, sendo imediatamente engolida pela paciente. Perguntada se havia sentido algo fora do normal, a mesma relatou que não e que estava tudo bem. Vale lembrar que esta paciente havia sido submetida a uma hemimandibulectomia para tratamento de câncer bucal. Assim, a sua inervação natural havia sido removida, prejudicando a sensibilidade. A confecção de uma prótese protocolo sobreimplante era a única saída para ela, em termos de mastigação e convívio social.

Accident in Implant Dentistry: Involuntary Screwdriver Ingestion during Surgical ProcedureConfirmada a deglutição, a paciente foi encaminhada ao atendimento médico emergencial no Hospital Universitário da UFSC, onde foram realizadas radiografias abdominais que localizaram a chave no trato gastrointestinal, mas sem um local definido (Figura 1). A paciente foi submetida a uma dieta rica em fibras para estimular a eliminação natural e fisiológica do instrumento. Não havia nenhum sinal ou sintoma de hemorragia ou dor. Após cinco dias de acompanhamento, mesmo sem sintomas e sem sucesso na eliminação natural, a equipe médica optou pela remoção cirúrgica da chave, pois a mesma aparentava estar obstruindo a válvula ileocecal, impedindo que o instrumento fosse expectorado. O procedimento cirúrgico seguiu sob anestesia geral, onde foram realizadas uma laparotomia e uma colostomia de 1 mm para remoção do instrumento. Essas técnicas são as mais utilizadas quando é necessária intervenção cirúrgica para remoção de corpo estranho. A paciente permaneceu internada durante sete dias até sua completa recuperação.

Embora os relatos de casos clínicos na literatura não sejam em grande número, já existe uma série de artigos abordando este tema. Netas situações, cerca de 87% dos instrumentos são deglutidos e 13% são aspirados. Felizmente, na maioria das situações, os instrumentos são eliminados naturalmente. Entretanto, existem complicações que estão associadas com hemorragia, infecção, obstrução intestinal e perfurações. O diagnóstico precoce é a chave para um protocolo de atendimento que evite maiores problemas. Radiografias abdominais com acompanhamento médico são imprescindíveis para se evitar maiores problemas, caso haja a necessidade de intervenções cirúrgicas objetivando a remoção do corpo estranho.

O velho jargão: "a prevenção ainda é o melhor remédio" se aplica muito bem nesse tipo de problema. Procedimentos simples, como colocar compressas de gaze junto a garganta do paciente ou amarrar um fio dental, ou de sutura nas chaves, funcionam muito bem para evitar a deglutição de instrumentos. Conferir a mesa cirúrgica após o procedimento, verificando se todos os instrumentos e chaves estão presentes, também auxilia na prevenção e/ou diagnóstico precoce. O que importa é diagnosticar rapidamente o acidente e enfrentá-lo seguindo o protocolo de internação médica. Relutar em tomar estas decisões e esperar pela cooperação da digestão e eliminação naturais é arriscar muito, tanto sob o aspecto da saúde do paciente, como sob o ponto de vista legal.

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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