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Publicado em: 10/11/2012 12h04

Você já julgou o trabalho de outro colega?

Muitos trabalhos são refeitos por puro preciosismo e sem a real necessidade funcional e de promoção de saúde.

O julgamento do mensalão, que está ocorrendo no Supremo Tribunal Federal, está fazendo todos os brasileiros exercitarem o ato de julgar. Graças às transmissões abertas e ao vivo, temos tido a oportunidade de assistir a este julgamento tão importante na nossa república moderna. Os réus deste mensalão já tiveram o seu julgamento feito pela opinião pública. A imensa maioria já os condenou antecipadamente. A própria imprensa, em sua quase totalidade, também os condenou e faz uma marcação cerrada aos juízes que estão absolvendo alguns dos réus. Eu, particularmente, também já entrei nesta onda e estou vibrando com as condenações!

Contudo, quando paro para refletir, me assusto com essa palavra: julgar. Será que a minha postura, quando recebo pacientes de outros colegas e julgo os tratamentos por eles feitos é assim, unilateral? Por que eu sou mais condescendente com os meus tratamentos do que com os dos colegas? Esta certeza em condenar o que os outros fizeram me faz lembrar uma frase do Nelson Rodrigues: "Toda a unanimidade é burra!".

O direito de defesa é válido para todos, em qualquer área de atuação. Quando me deparei com alguns argumentos de defesa dos réus do mensalão, confesso que fiquei confuso. Os advogados são verdadeiros estrategistas de nossas mentes e nos fazem avaliar as questões sobre outro prisma. Da mesma forma, quando avaliamos um caso realizado por um colega e escutamos apenas a versão do paciente, certamente seremos tendenciosos.

Nós, dentistas, temos o péssimo hábito de achar que faríamos muito melhor um tratamento já realizado por outro profissional. Partindo desta premissa, fica fácil criticar, achincalhar e arrebentar com a reputação do outro. A briga por pacientes e a concorrência do mercado de trabalho acaba nos fazendo agir com um espírito crítico muito aguçado e perfeccionista. O resultado é que muitos trabalhos são refeitos por puro preciosismo e sem a real necessidade funcional e de promoção de saúde.

Na Implantodontia, esse pré-julgamento ocorre frequentemente. E o mais grave é que essa definição de julgar um trabalho inadequado, muitas vezes, é feita sem se avaliar completamente o caso. Vejam nas Figuras 1 e 2. Se analisarmos o caso apenas com a visão extraoral da Figura 1, jamais poderemos identificar os problemas representados na Figura 2. Mesmo assim, ficam as perguntas: esse trabalho merece ser trocado por razões estéticas, haja vista que o paciente tem um sorriso baixo? Essas fotografias são informações suficientes para julgarmos o caso?

Figura 1 - Visão extraoral de reabilitação com implantes nos elementos 21 e 22.
Figura 1 - Visão extraoral de reabilitação com implantes nos elementos 21 e 22.

Figura 2 - Visão intraoral da reabilitação.
Figura 2 - Visão intraoral da reabilitação.

Infelizmente, eu já tive o desprazer de ser chamado pela justiça para ser perito em uma ação de um paciente contra um profissional. Tive que avaliar todo o trabalho e emitir um parecer, baseado em um exame clínico rápido e informações vagas. Eu não ouvi o relato detalhado do caso de ambas as partes. Eu não tive acesso à história clínica do tratamento, que muitas vezes é o mais importante. Essa experiência me fez mudar a minha postura quando estou avaliando o trabalho de outro dentista. Eu sempre penso que alguém pode estar avaliando algum trabalho meu naquele mesmo momento.

Julgar com imparcialidade é muito difícil. Geralmente, a emoção e a prepotência tomam o lugar da razão e da tolerância. É preciso muito preparo para não sentir o peso da responsabilidade de julgar alguém. Obviamente, quando estamos no dia-a-dia clínico de um dentista, esse julgamento é mais informal. Porém, nunca se sabe exatamente o que ocorreu durante todo o tratamento que não foi realizado por nós. Por isso, é preciso muita prudência.

"Como é que você pode dizer ao seu irmão: ´Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho´, quando você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem, para tirar o cisco do olho do seu irmão." (Lucas 6:42)

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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