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Publicado em: 10/25/2012 52h4

Dentistas, quem somos nós?

Torturadores, médicos da boca ou doutores da alma? Marco Bianchini vai fundo na questão.

Nesta semana, comemora-se no Brasil o dia do cirurgião-dentista. No mundo, esta comemoração ocorreu no dia 3 de outubro. O Brasil, entretanto, escolheu outra data para homenagear os odontólogos. O dia 25 de outubro celebra a abertura do primeiro curso de graduação em Odontologia, que ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, em 1884. Acredito que devemos ter mesmo uma data diferente para comemorar, pois somos o país onde mais habitam dentistas - mais de 219 mil cadastrados no Conselho Federal de Odontologia (CFO). Este total representa cerca de 19% dos dentistas do mundo, onde o número total ultrapassa um milhão. É muita gente, mas...quem somos nós?

Se você pesquisar no Google, vai achar uma série de definições para nós. Na Infopédia, dentista é "a designação vulgar de qualquer profissional de saúde oral". Na bem-humorada Desciclopédia, dentistas "são de um clã de torturadores medievais, que com o fim da idade média e da inquisição viram sua função inicial desaparecer". Eu prefiro ficar com a definição clássica encontrada na Wikipédia, em que um dentista, cirurgião-dentista ou médico dentista é o profissional da saúde capacitado na área de Odontologia, que estuda e trata o sistema estomatognático; compreendendo a face, pescoço e cavidade bucal, e abrangendo ossos, musculatura mastigatória, articulações, dentes e tecidos. Assim sendo, tecnicamente, nós somos os profissionais responsáveis pela prevenção e pelo tratamento das doenças da boca e de suas estruturas associadas, atuando na saúde do indivíduo como um todo. Hoje, fica fácil elaborar e achar estas definições, mas vale a pena lembrar quando isso tudo começou.

Diz-se que o primeiro dentista do mundo tenha sido o egípcio HesyRe, em 2.600 a.C. Ele era um oficial e escriba que viveu durante a terceira dinastia do Egito, servindo o faraó Djoser. Em sua tumba, que era muito bem decorada, foram encontrados desenhos e inscrições que comprovavam a sua atividade, dentre eles a definição: "Primeiro dos dentistas e médicos". Como vocês podem ver, para irritação e desgosto da classe médica, nós chegamos antes.

HesyRe - o primeiro dentista do mundo.
Desenho representando a atividade odontológica na tumba
do primeiro dentista do mundo, o egípcio HesyRe.

Nestes quase 5.000 anos de história, muita coisa aconteceu. Em Portugal, no século 17, foi instituída uma multa para aqueles que extraíssem dentes sem licença. No Brasil, em 1811, foi expedida a primeira carta de dentista, pelo português Pedro Martins de Moura, que dava direito apenas de "tirar dentes". Finalmente, em 1840, na cidade de Baltimore, nos Estados Unidos, surgiu a primeira escola de Odontologia propriamente dita, chamada "College of Dental Surgery". Durante todo esse tempo, a nossa profissão evoluiu e, de meros "tiradores" de dentes, viramos agentes de prevenção e promotores de saúde bucal.

Particularmente, acho que somos muito mais do que "tratadores" ou médicos da boca. Quem promove saúde não pode ficar a margem das dores da alma. Os tratamentos tanto da alma como do dente são semelhantes: ambos objetivam recuperar e não extrair e jogar fora (vejam este artigo retirado de um site bastante interessante: www.drcamilo.odo.br). Quando o nosso espírito está doente, todo o corpo sofre, pois ele coordena as demais funções da nossa vida. É assim também com a boca. Quando um dente tem problema, todo o corpo pode vir a sofrer com isso e vice-versa. Um paciente em depressão ou estressado pode desenvolver vários problemas bucais. O bruxismo que o diga! Além disso, todos nós sabemos que aqueles pacientes que estão perturbados com outros problemas em suas vidas pessoais são bem mais difíceis de tratar e a possibilidade de insucesso nestas situações é sempre maior.

A maioria dos nossos pacientes tentam resolver todos os seus problemas com a melhoria na estética. É a febre do mundo moderno, em que a aparência é tudo. Entretanto, a verdadeira dor que eles sentem não está na boca, e sim em suas vidas. Desta forma, o nosso tratamento deve englobar também esta área. Nós atendemos pessoas, e não números. Temos responsabilidades com elas e devemos lançar um olhar generalista no corpo inteiro, principalmente na mente. Promover saúde bucal é também devolver o bem estar emocional.

Parabéns a todos nós, e que tenhamos um olhar mais humano durante nossos tratamentos.

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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