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Publicado em: 11/1/2012 12h

Você acredita em implantoplastia?

Técnica de descontaminação é usada também para corrigir erros de posicionamento. Não seria melhor planejar com mais cuidado?

O último número da revista PerioNews (Vol.6/N.5) apresenta o lançamento de uma nova modalidade de artigos científicos: são os suplementos especiais sobre um tema pré-definido. Eu e a minha equipe tivemos a honra de estrear esta nova seção da nossa querida revista de Periodontia. O tema escolhido foi a peri-implantite, um assunto que me seduz cada vez mais, devido à sua intensa relação com a manutenção dos casos em longo prazo. Neste artigo, abordamos de uma maneira bem sucinta o diagnóstico e o tratamento das doenças peri-implantares. Uma das modalidades de tratamento é a implantoplastia, que consiste no alisamento, com brocas de alta rotação, das roscas do implante que foram contaminadas com bactérias e sofreram perda óssea. Sempre que eu realizo esta técnica, fico me perguntando se realmente este processo vale a pena.

 
Figura 1 - Exposição de roscas na vestibular do implante. Observar que o implante está vestibularizado.
Figura 1 - Exposição de roscas na vestibular do implante. Observar que o implante está vestibularizado.
 
Figura 2 - Retalho parcial realizado. Observar a presença de tecido conjuntivo sobre as roscas que não estavam expostas.
Figura 2 - Retalho parcial realizado. Observar a presença de tecido conjuntivo sobre as roscas que não estavam expostas.
 
Figura 3 - Ponta diamantada em alta rotação para a realização da implantoplastia.
Figura 3 - Ponta diamantada em alta rotação para a realização da implantoplastia.
 
Figura 4 - Refinamento da implantoplastia com broca multilaminada.
Figura 4 - Refinamento da implantoplastia com broca multilaminada.

Nos últimos anos, alguns autores vêm pesquisando este tema e publicando alguns resultados bastante interessantes, (veja os artigos que disponibilizei de Romeo e Schwarz), principalmente no que diz respeito à cicatrização dos tecidos moles e estabilização do processo, impedindo que a doença progrida e permitindo que o conjunto implante-prótese possa se manter na boca de uma maneira saudável. A técnica em si é bastante simples (Figuras 1 a 10) e se resume a uma cirurgia ressectiva de acesso às roscas contaminadas do implante. Após este acesso e a remoção do tecido de granulação, uma ponta diamantada remove as roscas do implante, aplica-se um descontaminante na nova superfície sem roscas, e enxertos de tecido ósseo ou conjuntivo podem ser realizados para a manutenção do espaço, evitando que os tecidos migrem em direção apical e comprometam a estética. Em algumas semanas de cicatrização, a eliminação dos componentes inflamatórios é evidente e, em um médio prazo, a doença parece não evoluir. Sendo assim, parece que vale a pena realizar esta técnica. Entretanto, por que isto realmente acontece?

 
Figura 5 - Aspecto final da implantoplastia. Observar a remoção completa das espiras do implante que estavam expostas ao meio bucal.
Figura 5 - Aspecto final da implantoplastia. Observar a remoção completa das espiras que estavam expostas ao meio bucal.
 
Figura 6 - Remoção de tecido conjuntivo do palato.
Figura 6 - Remoção de tecido
conjuntivo do palato.
 
Figura 7 - Aplicação de ácido cítrico a 3% durante dois minutos sobre a área.
Figura 7 - Aplicação de ácido cítrico a 3% durante dois minutos sobre a área.
 
Figura 8 - Adaptação do enxerto de tecido conjuntivo sobre a região que teve as espiras removidas.
Figura 8 - Adaptação do enxerto de tecido conjuntivo sobre a região que teve as espiras removidas.
 
Figura 9 - Sutura com reposicionamento coronal do retalho, procurando recobrir a área do enxerto de conjuntivo.
Figura 9 - Sutura com reposicionamento coronal do retalho, procurando recobrir a área do enxerto de conjuntivo.
 
Figura 10 - Pós-operatório de 15 dias. Observar o recobrimento parcial da área com tecido mole.
Figura 10 - Pós-operatório de 15 dias. Observar o recobrimento parcial da área com tecido mole.

Sabe-se que muitos dos casos de peri-implantite são oriundos de um mau posicionamento dos implantes e da consequente realização de próteses mirabolantes com componentes protéticos extremamente inclinados, para compensarem os erros da cirurgia e do planejamento. Imaginem vocês a dificuldade de higiene nestas situações. Assim, os implantes acabam sendo colocados muito vestibularizados, reduzindo a tábua óssea ou muito próximos uns dos outros, não respeitando as distâncias biológicas. O resultado disso é o acúmulo de biofilme, inflamação e perda óssea peri-implantar. A partir do momento que removemos parte do implante (ou de suas roscas) com uma broca, estamos modificando a sua macroestrutura e corrigindo os erros de posicionamento. Assim, as inclinações, vestibularizações e proximidades exageradas dos implantes acabam sendo "corrigidas" e os tecidos moles voltam a se adaptar perfeitamente, pois os espaços para higiene são devolvidos, assim como as distâncias biológicas peri-implantares são recuperadas. Logo, a implantoplastia não é apenas um método de descontaminação, mas também uma maneira de se corrigir erros de colocação de implantes. Não seria melhor planejar com mais cuidado, evitando o mau posicionamento dos implantes?

Ainda existe um longo caminho a se trilhar na escolha da melhor terapia para o tratamento das doenças peri-implantares. A implantoplastia parece ser mais uma modalidade que deve ser examinada com cuidado, sem a euforia dos modismos e imediatismos. É preciso que se crie um protocolo para a realização desta técnica e se identifique quais as reais consequências de se modificar tão fortemente a macroestrutura de um implante.

"Deus fez o homem correto, mas o homem inventa muitas complicações" (Eclesiastes 7:29).

 

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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