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Publicado em: 11/9/2012 11h58

Quanto vale uma carga imediata

Lamentável erro da Odontologia cria escolas para roubar clientes das clínicas privadas.

Quando os implantes osseointegrados foram "inventados" por Brånemark, uma das heresias que se poderia cometer era colocar uma prótese em função sobre o implante no mesmo dia da sua instalação. Durante muitos anos, esse foi considerado o principal fator de insucesso dos implantes convencionais, ou ditos "fibrointegrados", que vieram antes da Osseointegração. Os laminados, justaósseos e agulhados erraram por terem feito a carga imediata. Era o que diziam os primeiros estudos divulgados em Toronto, na década de 1980.

Como na ciência nada é eterno, a mesma equipe que acusou a carga imediata como sendo um pecado mortal acabou divulgando, no final da década de 1990, os primeiros relatos comprovando a eficácia deste tipo de tratamento. Hoje, esta terapia é de consenso clínico mundial, desde que se respeitem alguns princípios básicos. Ninguém ousa mais dizer que a carga imediata não funciona. Mais uma vez a ciência se mostra extremamente dinâmica e expert em derrubar verdades universais. Aconteceu assim com a teoria da infecção focal, com a extensão para prevenção de Black, com o condicionamento ácido da dentina, dentre outros vários assuntos que eram tabus e se tronaram novos conceitos. Mas, quanto vale esse tratamento? Quanto devemos cobrar para transformar um desdentado total em um indivíduo com uma terceira dentição fixa, podendo reinserir-se na vida social sem constrangimentos? Quanto vale a reposição destes órgãos dentais?

Figura 1: Corte panorâmico de tomografia pré-operatória de desdentado total.
Figura 1: Corte panorâmico de tomografia
pré-operatória de desdentado total.
Figura 2: Radiografia panorâmica de controle 9 meses após a realização de carga imediata superior e inferior em seção única.
Figura 2: Radiografia panorâmica de controle 9 meses após carga imediata superior e inferior em seção única.
Figura 3: Vista intra-oral da reabilitação após 9 meses.
Figura 3: Vista intra-oral da reabilitação após 9 meses.
Figura 4: Vista extra-oral da reabilitação após 9 meses.
Figura 4: Vista extra-oral da reabilitação após 9 meses.

Os antigos já sabiam mensurar o valor de um dente. Na Bíblia, a perda de um dente de um escravo causada pelo seu senhor valia a liberdade: "Se alguém quebrar um dente do escravo ou da escrava lhe dará a liberdade em troca do dente". (Êxodo: 21:27). Vejam vocês a valorização deste órgão. Valia a liberdade. Isso me faz lembrar o julgamento do mensalão. Quantos desses políticos condenados não dariam um ou mais dentes em troca da liberdade que certamente irão perder?

Cobrar pelos nossos tratamentos, em especial a carga imeditata total, é bastante difícil. Depende do mercado da nossa região, concorrência, tipo de implante que usamos, custos fixos, variáveis etc. Mesmo assim, devemos repensar o valor desses tratamentos. Ainda custa muito caro ter uma boca transformada de dentaduras móveis para próteses fixas implantossuportadas. Mas, o que é caro ou barato? Dez, 20, 30 ou 40 mil reais por uma boca nova com implantes? Você, dentista, pagaria por isso? Você pode pagar por isso sem causar impacto no seu orçamento familiar? Acredito que a maioria de nós até pagaria, mas sofreria um revés nas contas familiares.

Assim, os locais onde mais se realizam as cargas imediatas totais são nos cursos de formação (aperfeiçoamentos, atualizações, especializações, mestrados etc.), pois os valores cobrados são mais baratos e acessíveis às camadas mais necessitadas deste tipo de terapia. Lamentável engano da nossa classe, que acabou criando um canibalismo dos nossos próprios clientes particulares. Bons dentistas abandonaram os seus consultórios e tornaram-se "professores" para ganhar mensalidades de alunos e alguns "reais" dos pacientes dos cursos, criando escolas que roubam clientes das nossas clínicas privadas. Não seria mais fácil cobrar um pouco menos nos nossos próprios consultórios? Não seria mais prudente estendermos as parcerias que são feitas entre as empresas fabricantes de implantes e as escolas para dentro de nossas clínicas?

Acredito que o assunto merece reflexão. E, por favor, não me venham clamar por auxílio do poder público. Vamos ser empreendedores e apostar na nossa iniciativa privada! Ainda existem muitas bocas com necessidade de implantes, mas que não o fazem por falta de dinheiro.

"O injusto conquista lucros enganosos; quem semeia justiça tem salário seguro."  (Provérbios 11:18)

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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