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Publicado em: 1/11/2013 12h39

A ferulização ou esplintagem de dentes abalados

Marco Bianchini apresenta um caso de ferulização de dentes abalados. Um recurso antigo da Odontologia que pode voltar à moda.

Há nove anos eu tive um problema na coluna chamado espondilolistese, que consiste no escorregamento pra frente de uma vértebra em relação à vértebra inferior. O tratamento era cirúrgico e o médico começou a me explicar, com muitos detalhes, que ele iria unir as vértebras, tanto as boas como as lesadas, para evitar que o escorregamento continuasse. Eu não precisei de muito esforço para entender o tratamento. Na verdade, iriam esplintar as minhas vértebras. Igual como fazemos nos dentes abalados periodontalmente.

A ferulização ou esplintagem de dentes abalados é um recurso terapêutico bastante antigo que advém dos primórdios da Odontologia. Para se evitar que dentes com grau de mobilidade avançado fossem extraídos, os profissionais optavam por uni-los. Assim, vários dentes abalados acabavam por funcionar como um único dente com várias raízes. Esta união dos dentes era feita das mais variadas maneiras. Desde fios de aço recobertos com resina acrílica, como restaurações de resina composta ou próteses fixas, muitos recursos eram utilizados para ferulizar os dentes com problemas periodontais avançados, pois o que importava era que o dente ficasse firme. O problema era que a higiene ficava dificultada e muitos pacientes abandonavam os controles periódicos, levando alguns casos ao insucesso. A Figura 1 retrata um insucesso da técnica de esplintagem.

Figura 1 - Esplintagem incorreta. Observar a desconfiguração gengival.
Figura 1 - Esplintagem incorreta. Observar a desconfiguração gengival.

Na verdade, o princípio da ferulização obedece aos preceitos do polígono de Roy, que em 1930 preconizou que pacientes com desenvolvimento de doença periodontal, ou com poucos dentes suportes remanescentes, necessitam de um tratamento utilizando próteses com esplintagem em planos diferentes. Assim, o ideal seria unirmos dentes de segmentos diferentes para que as forças fossem melhores distribuídas. Então, se temos quatro incisivos abalados, devemos esplintá-los aos caninos; se temos os prés com problemas, devemos uni-los aos molares, e assim por diante. Da mesma forma, o pesquisador Morton Amsterdam publicou em 1974 uma pesquisa relatando o acompanhamento de 25 anos de próteses periodontais que obedeciam este mesmo princípio. As Figuras 2 a 5 demonstram um caso com 12 anos de controle de uma esplintagem.

A figura 2 mostra o raio X inicial antes do tratamento e a Figura 3 mostra o raio X de controle após 12 anos do tratamento. Neste caso, foi realizado tratamento periodontal não cirúrgico (apenas raspagem) e ortodôntico, com a presença de uma contenção definitiva. Observar a correção do nível ósseo c
Figuras 2 e 3 - Raio X inicial antes do tratamento e de controle, após 12 anos. Neste caso, foi realizado tratamento periodontal não-cirúrgico (apenas raspagem) e ortodôntico, com a presença de uma contenção definitiva. Observar a correção do nível ósseo com o desaparecimento dos defeitos. Observar também a intensa presença da lâmina dura na Figura 3.

Figuras 4 e 5 - Controle de 12 anos, logo após a raspagem de manutenção. Observar a boa condição dos tecidos.
Figuras 4 e 5 - Controle de 12 anos, logo após a raspagem de manutenção. Observar a boa condição dos tecidos.

Atualmente, com o surgimento dos implantes, esses conceitos voltaram à moda. Na verdade, nunca caíram de moda. Quem faz Periodontia e Prótese sabe que estes princípios continuam a valer, e muito, seja para dentes naturais como para implantes. O que me causa espanto é que artigos são escritos e casos clínicos são publicados relatando a exodontia de dentes abalados para se utilizar os preceitos da esplintagem em implantes. Ora, porque não se utilizar estes preceitos nos dentes naturais e evitar a exodontia dos mesmos? Se vamos deixar o paciente com uma prótese total protocolo ou uma prótese fixa sobre implantes esplintada, por que não deixar esta esplintagem nos dentes naturais? Por que não esplintar os dentes com coroas, para melhorar a estética?

No ano passado, o professor Jan Lindhe falou em um congresso na Espanha que devemos colocar menos implantes e investir mais no tratamento periodontal dos dentes naturais, pois as doenças peri-implantares vieram para ficar. O que vem ocorrendo é que estamos extraindo dentes, que poderíamos ter tratado periodontalmente, para colocarmos implantes. Porém, estes implantes também estão sofrendo com doenças peri-implantares e necessitando de tratamentos, que muitas vezes são semelhantes aos tratamentos que poderíamos ter feito nos dentes naturais antes de extraí-los e colocarmos implantes. Perceberam que estamos correndo atrás do nosso próprio rabo?

A esplintagem de dentes abalados é uma excelente alternativa de tratamento periodontal e, assim como diversas outras modalidades tradicionais de tratamento, vai voltar à moda, à medida que os casos de insucesso em Implantodontia forem aumentando.

"Coma muito ou coma pouco, o sono do trabalhador é gostoso, enquanto a fartura do rico não o deixa dormir." (Eclesiastes 5:11)

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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