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Publicado em: 9/20/2013 85h3

Por onde andam os implantes zigomáticos?

Marco Bianchini comenta sobre a evolução dos implantes zigomáticos e os cuidados necessários no momento de escolher esse procedimento.

Há cerca de cinco anos, havia uma febre de implantes zigomáticos no Brasil. Todos os congressos, revistas científicas e eventos centralizavam este tema como revolucionário. Cursos de credenciamento eclodiram pelo País afora e as empresas fabricantes de implantes investiram muito em pesquisa e desenvolvimento deste tipo de produto. Assim a técnica se difundiu bastante. Mas, como todo modismo, após uma febre de indicações, acabou diminuindo bastante. Basta observar a grade de palestras do IN 2013, onde encontramos pouca gente falando deste tema. O que aconteceu? Por onde andam os zigomáticos?

Quando se fala em implantes zigomáticos é necessário entender que eles não surgiram há cinco ou dez anos atrás. Na verdade, esta solução cirúrgica foi idealizada por Brånemark na década de 1990, para casos limítrofes onde até mesmo os enxertos ósseos tinham um prognóstico sombrio. Os casos selecionados naquela época envolviam pacientes com pouca quantidade e qualidade óssea, geralmente mutilados, em que a única solução seria explorar o zigoma. Com o passar dos anos, a técnica evoluiu e várias alternativas foram criadas. Os implantes zigomáticos então começaram a ter as suas indicações ampliadas.

Baseado nesta evolução, a febre se instalou na comunidade implantológica e todos nós começamos a fazer muitos implantes zigomáticos. Assim como muitos, eu também entrei nesta canoa e realizei alguns casos. Abaixo, um caso clínico de zigomático com acompanhamento de quatro anos (Figuras 1 a 10). Inicialmente, tentamos uma reconstrução total de maxila com enxerto de banco de osso humano, o que gerou insucesso, reabsorvendo ainda mais a maxila e nos levando à indicação de zigomáticos.

 

Figura 1 - Radiografia panorâmica de diagnóstico. Observar a pouca quantidade
óssea no arco superior.

 

Figuras 2 e 3 - Reconstrução total de maxila com enxertos de banco de osso humano, em bloco e particulado. Observar que
o remanescente ósseo era pequeno.

 

Figuras 4 e 5 - Implantes zigomáticos colocados após quatro meses do insucesso dos enxertos ósseos - quatro implantes distribuídos na maxila. Observar a ausência de tecido ósseo junto à cabeça dos implantes na Figura 4.

 

Figura 6 - Radiografia panorâmica imediatamente após a instalação da prótese sobre os quatro
implantes zigomáticos.

 

Figura 7 - Radiografia panorâmica após quatro anos da colocação dos implantes. Observar a boa
condição dos implantes e da prótese, além da reabilitação com implantes tipo cone-morse no arco inferior.

 

Figura 8 - Radiografias periapicais dos implantes. Observar as modificações do padrão ósseo junto à
Figura 8 - Radiografias periapicais dos implantes. Observar as modificações do padrão ósseo junto à

 

Figura 9 - Vista vestibular da reabilitação superior, após quatro anos.

 

Figura 10 - Vista palatal da reabilitação. Observar a emergência excessivamente palatina dos implantes, uma
limitação comum dos zigomáticos. Observar também a boa condição dos tecidos moles peri-implantares.

Embora as radiografias convencionais (panorâmica e periapicais) tenham certa dificuldade em diagnosticar a real situação do osso peri-implantar nos zigomáticos, o aspecto clínico e a ausência de sinais e sintomas de inflamação e infecção nos sugerem uma estabilidade do caso após quatro anos com aparente sucesso.

Este caso clínico apresenta o lado bom dos zigomáticos. Ele seguiu um protocolo onde se tentou primeiro uma reabilitação com enxertos ósseos, que talvez tenha sido mal indicada devido ao pouco remanescente ósseo. Como a reconstrução de maxila com enxertos falhou, os zigomáticos entraram como uma excelente segunda opção. Infelizmente, não foi isso que aconteceu nos últimos cinco anos de uso indiscriminado desta técnica. Muitos profissionais passaram a eleger estes implantes como primeira opção na reabilitação das maxilas, mesmo quando elas apresentavam algum remanescente ósseo que poderia ser aproveitado. Desta forma, dentes hígidos foram extraídos, enxertos de seio maxilar foram abandonados e a técnica convencional das próteses protocolo foi praticamente abandonada, sobre a pobre justificativa de se ter o caso concluído em três dias.

Quem já teve um insucesso com zigomáticos entenderá o que eu vou falar nas próximas linhas. Eu já tive dois casos de zigomáticos com insucesso, e a dor de cabeça não foi pequena. O trauma cirúrgico e psicológico que os pacientes sofrem nos faz repensar bastante em relação à indicação desta técnica. Reabilitar novamente uma área que recebeu zigomáticos não é moleza. O remanescente ósseo praticamente desaparece e, fatalmente, temos que migrar para uma reconstrução com crista ilíaca, se possível. Assim, um tratamento que foi prometido ser concluído em três dias acaba durando dois anos.

Os implantes zigomáticos são mais uma alternativa dentro das inúmeras técnicas que surgem rotineiramente na Implantodontia. Eles possuem indicações precisas, mas não devem ser eleitos como a primeira opção para maxilas normais. O "problema" é que se ganha muito dinheiro com eles, e a resolução protético-cirúrgica leva apenas três dias, quando dá certo.

"Pois você não sabe? Acaso não ouviu falar? Javé é o Deus eterno; foi Ele quem criou os confins do mundo. Ele não se cansa, nem se fatiga, e sua inteligência é insondável." Isaías 40, 28.

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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