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Publicado em: 10/4/2013 24h6

Escute os mais velhos

Marco Bianchini destaca a importância da sabedoria dos profissionais mais experientes para as práticas clínicas.

Eu venho de uma família grande. Sou o mais novo entre seis irmãos. Assim, me acostumei desde cedo a escutar os mais velhos. No início, este exercício de escuta era quase que obrigatório, pois todos os meus irmãos mais velhos, de uma forma ou de outra, tiveram influência na minha formação. Confesso que isso me irritava um pouco, pois parecia uma obrigação. Contudo, com o passar dos anos, fui vendo que esta escuta era um grande benefício que me fora dado e, ao longo dos anos, foi se traduzindo em uma grande vantagem nos desafios que passei a enfrentar no dia a dia. Na verdade, eu possuía (e ainda possuo) o meu conselho particular de "anciãos" que, através de suas experiências já vividas, me orientava nos caminhos e escolhas que eu tinha de seguir.

Na semana passada, durante o IN 2013, eu procurei seguir esta filosofia. Diante de tantas palestras e cursos interessantes, era impossível frequentar todos. Com o nível do congresso altíssimo, foi muito difícil ter que deixar algumas apresentações de fora. Assim, eu escolhi os palestrantes mais velhos e com mais experiência. Foi uma decisão muito acertada, pois tive a oportunidade de aprender muito com estes profissionais mais experientes. Dentre vários com este perfil, eu destaco o professor Antonio Wilson Sallum, do Brasil, e o professor Myron Nevins, dos EUA.

O que mais me chamou a atenção nestas palestras dos mais experientes foi o acompanhamento em longo prazo dos casos. Tive a oportunidade de ver casos com até quase 40 anos de acompanhamento. Isto mesmo! Você não está lendo errado. Eu assisti vários casos com mais de 30 anos de follow up. Somente profissionais com mais de 30 anos de profissão é que conseguem nos brindar com estas relíquias clínicas que muito nos ensinam.
E o que nos disseram estas sequências de tantos anos? A maioria destes casos antigos eram situações que envolviam tratamentos odontológicos completos, abordando quase todas as áreas da Odontologia. Geralmente o equilíbrio era dado através do tratamento periodontal e estabilidade oclusal, obtida por Ortodontia e reabilitações protéticas. Como muitos destes casos se iniciaram antes da popularização dos implantes osseointegrados, observei muitas próteses fixas com manutenção periodontal frequente. Com o passar dos anos, os acompanhamentos iam mostrando a substituição de dentes, que iam se perdendo nas reabilitações ou por periodontite, por implantes.

Muitos destes pacientes ainda estão vivos, no alto dos seus 90 anos. Eles continuam com muitos dentes naturais na boca, que responderam bem à terapia periodontal. Estas pessoas também possuem muitos implantes que vieram para substituir os dentes perdidos. Nada foi feito com pressa ou com imediatismos de eutanásia dental e protocolos de carga imediata com sacrifício de dentes hígidos.

Observando estes tratamentos, senti muita vergonha pelo que fazemos em nossos consultórios atualmente. A Odontologia baseada em evidências científicas, que congregava todas as especialidades tratando o paciente como um todo e investindo na preservação dos elementos dentais e na prevenção de doenças e futuros problemas, parece estar abandonada. Estamos ficando sem criatividade, assombrados pela pura e simples técnica de se furar o osso e colocar parafusos pilares de dentes artificiais.

Os resultados discutidos por muitos dos palestrantes mais experientes em muitos dos cursos do IN 2013 mostraram uma tendência preservacionista. A formação óssea ao redor de dentes que recebem tratamento periodontal ocorre com o passar dos anos, melhorando o quadro para futuros implantes. Isto contraria a tendência de alguns imediatistas, que preferem extrair elementos preventivamente, tendo como justificativa a manutenção do osso para suportar futuros implantes.

Seguir os conselhos dos mais velhos parece ser um jargão antigo, mas ainda funciona muito, principalmente quando se carece de uma direção adequada para se obter sucesso em longo prazo.

"Não deixe de disciplinar o jovem. Se você o corrigir com vara, ele não morrerá." (Provérbios: 23, 13)

Marco Bianchini
Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato:
bian07@yahoo.com.br



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