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Publicado em: 20/03/2014 14h17

A febre dos seis

Paulo Rossetti fala sobre as teorias que ganham popularidade, mas que nem sempre se sustentam à luz das evidências.

Carl Sagan dizia que o mundo é assombrado por fantasmas e demônios, e o conhecimento é a cura para todas as febres. “Não olhe no espelho após as refeições, porque seus olhos poderão entortar” era um dito muito popular na minha infância. Será? Faça o teste! Não descarto você passar mal, mas será por outro motivo: indigestão. O espelho não possui propriedades sobrenaturais.

Também, há mais de 20 anos, na prestigiada revista Nature, falava-se em “memória” da água (homeopatia), uma propriedade capaz de aplacar os febrões mais homéricos. Entretanto, algumas dúzias de cartas contestadoras bastaram para o editor convocar um time seleto (com direito a um mágico) e fazer a contraprova. No final, o que deveria terminar em champanhe e caviar se transformou na constatação Alzheimeriana mais famosa de todos os tempos. Afinal, teria a febre sido abaixada por si própria?

Atualmente, uma “nova onda de calor” acomete as revistas científicas. Sinal dos tempos? Dentre os achados principais, encontramos um novo biomaterial com evidência histológica e/ou radiográfica de formação óssea em curtíssimo prazo (seis meses). Normalmente, ela também traz o levantamento do assoalho do seio maxilar, associado mais tarde à colocação dos implantes dentários, ou ao aumento horizontal do rebordo alveolar.

Neste momento, é preciso refletir: à luz do conhecimento atual, processos como randomização, estudo duplo-cego, a presença de um grupo controle, e amostras com números consideravelmente sustentáveis para garantir o poder estatístico do experimento ainda estariam imunes a qualquer “aquecimento global”?

Obviamente, nada contra publicar, desde que as indicações e limitações estejam muito bem definidas. Após qualquer reconstrução, o metabolismo ósseo é instável nos primeiros 12 a 18 meses, e quanto maior o tempo de acompanhamento, melhor a interpretação dos resultados clínicos.

Entretanto, de acordo com os livros de patologia, muitas febres, quando não cuidadas, levam facilmente ao delírio e convulsão. É certo que não morreremos desta febre, mas ela poderá deixar sequelas? A resposta, com muita esperança e boa vontade, só mesmo daqui há cinco ou dez anos, tempo mais que suficiente para que a febre desapareça por completo.

 

Paulo Rossetti é editor-científico da revista ImplantNews. Cirurgião-dentista, mestre e doutor em Reabilitação Oral - FOB/USP.

 

 



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