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Publicado em: 04/10/2017 15h30

Não existe “dono da verdade”

Paulo Rossetti ressalta que nem mesmo os ganhadores do Prêmio Nobel são infalíveis.

Aproveitando a semana de entrega dos Prêmios Nobel, me proponho a falar sobre dois aspectos muito importantes. O primeiro é a informação disponível, o segundo é o uso que se faz dela.

Em um mundo conectado, a informação disponível é questionada, alterada e renovada com uma velocidade fantástica. Nem se você estiver cadastrado para receber todos os “e-mails alerts” de todos os periódicos científicos, o seu cérebro conseguirá absorvê-los e processá-los em tempo recorde. Isto também serve para o processo de preparação de uma aula. Entretanto, é importante estar atento e ter filtros. Fica mais fácil formar um grupo para digerir este mundaréu de informações (os famosos consensos e associações). Importante: consensos e guidelines são documentos com intenção de orientar a prática, mas “perdem sua validade” se não forem revistos periodicamente.

Se você, que busca informações on-line e off-line, não tem escutado ou lido as palavras mágicas “até o momento, a melhor informação disponível nos direciona para...”, saiba que estará sentado diante de pessoas que simplesmente, por motivos diversos, estão paradas no tempo. Entretanto, também é ilusório acreditar que a capacidade de acesso instantâneo à informação tornará qualquer aluno “professor do seu professor”.

Nas ciências da Saúde, “fazer terapia” significa equilibrar o conhecimento teórico com a prática clínica mais sensata, com o melhor custo-benefício para o seu paciente. E ninguém se tornará professor com cinco minutos de clínica ou meia-dúzia de belos slides. Também, ser professor não dá um selo de imunidade ao autoquestionamento. Sim, é importante reconhecer os feitos científicos atingidos, mas ter consciência de que a qualquer momento isto poderá mudar, independentemente do local ou grupo de trabalho ao qual pertencemos. O maior engano é crer que “uma diferença estatisticamente significativa” nos dará o título de “donos da verdade” ou “a chave da cidade”. Quem nunca caiu do pedestal que jogue a primeira pedra!

Sobre o segundo item: não é a ferramenta (acesso) que você possui, mas trata-se de qual uso você fará dela. Mesmo os estudos randomizados com a menor quantidade de erros de metodologia não são “à prova de balas”. Por quê? Pacientes são uma unidade biológica singular. Porém, muitas vezes tentaremos reduzi-los a um número, colocando-os dentro da mesma caixa quando precisamos fazer um estudo. Realmente, estaríamos na direção certa? A medicina personalizada já pensa diferente. As terapias regenerativas da Odontologia estão em processo (PLOS ONE|DOI:10.1371/journal.pone.0155683).

Concluindo: o que precisamos mesmo é nos vigiar mais e sempre. Não basta compartilhar, é preciso discutir, ponderar e atiçar os ouvintes. E a nós mesmos, um bom “puxão de orelha” cairá muito bem, vindo de quem quer que seja.

Sim, os ganhadores do Prêmio Nobel realmente são pessoas com contribuições que se mostraram úteis ao longo do tempo, mas NÃO são infalíveis. Aliás, ninguém é.

 

Paulo Rossetti é editor-científico da revista ImplantNewsPerio. Cirurgião-dentista, mestre e doutor em Reabilitação Oral - FOB/USP.

 



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