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Publicado em: 1/17/2018 41h3

Só faço bem porque faço todos os dias

O cirurgião-dentista deve estar alerta para questões importantes antes de aderir às terapias estéticas.
O editor-científico Paulo Rossetti lembra que alguns pacientes têm expectativas irreais. (Imagem: Shutterstock)

 

Esta coluna não é sobre regras de etiqueta. Ela vai além. É sobre empatia, a capacidade de se colocar no papel da outra pessoa. Em todos os sentidos. De tempos em tempos, eu também tenho a curiosidade de olhar os casos postados nas redes sociais. Há uma grande variabilidade de resultados funcionais e estéticos.

Então, eu me lembro que existem seres humanos que nasceram com “capacidades ou habilidades”. Vou ao dicionário e vejo que aptidão, realmente, é algo inato. Alguns nascem para jogar bola, outros para nadar, outros são maestros sem nunca terem estudado teoria musical, enquanto outros precisam de mais treino para chegar lá. Certamente, você teve ao seu lado na graduação um colega que esculpia dentes usando sonda exploradora, e ficava sensacional!

Mesmo assim, na Odontologia, o treino é fundamental. Por exemplo, quando os técnicos que fazem aparelhos ortodônticos saem de férias, regressam achando os fios grossos muito “pesados”, e que as respectivas molas não estão tão boas assim. Dois dias depois, o resultado muda. Ainda, eu me deparo com uma afirmação de um grande ceramista, o sr. Naoki Hayashi, “se eu tiver dois técnicos com a mesma habilidade, mas der níveis de informação diferentes para ambos, certamente os trabalhos cerâmicos finais não serão iguais.” Traduzindo: você consegue fazer uma curvatura perfeita na cera (formato do dente), mas se não souber “onde” posicionar a crista de contorno, nunca realmente terá concebido um dente.

Lembrando: antes de “dirigirem sozinhos”, os carros do futuro precisaram de milhões de quilômetros rodados para que entendessem a diferença entre “um pedaço de asfalto” e “um ser vivo”. Desnecessário explicar o motivo.

Mas, depois de quanto tempo mesmo fui entender o que era “um dente”? Quatro anos seria apenas o começo da resposta. Mas, longe do “protetorado” docente, eu me aventuro a dizer que “só amaciei mesmo as peças do meu motor mental” depois de uns bons 10 anos intensos.

Toda essa conversa é um grande alerta: inevitavelmente, vivemos o momento das novas terapias estéticas, principalmente das extraorais. Mais uma vez, não tenho direito de recriminar ninguém. Nosso País tem excelentes profissionais, altamente dedicados ao assunto. Então, antes de fazermos algo que vai mudar – e muito – o aspecto extraoral do paciente, precisamos realmente entender duas coisas:
 

  1. Alguns pacientes têm expectativas irreais: a famosa situação “Dr., eu quero ficar igual ao modelo da capa da revista”. Sobrancelhas, olhos, narizes, e até o volume das bochechas: nada (ou nunca) está bom. Não será uma simples injeção “deste ou daquele” produto que vai fazer o paciente “nascer de novo”. Sabemos, há muito tempo, em condições controladas, o efeito de se abrir uma cavidade pequena, média ou ampla na resistência à fratura de uma restauração (www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/6928479). Agora, olhe para a população brasileira: por exemplo, pelo grau de miscigenação, nossos narizes têm uma miríade de tamanhos, formatos e quantidades de cartilagem: será que nós conseguiríamos dizer, “com precisão”, se a ponta da cartilagem vai realmente ficar para esquerda, direita, ou mais ao centro depois de receber algum produto ou terapia? Ou, se aquilo que desenhamos virtualmente na tela do computador, é o que realmente vai acontecer depois do procedimento?
  1. Esteja preparado (psicologicamente) para o resultado (e como resolver uma complicação): acordar com um dente fraturado e saber que o cirurgião-dentista tem uma solução artificial é uma coisa, mesmo porque o dente “está escondido” pelos lábios e pela mucosa bucal, e o “espelho não vai te incomodar tanto”. Mas acordar com uma decorrência inesperada de algum procedimento estético extraoral minimamente invasivo é totalmente diferente. Não importa o grau de complicação: haverá uma “tropa de espelhos para incomodar o seu seguro de responsabilidade civil” e nem sempre o “protetorado” estará ao seu lado.


Não dá para atravessar a tempestade sem saber se o nosso barco é capaz. 

 

Paulo Rossetti é editor-científico da revista ImplantNewsPerio. Cirurgião-dentista, mestre e doutor em Reabilitação Oral - FOB/USP.


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