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Publicado em: 8/30/2018 25h4

Pesquisa básica e o futuro do Brasil: somos todos parte da equação

Com detalhes de uma situação clínica na Periodontia, Paulo Rossetti exalta a importância das pesquisas básicas para a Odontologia.
A "boa e velha" pesquisa básica ajuda a esclarecer a inquietação dos profissionais. (Imagem: Shutterstock)


Algumas das descobertas mais importantes na história da humanidade necessitaram apenas de curiosidade: o fogo é um bom exemplo.  Entretanto, outras necessitam de um pouco mais do que boa vontade e olhos atentos.

Veja o exemplo do projeto Sirius que usa a luz acelerada sincrotron para desvendar a estrutura da matéria e melhorar as propriedades mecânicas em diversos tipos de materiais. Poderíamos falar também da Embrapa, sucesso do nosso agronegócio, do ITA – e, consequentemente, da Embraer – que despertou os anseios econômicos da Boeing, do Coppe/UFRJ e Petrobras, da capacidade do Inmetro e, recentemente, da liderança brasileira na relação entre zika vírus e a microcefalia, entre outros. São áreas que influenciam nossa sobrevivência como seres humanos.

Entretanto, nem toda pesquisa básica tem aplicação imediata. Pode parecer estranho, mas é a somatória dos resultados de diversas áreas que fornecerá um produto útil. Mesmo assim, o dinheiro terá que ser usado. Por outro lado, não há como girar a roda: pessoas, materiais e as publicações. Considere a carga horária semanal de qualquer professor: sem auxiliares pagos em tempo integral no laboratório ou nas empresas, é impossível desenvolver qualquer pesquisa, desde o sabor do seu café até a colonização do espaço sideral. Ainda, o que seria de nós se a Capes não tivesse feito o consórcio com o MEC para acesso integral aos 53 mil títulos e 129 bases de dados que estão no seu portal? A pesquisa básica muda a sociedade, e cada ser humano é parte da equação.

Agora, vamos imergir nesta situação clínica. Todo periodontista sabe: as feridas cirúrgicas devem ficar bem fechadas. Isso é realizado pela aproximação correta das suas margens e uma técnica de sutura. Entretanto, uma cicatriz visível e difícil de remover é possível, principalmente quando há manipulação tecidual repetida de longa data e/ou envolve áreas extensas. Cicatriz é algo que nos remete ao envelhecimento. É como se o HD do seu computador estivesse defeituoso. Se o nosso “HD” é feito de células, porque não as reprogramar? Guarde essa mensagem. Por outro lado, já existem outras formas para acelerar o processo de cicatrização e melhorar os resultados, colocando-se a fibrina rica com plaquetas (PRF). É 100% autólogo e requer um aparelho específico para retirada e centrifugação do sangue. É uma “baita reprogramação” em nosso HD.

Pausa: em pesquisa básica, ou continuamos a “reprogramação” ou criamos um “novo processador”. Isso normalmente surge pelo estudo de áreas diferentes. Mas como manter a mente aberta sem o devido “sossego financeiro” para testar diversas teorias e gerar algo útil à sociedade?


Retomando: diariamente, ao correr os olhos pela lista de alertas por e-mail, me deparei com um artigo interessante sobre cicatrização, em que os pesquisadores apenas usaram um antibiótico do grupo das tetraciclinas (doxiciclina) em gaze umedecida, estabilizada por uma membrana adesiva, para reduzir significativamente as cicatrizes na pele de ratos.

Opa! Aqui tem coisa! Esse medicamento é um velho conhecido dos periodontistas. Pode ser usado na forma de gel como tratamento químico adjunto à raspagem e alisamento radicular nos casos de periodontite crônica. Dado que fazemos cirurgias periodontais, quem sabe associá-la então ao PRF? Os fatores de crescimento liberados pelas plaquetas acelerariam a cicatrização e, teoricamente, a doxiciclina reduziria as cicatrizes. Como ela faz isto?

Já sabemos: é pela estimulação de fatores de transcrição que reprogramam as células envolvidas na cicatrização e assim reduzem a quantidade de miofibroblastos.

Agora, se esta associação irá proporcionar o efeito esperado, é outra coisa. Mas é a boa e velha pesquisa básica que vai esclarecer a minha inquietação.  E, sem a “dita cuja”, é como tirar o plugue da tomada: nada evolui.
 

Assista também:

Acelerando a resposta clínica

 

Paulo Rossetti

Editor científico de Implantodontia da ImplantNewsPerio

 


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