INPN - O portal das revistas ImplatNews e PerioNews
 
Compartilhe  Compartilhe Twitter Imprimir Indique a um amigo
Publicado em: 28/10/2016 16h25

Cirurgião-dentista: uma profissão difícil

Qual a diferença entre ter sucesso ou sobreviver no mercado de Odontologia?

Todo ano, na semana do Dia do Dentista, que foi no último dia 25, eu me ponho a pensar em nossa profissão. Dependendo do momento em que estou vivendo, seja no consultório ou nas minhas atividades de ensino e pesquisa, essa reflexão pode me trazer alegrias ou tristezas. É aquela velha história que acontece com todo mundo: quando temos sucesso no que realizamos, valorizamos e agradecemos por estarmos atuando nessa área da saúde, mas quando temos que encarar os resultados negativos, sempre vem aquela maldita pergunta: por que fui escolher esta profissão?

Este ano, o pensamento que me veio à cabeça foi o quanto é minuciosa, detalhista e difícil a profissão de cirurgião-dentista. Atuamos em um campo bastante limitado, que é a cavidade oral. Como se não bastasse isso, temos alguns “companheiros” de trabalho (língua, lábios, bochechas etc.) que dificultam extremamente o nosso acesso para a realização dos procedimentos. Depois, ainda temos todos os detalhes anatômicos dos dentes, gengivas e do osso alveolar, que tornam a nossa tarefa de tratá-los, procurando reproduzir artificialmente o que foi feito pelo criador, como uma missão quase impossível.

Quando eu analiso detalhadamente um dente e seus tecidos vizinhos, me vem na cabeça que Deus estava um pouco mais inspirado no momento da criação destes órgãos, tamanha sua beleza e complexidade. Quem mexe na boca acaba mexendo no corpo inteiro, pois os reflexos são imediatos, basta lembrar-nos da oclusão. Na mesma hora, também me salta aos olhos as dificuldades e responsabilidades que temos de enfrentar para tentar reparar aquilo que Deus fez com tamanha perfeição. Neste momento, em que entendo perfeitamente o que representa o meu trabalho, também me dói na alma a desvalorização que muitos clientes, e até mesmo colegas, fazem com a nossa atividade.

Uma das chacotas mais comuns que um dentista escuta há muitos anos é de ser declarado como um mero tapador de buracos. Esta aí uma definição que me tira do sério e faz lembrar-me de uma palestra que assisti há mais de 10 anos, do professor Vicente de Souza Pinto. Ele falava de implantes em regiões estéticas e definia esta tarefa como extremamente difícil de realizar. Considerava ele que repor um dente com envolvimento estético adequadamente, seria uma tarefa para poucos, muito mais difícil do que outras atividades da área médica.

Enquanto nós profissionais dentistas não nos dermos conta de que é difícil, mas muito difícil mesmo, a atividade odontológica, muito provavelmente teremos muitas dificuldades no nosso dia a dia de clínicos e estaremos enfrentando insucessos com uma frequência bem maior do que desejaríamos. Obviamente, que a dificuldade está diretamente relacionada com a responsabilidade de se executar os tratamentos como mandam os protocolos, para que o sucesso seja atingido. Como já falamos inúmeras vezes aqui neste espaço, sucesso é diferente de sobrevivência.

Se você está acostumado a realizar procedimentos, como uma reabilitação sobre implantes, por exemplo, que está na boca há mais de cinco anos, mas com a gengiva sempre inflamada, acúmulo de placa, dificuldade de higienização, que provoca halitose e uma estética pobre, mas que o paciente aceita e você ainda considera isso um sucesso, realmente, a Odontologia passa a ser uma profissão bastante fácil. Na verdade, casos como este aqui exemplificado, estão apenas sobrevivendo na boca e só não ocasionaram danos maiores, pelo alto limiar de tolerância e adaptação que alguns pacientes possuem.

Enfrentar as dificuldades que a nossa profissão oferece é obrigação de um cirurgião-dentista que se preze. Isto exige muito estudo, treinamento prático e investimento em materiais e equipamentos de última geração. Somente com esta tríade poderemos aprender a fazer melhor aquilo que por sua própria natureza já é bastante difícil: reproduzir o sistema estomatognático com sucesso e não sobrevivência. Assim como o criador modelou o homem, nós também, após muita preparação e inspiração divina, moldaremos também, com as nossas próprias mãos, os tratamentos que estamos realizando.

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e soprou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente.” Gênesis 2, 7.

 

 
   

Marco Bianchini

Professor Adjunto III do Departamento de Odontologia da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina (disciplinas de Periodontia e Implantodontia); Coordenador do curso de Especialização em Implantodontia da UFSC; Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



E-mail
Cadastre seu e-mail e receba nossas Newsletters