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Publicado em: 25/11/2016 10h34

Enxertos de tecidos moles ao redor de implantes

Marco Bianchini fala sobre a relação entre essa técnica e o tratamento das doenças peri-implantares.

O jornalista e escritor Paulo Francis já dizia a célebre frase: “Só os idiotas não mudam de opinião”. A Implantodontia é uma área da Odontologia que nos faz lembrar esta frase frequentemente. Muitas vezes, verdades universais caem por terra ou antigos conceitos abandonados no passado voltam a ser utilizados em nossa clínica diária. Um dos assuntos onde isso mais ocorre são os enxertos de tecidos moles ao redor de implantes.

A manutenção da estabilidade, da função do implante e da reabilitação protética depende, entre outros fatores, do bom funcionamento da barreira funcional estabelecida pela passagem do implante pelo tecido mole, formando um selamento biológico similar ao existente ao redor do dente natural, através do epitélio sulcular, do epitélio juncional e do tecido conjuntivo.

Nos implantes dentários, a orientação e a disposição das fibras colágenas dependem da topografia superficial das fixações. Essas fibras encontram-se, na maioria das vezes, com orientação paralela ao implante (com fibras circulares, oblíquas e verticais). Elas não possuem, na visão de muitos autores, tanta efetividade quanto à mesma faixa ao redor dos dentes naturais. Daí a polêmica da real importância dos tecidos moles peri-implantares.

Acredita-se que, assim como nos dentes, nos implantes o tecido mole de maior relevância seja a mucosa ceratinizada. A quantidade mínima deste tecido é aquela capaz de provocar a homeostasia marginal e proporcionar conforto ao paciente. Como tal quantidade torna-se um valor subjetivo, acaba-se criando um dilema sobre quando intervir para alcançar qualidade e quantidade adequadas desse tecido.

Segundo algumas correntes de pesquisadores, áreas sem mucosa ceratinizada apresentam maior fragilidade no combate aos agressores externos, além de parecerem apresentar menos resistência à dissipação de forças da mastigação, bem como diminuir o conforto do paciente durante o processo de higienização. Entretanto, assim como nas periodontites, as doenças peri-implantares também são multifatoriais. Isto explicaria a ausência de doença em sítios com pouca ou nenhuma mucosa ceratinizada. As Figuras 1 e 2 demonstram um caso com 12 anos de acompanhamento e uma boa faixa de mucosa ceratinizada peri-implantar.

 

Figura 1 – Implantes colocados no segmento 4. Observar a estabilidade óssea peri-implantar no momento da colocação dos implantes.

 

Figura 2 – Controle clínico e radiográfico após 12 anos. Observe a estabilidade dos tecidos ósseo e gengival. Observar também a boa faixa de mucosa ceratinizada ao redor dos implantes 35 e 36, obtida através da realização de um enxerto gengival livre no momento da confecção das próteses.


A literatura não apresenta relatos conclusivos de enxertos de tecido mole usados para a prevenção e o tratamento das doenças peri-implantares. Assim como nos dentes naturais, existe controvérsia a respeito deste assunto. Entretanto, o que leva um conjunto de autores a acreditar nos benefícios deste tecido ceratinizado são as características físicas e biológicas que ele possui, estimulando a proteção mecânica e a saúde peri-implantar.

Assim, o sucesso de uma reabilitação com implantes está sustentado na tríade função, manutenção e estética, de tal sorte que procedimentos que possibilitem o aumento da faixa de mucosa ceratinizada devem ser considerados, quando um desses sustentáculos do sucesso da reabilitação não for alcançado e impeça a manutenção e/ou promoção de saúde.

As técnicas mais conhecidas para se obter esta estabilidade são os enxertos de tecido conjuntivo e gengival livre. Não é pecado algum utilizá-los, mesmo que não tenhamos a certeza absoluta da sua real influência positiva no longo prazo. Afinal, estamos tratando seres humanos e não máquinas!
 

“Na multidão de palavras não falta pecado, mas o que modera os seus lábios é sábio.” Provérbios 10, 19.
 

 
   

Marco Bianchini

Professor adjunto IV do departamento de Odontologia (disciplinas de Periodontia e Implantodontia) e coordenador do curso de especialização em Implantodontia - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 



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