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Publicado em: 09/12/2016 14h30

Andar no limite é perigoso também na Odontologia

Após acidente com o time da Chapecoense, Marco Bianchini reflete sobre a necessidade de ser seguro e precavido, inclusive no trabalho.

Andar no limite significa acelerar até não poder mais. É andar no perigoso limiar da vitória ou da eliminação, da conquista ou da rendição, do sucesso ou da tragédia. Muitos analistas comentam até hoje que o acidente que matou Ayrton Senna, em 1994, ocorreu porque ele estava no limite, em uma posição que não permitia erros. Qualquer falha poderia ser fatal, como realmente foi. No dia 29 de novembro, o time de futebol da Chapecoense se viu vítima desse perigoso limiar, quando o combustível estava no limite e muitas vidas foram ceifadas por esse desejo incontrolável do ser humano: andar na corda bamba, no risco, apenas para depois se gabar e dizer “eu consegui”.

Na Implantodontia, muitos profissionais também andam no limite, e eu me incluo nesse grupo algumas vezes. Andar no limite na Odontologia, em qualquer que seja a área, significa assumir riscos que você não precisaria assumir. É como entrar no campo minado das incertezas que alguns casos nos mostram, e que nós insistimos em realizar. É atropelar planejamentos adequados e trocá-los por outros, apressados, que reduzem o tempo final do tratamento, mas aumentam a taxa de insucessos. Significa colocar implantes em pacientes que têm outras prioridades, mas que nós as invertemos com o objetivo de resolver os nossos problemas, e não os dos nossos clientes.

Outra forma de se andar no limite na nossa profissão é no relacionamento com os colegas. Naturalmente, um profissional liberal concorre com os seus pares. Disputamos pacientes entre nós mesmos todos os dias, isto faz parte de um mercado livre de trabalho. Contudo, a reação exacerbada de alguns profissionais transforma concorrentes em inimigos ferrenhos. Os exemplos são muitos: dentistas disputam clientes em uma mesma rua, em um mesmo prédio, em um mesmo andar ou até mesmo em uma mesma clínica. O que deveria ser encarado com naturalidade vira um campo minado.

O tratamento entre colegas de profissão deveria caminhar com naturalidade, pois o que não deu certo com você pode dar certo com o seu vizinho, e vice-versa. Assim, se encarássemos isso com mais profissionalismo, poderíamos nos relacionar melhor entre nossos pares, compartilhando sucessos e fracassos em encontros descontraídos, que só melhorariam os relacionamentos entre os profissionais, e entre dentistas e clientes.

Dentro deste contexto, foi exatamente o que aconteceu após o acidente com o avião da Chapecoense. A atitude do povo colombiano, bem como a do Atlético Nacional – time que enfrentaria a Chapecoense na final da Copa Sul-Americana de futebol – parece ter contaminado o mundo inteiro nas mais variadas áreas de atuação. Foi uma enorme demonstração de como se deve tratar um colega de profissão.

Aqui em Santa Catarina, os efeitos dessa tragédia parecem ter sido maiores. Chapecó é uma cidade distante da capital Florianópolis. É praticamente a mesma distância entre Floripa e São Paulo. Como em qualquer lugar, existe uma rivalidade natural entre as duas cidades, não só no futebol, mas também em outras áreas. Isto é perfeitamente normal, desde que não se ultrapasse os limites do aceitável.

O problema é que sempre ultrapassamos esses limites, e essa rivalidade torna-se feroz e irracional. Para mudar este sentimento, algo que está guardado em regiões muito profundas da nossa alma precisa ser despertado. O acidente, com as dimensões do ocorrido no último dia 29, causou este despertar. Parece que a rivalidade desapareceu.

Na verdade, o que ocorreu foi a percepção natural de que poderia ter sido qualquer outro time naquele avião. Assim, o sentimento de unidade prevaleceu e, mesmo que isto seja fruto de uma comoção de momento, o que se viu por aqui e em todas as partes do mundo foi algo raro. Foi a verdadeira constatação de que andar sempre no limite pode se tornar danoso.

Será que uma viagem mais rápida, um campeonato conquistado ou um protocolo em carga imediata valem tanto assim? Ser seguro, precavido e dar a devida importância e peso às diversas situações das nossas vidas podem nos livrar de situações desagradáveis, ou até mesmo de tragédias. E, ainda, nos garantem uma melhor relação com os nossos clientes e colegas. Isso torna o nosso trabalho uma atividade bem mais prazerosa. Valeu, Chape!
 

“Melhor é ir para a casa onde há luto do que para a casa onde há banquete. Porque na casa com luto se vê o fim de todo homem e quem está vivo refletirá sobre isso.” (Eclesiastes 7, 2)
 

 
   

Marco Bianchini

Professor adjunto IV do departamento de Odontologia (disciplinas de Periodontia e Implantodontia) e coordenador do curso de especialização em Implantodontia - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro "O passo a passo cirúrgico em Implantodontia".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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