INPN - O portal das revistas ImplatNews e PerioNews
 
Compartilhe  Compartilhe Twitter Imprimir Indique a um amigo
Publicado em: 24/03/2017 08h39

“Implantes fracos”: escândalos atingem o mercado da Odontologia

Marco Bianchini traça paralelo entre a investigação da Polícia Federal sobre carne adulterada e caso de pirataria de implantes dentários.

Na semana passada, o Brasil acordou com mais um escândalo de proporções gigantescas. Uma máfia de fiscais do Ministério da Agricultura, políticos e executivos de grandes frigoríficos liberava carnes adulteradas e estragadas para o consumo. As repercussões de mais esta descoberta da Polícia Federal correram mundo afora, pois o Brasil é um dos líderes mundiais na produção de carne. Até papelão foi encontrado nos produtos liberados. É como se descobríssemos que algum fabricante de implantes está colocando latão em vez de titânio em nossos preciosos parafusos. Mas, esperem aí: será que isso já não aconteceu?

Para refrescar a nossa memória, copio aqui um link do G1 (http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/12/anvisa-encontra-fabrica-clandestina-de-proteses-medicas-e-odontologicas.html) com uma notícia que impactou o mercado da Odontologia em 2016. Foi o relato de uma operação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que encontrou uma fábrica clandestina de equipamentos médicos e odontológicos em Valinhos (SP). A ação teve o apoio da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo), e da Guarda Municipal. Os dois proprietários do local – que são pai e filho – foram presos em flagrante e pelo menos 100 peças de fabricação irregular foram apreendidas.
 

Material encontrado na fábrica clandestina de próteses médicas e odontológicas em Valinhos (Foto: reprodução EPTV – G1)


Os dois escândalos são diferentes entre si, mas nos fazem refletir sobre o nosso comportamento como consumidores, que compram os produtos odontológicos das empresas, e como prestadores de serviço, que utilizam estes produtos na boca dos nossos clientes. Aquele que compra um produto sem o selo de certificação do órgão competente não está muito distante do falsário que fabrica estes produtos. Ora, se um dentista se presta a utilizar um produto fake pelo simples fato de pagar mais barato por ele, é sinal de que ele vive em um universo paralelo da ilegalidade e criminalidade. Além disso, esse dentista denigre a classe, arriscando a vida dos próprios pacientes, que são o bem maior da nossa profissão.

A saída parece bastante óbvia. Basta escolhermos empresas sérias, que possuem os seus produtos devidamente testados e aprovados pelos órgãos competentes, e ratificados por pesquisas sérias, que geralmente são publicadas em periódicos de renome internacional. Contudo, se os órgãos competentes são corruptos, em quem iremos confiar? No caso das carnes, os frigoríficos envolvidos são empresas de capital aberto, multinacionais, que vendem no mundo inteiro. Talvez isto já bastasse para acreditarmos nos produtos que estas empresas vendiam. Mas, a realidade se mostrou diferente e o peso de uma marca mundial não nos salvou da desgraça de comer carne com papelão.

Voltando para a nossa Odontologia, mais especificamente à Implantodontia, como faremos para nos proteger dos fabricantes fake? O caminho parece um só: precisamos acreditar na Anvisa e nos demais órgãos e entidades fiscalizadoras que, embora sejam ainda lentos em muitos aspectos, parecem cumprir relativamente bem o seu papel. É necessário apostar que nesses órgãos não existe a mesma corrupção que aflorou no Ministério da Agricultura. E, se existe tal corrupção, a Polícia Federal vai acabar pegando os criminosos. Em qualquer país mais sério, somente acreditar nos órgãos competentes já seria o suficiente. Porém, aqui no Brasil, por tudo o que estamos vivenciando nos últimos anos, só isso não nos basta. Devemos ter outros caminhos, que nos assegurem a compra de produtos realmente eficientes e que não sejam lesivos aos nossos pacientes. Mas, quais seriam estes caminhos?

Como falei antes, uma das melhores maneiras de se certificar da validade de um implante é observar o tempo que ele tem sido usado, quais pesquisas sobre ele já foram publicadas em revistas científicas de alto impacto e quais os testes a que foram submetidos para comprovar a sua eficácia. Não podemos mais acreditar somente naquilo que o marketing nos oferece, precisamos ser mais criteriosos em nossas escolhas. Sobretudo, precisamos ser mais inteligentes e não definir nossa compra somente pelo preço. É preciso querer mais da profissão. É preciso investir com segurança. Se nossas escolhas são feitas somente pelo preço, como iremos criticar aqueles pacientes que escolhem o dentista apenas porque ele cobra mais barato?

 

“Desviei os meus pés de todo caminho mau, para guardar a tua palavra. Não me apartei dos teus juízos, pois tu me ensinaste. Oh! quão doces são as tuas palavras ao meu paladar, mais doces do que o mel à minha boca. Pelos teus mandamentos alcancei entendimento, por isso odeio todo falso caminho.” (Salmos 119:101-104)

 

 
   

Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 



E-mail
Cadastre seu e-mail e receba nossas Newsletters