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Publicado em: 31/03/2017 08h50

Doenças periodontais: tratar ou partir para um implante?

Marco Bianchini aponta que complexidade e frequência de recidivas das doenças periodontais são determinantes para a decisão do profissional.

Um dos maiores dilemas dos periodontistas nas últimas décadas é a dúvida entre tratar uma periodontite severa ou partir diretamente para um implante osseointegrado. Confesso a vocês que volta e meia me deparo com esta questão no meu dia a dia de periodontista e implantodontista. Infelizmente, em muitas situações não sei mesmo qual caminho devo seguir, e o que é pior: quando avalio casos antigos, percebo que em algumas situações eu tomei a decisão errada. Veja o caso abaixo que exemplifica uma dessas situações.


 

 

Figuras 1 e 2 – Imagem clínica e de radiografia panorâmica de caso complexo com envolvimento periodontal. Observar as perdas ósseas periodontais, recessões teciduais e má posição dental. Situações como essa exigem uma abordagem multidisciplinar, e não apenas a substituição de dentes por implantes.

 

A complexidade da doença periodontal torna seu tratamento um processo longo. Todo bom tratamento periodontal deve ser iniciado por uma etapa não cirúrgica. Em boa parte das situações, isso irá sanar o processo contaminante bacteriano. Contudo, existem condições clínicas que, mesmo com a excelência do tratamento não cirúrgico, permanecem ativas por meio de infecções recorrentes ou sequelas deixadas pela destruição periodontal. Nessas situações, devemos lançar mão de técnicas cirúrgicas para eliminar esse foco de infecção e devolver condições condizentes com características de saúde periodontal.

Uma vez concluída a fase de procedimentos não cirúrgicos no tratamento da doença periodontal, deve-se realizar um novo exame dos parâmetros periodontais. Em muitas áreas haverá a redução na profundidade de sondagem com a resolução do processo inflamatório e, naquelas em que o nível de perda de inserção não melhorou, um planejamento cirúrgico deve ser considerado, com a possibilidade de execução de cirurgias a retalho para acesso às áreas comprometidas pela doença.

A indicação básica das cirurgias a retalho no tratamento da doença periodontal são as áreas de bolsas profundas maiores do que 5 mm, que continuam inflamadas e sem um adequado controle do biofilme microbiano, mesmo após adequados procedimentos não cirúrgicos. As cirurgias a retalho em Periodontia possibilitam a abertura de um campo que nos dará um bom acesso à raiz e ao osso alveolar, atingidos pela doença periodontal. Com este acesso direto, poderemos fazer todos os nossos procedimentos de descontaminação mecânica da raiz (raspagem com curetas e ultrassom), descontaminação química (aplicação de ácidos) e procedimentos regenerativos (enxertos ósseos e de tecidos moles), se estes forem realmente necessários.

O problema é que o tratamento periodontal – tanto o não cirúrgico quanto o cirúrgico – tem uma frequência relativamente alta de recidivas, principalmente se não executarmos uma terapia de suporte adequada (manutenção dos casos com controle forte de biofilme). Mesmo com estes controles, as recidivas podem ainda aparecer, embora com menor frequência. Quando estas começam a ser muito frequentes e o profissional não consegue debelar o problema com eficiência, aquele pensamento inevitável surge em nossas mentes: “eu deveria ter colocado um implante”.

Não existe receita de bolo em Odontologia. Seja na Periodontia, Implantodontia, Prótese ou em qualquer outra especialidade, jamais conseguiremos ter certeza absoluta se um tratamento será melhor do que o outro. As evidências científicas sempre irão nos ajudar a optar por terapias mais consagradas. Contudo, as características individuais de cada paciente podem alterar os resultados. Desta forma, acredito que devemos queimar todos os cartuchos periodontais antes de partirmos para um implante (exatamente o que está sendo feito no caso das Figuras 1 e 2), pois nada nos garante que depois não seremos também perseguidos por uma peri-implantite.


Colaborou: Armando Lopes Pereira


“A glória de Deus está nas coisas encobertas, mas a honra dos reis está em descobri-la. Os céus pela altura, e a terra pela profundidade, assim o coração dos reis é insondável. Tira da prata as escórias e sairá vaso para o fundidor. Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça”
(
Provérbios 25, 2-5)

 

 
   

Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 



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