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Publicado em: 07/04/2017 09h53

Tratamentos odontológicos na terceira idade

Em homenagem à sua mãe, Marco Bianchini detalha como o atendimento aos idosos pode trazer novos ensinamentos aos dentistas.

Na semana passada, no dia 28 de março, perdi a minha mãe querida após 89 anos de vida. Dona Ruth morreu de causas naturais, na sua casa e no seu quarto, cercada por todos os seus filhos e entes queridos. Foi uma morte linda e silenciosa, uma verdadeira passagem para a eternidade, que nos entristeceu pela perda, mas ao mesmo tempo nos trouxe a alegria e o agradecimento a Deus por poder conviver com ela durante tantos anos. Os aprendizados foram muitos, inclusive na Odontologia, como vou relatar para vocês hoje aqui na coluna.

Desde que eu me formei em Odontologia, em 1991, a minha mãe foi minha paciente. No início, eu fazia todos os procedimentos que ela precisava. Fiz extrações, restaurações, coroas e raspagens. Contudo, na medida em que fui me especializando e me voltando mais para a Periodontia e Implantodontia, me dediquei mais à manutenção periodontal dela. Quando havia a necessidade de alguma restauração ou outro procedimento, alguém da minha equipe a atendia, mas sempre com o meu olho em cima. O mais curioso disso tudo é que, durante estes 26 anos de atendimento, ela nunca precisou de um único implante.

 

Figura 1 - Dona Ruth, a alegria em pessoa, com meu filho Arthur. Observar a presença dos dentes na boca de Dona Ruth.

 

Um episódio engraçado aconteceu quando fiz quatro facetas de resina nos anteriores superiores dela. Levei cerca de três horas e ainda não tinha ficado bom (estética nunca foi o meu forte), dei um polimento e marcamos para melhorar – ou talvez refazer – em outro dia. Fomos para casa (eu ainda morava com ela), e os meus irmãos nos convidaram pra comermos uma pizza. Chegando lá, ela mesma brincava mostrando para eles “como tinham ficado bons os dentes que o Marco fez”. Sofri um bullying nesse dia, mas tenho saudades.

E assim os anos foram passando, e eu tendo a oportunidade de acompanhar a dentição da minha mãe. Isto me ensinou muito sobre Odontologia. Eu pude observar atentamente o envelhecimento dos dentes e de todo o sistema estomatognático, além dos procedimentos restauradores que eu mesmo realizei. Foi observando a dentição da Dona Ruth que eu entendi que os implantes dentários são apenas uma modalidade a mais de tratamento das perdas dentárias. Existem outras que também podem dar certo, e ainda mais: observar as respostas dos pacientes antes de tomarmos qualquer decisão ajuda a evitar fracassos.

Minha mãe teve a maioria dos dentes na boca durante quase todos os anos de vida dela. Somente há uns três anos, quando ela começou a apresentar dificuldades de deglutição e coordenação para higiene oral, é que realizamos algumas extrações dos molares e de um incisivo inferior que estava totalmente “lingualizado” e provocando traumas. Isto foi feito visando facilitar a autolimpeza e para evitar uma cronicidade deletéria de uma possível periodontite. Confesso que fiquei um pouco cego quanto à tomada desta decisão. Não fosse pelo meu colega, Dr. Jonathas Claus, que me alertou sobre a importância destas extrações preventivas, eu teria mantido os dentes que só estavam causando danos.

Uma semana após as extrações, eu já pude observar a melhora natural do aspecto periodontal geral e do conforto da paciente, sem falar na facilidade maior com que as cuidadoras promoviam a higiene oral. Com todos os dentes até a região dos segundos pré-molares, Dona Ruth virou o conceito vivo da arcada dental reduzida. Com uma boca de dimensões bem pequenas, dieta mais pastosa e um sorriso discreto, ela não teve nenhum prejuízo estético e funcional. Abaixo, uma foto da última manutenção periodontal que fizemos nela, em outubro de 2016.
 

Figura 2 – Eu e minha auxiliar Néia atendendo a Dona Ruth. Observar que realizamos o atendimento na própria cadeira de rodas, dando maior conforto a ela, embora isso dificultasse a nossa posição de trabalho.

 

Minha mãe foi a maior professora que eu tive nessa vida. Tenho certeza de que herdei dela o dom para ser também professor. Ela gostava de falar em público, recitava poesias e não deixava ninguém sem uma boa resposta. Foi professora Normalista em escolas públicas, tinha uma letra maravilhosa e uma didática impressionante. Ela me ensinou a ser um homem de verdade, a confiar em Jesus, a ter respeito, valores, persistência, não levar desaforo para casa, ser sincero, não mentir, assumir o que se faz, entre tantas coisas. Demorei muito pra assimilar tudo isso e confesso que muitas coisas eu ainda não faço como deveria e como aprendi com ela.

Com todos estes ensinamentos, eu jamais esperava que ela também me ensinasse Odontologia, já que ela não era dentista. Entretanto, foi exatamente com ela que eu muito aprendi sobre a nossa profissão, principalmente no tratamento de idosos. As respostas bucais da Dona Ruth me mostraram a incrível capacidade que um organismo saudável tem de se adaptar às mais diversas situações e que, muitas vezes, não precisamos tratar radicalmente, mas apenas criar um ambiente favorável. Assim, o organismo produz a regeneração, o reparo e a adaptação.

 

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (João 5:24,25)

 

 

 
   

Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 



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