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Publicado em: 05/05/2017 13h07

Bodegas odontológicas

Posições políticas à parte, Marco Bianchini ressalta que não se deve ofender uma classe profissional inteira.

Na semana passada, tivemos que enfrentar uma greve geral organizada pelos sindicatos que, contrários às reformas que andam movimentando o Congresso Nacional (especialmente a perda da contribuição sindical obrigatória), tentaram paralisar o País. Não vou aqui entrar na celeuma política, pois todos têm o direito de se manifestar, desde que civilizadamente, defendendo suas posições e ideias.  Contudo, quando estas manifestações entram num caráter pessoal, ferindo uma classe, temos que repudia-las com veemência.

O que ocorreu foi que, assim como aconteceu em todo o Brasil, muitos colégios jesuítas aderiram à greve por recomendação da CNBB. Isso gerou uma forte polêmica nas redes sociais. Eu, minha esposa e um grupo grande de pais - que tem seus filhos estudando nestas instituições - fizemos muitas manifestações contrárias a esta adesão. Alguns pais, ao contrário de nós, também se manifestaram a favor. O debate foi intenso, porém civilizado. Até que uma pessoa postou um comentário extremamente preconceituoso na página da minha esposa, que gerou uma grande indignação. Vejam na figura abaixo a reprodução do post na íntegra:

Figura 1: post de rede social com críticas pessoais

 

Vamos deixar de lado a falta de educação e despreparo para o debate, para focarmos no aspecto odontológico da situação proposta. Confesso a vocês que já tinha visto dentista e consultórios odontológicos serem chamados de tudo, mas bodega foi a primeira vez. Também foi a primeira vez que vejo alguém ser chamado de superior por ter uma clínica com muitos pacientes. Contudo, isto realmente não me surpreende totalmente, pois o preconceito vivido por quem alcança o sucesso neste País está arraigado em cabeças que foram doutrinadas pelo assistencialismo. Assim, segundo essas cabeças que ainda não acordaram para a realidade, os êxitos profissionais e pessoais vêm sempre cercados de algum benefício que você obteve ilegalmente. Para eles, é impossível alguém subir na vida somente com muito trabalho, suor e dedicação.

Outro aspecto que chama a atenção neste post é o relato de que muitos dentistas já fecharam seus consultórios ou clínicas, e isto vai ocorrer com todos nós depois que as reformas que estão sendo implementadas nos atingirem. Na verdade, o que está ocorrendo é justamente o contrário disso. A crise econômica está fechando empresas porque somente alguns têm privilégios. Somente uma casta muito alta do funcionalismo público mantém aposentadorias especiais e regalias que os outros mortais não têm. As regras trabalhistas arcaicas desempregam as pessoas, pois não vale a pena contratar e assumir tantos riscos. O brasileiro prefere se encostar em um emprego público do que arriscar empreender. Se todos nós pensarmos assim, quem vai pagar impostos para a máquina continuar andando?

Esta relação nefasta entre capital e trabalho vem matando o País aos poucos, pois quem sustenta toda a máquina estatal é o prestador de serviço da iniciativa privada. É ele quem emprega, paga impostos astronômicos e vê o seu dinheiro escorrer nas grandes cascatas da corrupção e de privilégios inaceitáveis do setor público. Desta forma, alguns consultórios estão vazios, não pelas reformas, que ainda nem foram implementadas - e ainda vai demorar muito para sentirmos os seus efeitos -, mas sim pela pouco inteligente ação de cobrar de quem gera emprego e renda. No caso nós, dentistas, que fazemos parte desse grupo.

O mais lamentável desse episódio é que este tipo de pensamento congelou o cérebro de muitas pessoas. Elas simplesmente se recusam a enfrentar os fatos e descambam para o campo de uma luta dos pobres contra os ricos. Convenhamos, esta é uma visão muito simplista da economia. Contextualizar pessoas pelo seu sucesso profissional e taxá-las de superiores por terem alguma independência financeira é, no mínimo, patológico e requer tratamento especializado. O pensamento expresso neste post não é de um vilão, mas sim de uma vítima de uma doutrina ideológica que engessa a capacidade profissional e intelectual das pessoas. Não é a toa que o post foi apagado logo depois e o perfil de origem parecia “fake”, o que acontece muito nas redes sociais para intimidar as pessoas.

Eu, minha esposa e toda a equipe que conosco trabalha tem muito orgulho de ser dentista e atender pacientes. Não temos vergonha nenhuma de cobrar bem pelos nossos tratamentos e, graças ao bom Deus, que vem nos abençoando muito, estamos conseguindo - com dificuldades, é claro - manter nossa “bodega” aberta. Isto não é nada simples. Exige um investimento constante, assumir riscos, se endividar e trabalhar muito, mas muito mesmo! Somos em 5 dentistas e mais 6 funcionárias, somando 11 empregos e dando sustento direto às nossas 10 famílias e indireto à mais algumas. Apesar de muitas vezes a vontade de desistir aparecer em nosso dia a dia, nós continuamos acreditando. Parar de investir e fechar as portas, significa ceder a esta linha de pensamento expressa neste post da figura 1.

Assim como eu, conheço muitos colegas que vivem um dia a dia muito semelhante. Todos eles perdem o sono quando a agenda fica vazia e as contas vão chegando. Contudo, movidos por uma determinação muito forte, eles continuam investindo em materiais, equipamentos, novas instalações, cursos de formação e, sobretudo, em pessoas. A maioria veio de origem muito simples e conseguiu estudar graças ao esforço dos pais. Eles não vão fechar suas “bodegas”, mesmo que alguns roguem essa praga. E nem irão ficar sem pacientes, porque acreditam no trabalho, e não em privilégios. Acreditam nas pessoas, e não em benefícios.
 

"Não perverterás o direito do pobre em sua causa.  Afasta-te de toda palavra mentirosa. Não matarás o inocente e o justo, porque não absolverei o culpado."
Exodo 23, 6-7.

 

 
   

Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 



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