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Publicado em: 19/05/2017 09h23

Próteses periodontais versus próteses sobre implantes

Marco Bianchini cita trabalho e questiona: por que alguns profissionais não seguem princípios tão simples?

Um dos assuntos que mais me fascina dentro da Odontologia são as próteses periodontais. Quando me lembro da sequência de artigos publicados pelo Dr. Morson Amsterdam, que culminaram com um acompanhamento de 50 anos deste tipo de reabilitação, fico me questionando por que alguns colegas insistem em não seguir estes princípios tão simples e que podem ser extrapolados para as nossas reabilitações com implantes? Pesquisando no Google, encontrei uma monografia muito interessante da qual resolvi colocar aqui alguns trechos. Vejamos os dois parágrafos abaixo, que transcrevem conclusões dos artigos de Amsterdam publicados a partir de 1974:

“A prótese periodontal foi originalmente concebida como um meio de correlacionar as várias especialidades da clínica odontológica, enfatizando que a Periodontia é a ciência clínica básica de toda a Odontologia. Nenhuma etapa do tratamento odontológico pode ser praticada com sucesso sem que o profissional tenha um completo entendimento do problema periodontal. Isso é muito importante para o ortodontista, o protesista, o cirurgião oral e o clínico geral. Assim, a adoção dessa postura na prática diária pode se tornar uma filosofia básica de concepção para a prótese periodontal, não como uma nova especialidade, mas como um comportamento clínico intelectual.

A prótese periodontal pode ser definida como uma restauração absolutamente essencial para o tratamento da doença periodontal avançada. Considerando que essa se refira especificamente ao tratamento da dentição mutilada pelas devastações da doença periodontal, em geral, seus conceitos, princípios e técnicas podem ser empregadas em qualquer trabalho de reparação ou substituição do dente envolvendo a dentição natural.”


Embora o planejamento e a sequência da terapia com implantes dentários sejam completamente diferentes da reabilitação com dentes naturais, o uso de implantes em pacientes periodontais não altera os objetivos e diretrizes para o estabelecimento do esquema oclusal. Muito pelo contrário: os atuais objetivos no tratamento reabilitador com implantes dentários são exatamente os mesmos para aqueles com prótese fixa convencional.

Em 2000, Amsterdam e Weisgold relataram em seu estudo que, nos últimos 50 anos, os princípios básicos da Prótese periodontal parecem ter resistido ao teste do tempo. Novas técnicas estão disponíveis, muito mais sofisticadas do que antes. Mas, os conceitos de um diagnóstico correto, identificando os fatores etiológicos, a formulação de um plano de tratamento e o desenvolvimento de uma sequência lógica de terapia, são tão verdadeiros hoje como quando foram elaborados, há cinco décadas. Desta forma, os princípios de esplintagem dos dentes abalados periodontalmente – e que serviram de pilares nos trabalhos de Amsterdam – norteiam os princípios das nossas reabilitações com implantes. Abaixo, demonstramos uma das figuras transcritas dos manuscritos originais de Amsterdam, que explica os princípios das ferulizações ou esplintagens.

Figuras 1 – Terapêutica com splinting mostrando contenção bilateral com resistência à força em todas as direções. A. Forças aplicadas no sentido vestibulolingual. B. Transmissão das forças ao longo do segmento anterior da arcada. C. Ponto de resistência das forças aplicadas no lado oposto da arcada.

 

Os achados de Amsterdam tinham a sua sustentação em um passado ainda mais distante, que era o polígono de Roy, de 1930. Roy afirmava que, após o tratamento periodontal, os dentes remanescentes devem ser imobilizados, incluindo sua fixação em um número suficiente de dentes. Em todos os movimentos da mandíbula, a carga oclusal deve cair em pelo menos um molar e um pré-molar de cada lado, na medida do possível. Cada arco deve ser considerado, neste contexto, como tendo cinco planos de movimento: incisal, canino (direito e esquerdo), pré-molares e molares (direito e esquerdo). Dessa forma, o resultado é garantido através da inclusão de um arco dentário completo, no qual todos os cinco grupos podem neutralizar um ao outro para formar um conjunto totalmente firme. Vamos observar as Figuras 2 e 3, que ilustram a teoria de Roy.

 

Figura 2 – Desenho esquemático de Roy mostrando os planos de direção da força: incisal, canino, pré-molares e molares.

 

Figura 3 – Desenho mostrando o polígono de Roy e contenção bilateral abrangendo todos os segmentos da arcada.


Em próteses extensas, o número de dentes presentes, a posição que ocupam no arco e sua implantação óssea são fundamentais para se estabelecer um planejamento adequado. Portanto, a longevidade de uma prótese parcial fixa depende mais da qualidade periodontal dos dentes suportes do que, propriamente, de sua quantidade. Estas conclusões são exatamente as mesmas que temos na Implantodontia, onde necessitamos de boas fixações (implantes), que se mantenham saudáveis ao longo do tempo (sem peri-implantite) e sejam colocadas em posições estratégicas para suportar uma prótese protocolo.

Quando voltamos ao passado, acabamos sempre descobrindo algo novo. Na verdade, assim como na vida, a história acaba se repetindo, justamente porque insistimos em abandonar conceitos clássicos e tidos como ultrapassados. Esta soberba com o antigo nos faz recorrer em erros simples, que poderiam ser evitados se observássemos conclusões bastante simples, que pesquisadores muito antigos já tinham encontrado. Uma reabilitação oral vai sempre depender muito da Periodontia e da oclusão, não importando muito se os seus pilares forem implantes ou dentes naturais.

 

“O que foi é o que há de ser, e o que se fez se fará, de modo que nada há de novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.” (Eclesiastes 1, 9-10)

 

Referências

1. de Andrade PT. Planejamento sobre prótese periodontal [monografia]. Belo Horizonte: Faculdade de Odontologia da UFMG, 2011.

2. Amsterdam M, Abrams L. Periodontal prosthesis. In: Goldman H, Cohen DW. Periodontal therapy. 3ª ed. St. Louis: Mosby, 1969. p.762-813.

3. Amsterdam M. Periodontal prosthesis – 25 years in retrospect. Alpha Omegan 1974;67:9-52.

4. Amsterdam M, Weisgold AS. Periodontal prosthesis – 50 years perspective. Alpha Omegan 2000;93:23-30.

 

 
   

Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 

 



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