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Publicado em: 30/06/2017 15h07

Guna: ainda existe ou é coisa do passado?

Apesar de ser rara nos consultórios atualmente, Marco Bianchini alerta para os perigos da gengivite ulcerativa necrotizante aguda.

A Guna (gengivite ulcerativa necrotizante aguda) é uma doença de rápida evolução que provoca a necrose dos tecidos periodontais de proteção do dente, especialmente a papila, ocasionando muita dor ao paciente. Se ficar sem tratamento, a sua forma crônica pode progredir e atingir os tecidos periodontais de sustentação, podendo inclusive levar à perda do dente. Neste estágio, poderíamos classificá-la como Puna (periodontite ulcerativa necrotizante).

Apesar de ter uma ocorrência bastante baixa nos dias de hoje, esta foi uma condição com importante repercussão durante a Segunda Guerra Mundial. Soldados na linha de frente, submetidos a intenso estresse, apresentavam alta prevalência de Guna. Devido a essa situação peculiar, a doença foi conhecida como “boca de trincheira”. Além da situação estressante, é bastante provável que a alta ocorrência de Guna nessa população militar também esteja associada à má nutrição e higiene oral deficiente.

Atualmente, grande parte da literatura tem reportado a Guna em pacientes com HIV e crianças desnutridas em países em desenvolvimento. São situações associadas com dificuldades de resposta do sistema imune. Já nos países mais desenvolvidos, a Guna é limitada a adolescentes. Por fim, nos países menos desenvolvidos ela afeta principalmente pessoas jovens. Existe um consenso na idade de susceptibilidade entre 15 e 30 anos. Contudo, como já falamos anteriormente, este tipo de manifestação vem desaparecendo nos últimos anos, muito provavelmente pelo conhecimento que se tem das maneiras de preveni-la.

A negligência da higiene, má-nutrição, cálculo, fumo e respiração oral são identificados como as predisposições para a Guna. Como fatores sistêmicos, incluem-se resfriados, possível deficiência de vitaminas e gravidez. O estresse também é apontado como um possível fator desencadeante da Guna, citando-se como exemplo o aumento da ocorrência associada a períodos de avaliações por parte de alunos. Já no que diz respeito aos sinais clínicos desta doença, a intensidade dos mesmos parece estar diminuindo nos dias atuais, embora os aspectos clássicos ainda persistam.

As lesões normalmente são cobertas com uma pseudomembrana cinza, que é removível facilmente, resultando em exposição do tecido conjuntivo. Sangramento e dor são frequentes. A ulceração é geralmente localizada, mas ocasionalmente pode envolver várias áreas, especialmente de papilas. O começo é repentino, e os pacientes notam um gosto metálico e mau hálito. Outros sintomas podem incluir linfodenopatia e mal-estar. Geralmente, é a dor e o sangramento que fazem o paciente procurar o cuidado profissional. As Figuras 1 a 3 mostram manifestações clínicas da Guna.
 

Figuras 1 e 2 – Sinais clínicos clássicos de uma Guna diagnosticada na disciplina de Periodontia II da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em 1996. Observar a inversão papilar com ulcerações gengivais e exposição de tecido conjuntivo, além da cobertura por uma massa acinzentada e esbranquiçada, denominada “pseudomembrana”.

 

Figura 3 – Guna diagnosticada em 2006, também na disciplina de Periodontia II da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Observar que os sintomas são bem menos intensos, mas a presença de pesudomembrana e a modificação papilar, assim como os demais sintomas relatados pelo paciente, levaram ao diagnóstico de Guna. Este paciente era um estudante de medicina em época de provas finais, estando sob alto grau de estresse emocional, exatamente como descreve a literatura da Guna.


O tratamento consiste no debridamento da área afetada, através de uma raspagem delicada, preferencialmente feita com instrumentos sônicos ou ultrassônicos. A membrana acinzentada pode ser removida com um algodão embebido com antisséptico. Podem ser úteis o aconselhamento de uma dieta que não traumatize os tecidos moles, a melhoria em hábitos de saúde e a redução do estresse. Antibióticos são muito efetivos no tratamento quando há comprometimento sistêmico, sendo o metronidazol (400 mg, de 8/8 horas, durante sete dias) a opção de primeira escolha, devido à microbiota presente. A Figura 4 demonstra o resultado do tratamento da fase aguda da Guna, descrita na Figura 2. A Figura 5 demonstra o resultado do tratamento da fase aguda da Guna, descrita na Figura 3.

Figura 4 – Controle clínico de 14 dias após o tratamento. Observar a importante regressão dos sinais e sintomas da Guna, com os tecidos moles periodontais voltando a ter aspecto de normalidade. Nesse momento, deve-se avaliar as sequelas e a necessidade de um tratamento mais invasivo para correção delas.

 

Figura 5 – Controle clínico de sete dias após o tratamento. Observar a tendência de volta à normalidade das papilas interdentais, bem como o desaparecimento da pseudomembrana.


Após o tratamento da fase aguda, deve-se levar em consideração a eliminação de fatores predisponentes, como: tratamento das condições sistêmicas, cessação do hábito de fumar, controle do estresse e reeducação alimentar. O paciente deve ser acompanhado para evitar a recorrência da doença. O não tratamento da Guna pode fazê-la evoluir para planos mais profundos, originando a Puna (periodontite ulcerativa necrosante aguda), com graves consequências aos dentes envolvidos e de difícil reversão. Nestas situações de Puna, o tratamento engloba cirurgias regenerativas ou até mesmo a extração dos dentes envolvidos, para a futura colocação de implantes.

O conhecimento científico da epidemiologia e o tratamento da doença contribuem intensamente para a diminuição da recorrência da mesma. Estas são as razões óbvias para a diminuição do aparecimento da Guna em nossos consultórios. Entretanto, em um mundo dominado pelo estresse emocional e doenças psicológicas, não será surpresa se esta incidência voltar a crescer, porém, com manifestações clínicas um pouco diferentes. Talvez os sinais e sintomas não venham a ser tão intensos, como descrevemos no caso clínico das Figuras 3 e 5, mas caberá a nós fazermos o correto diagnóstico e aplicar o tratamento ideal para as Gunas mais “modernas” que possam surgir.

 

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2)

 

Referência

Stefanello BP. Processos agudos do periodonto: um olhar sobre a literatura [trabalho de conclusão do curso]. Porto Alegre: Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016.

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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