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Publicado em: 04/08/2017 15h59

O que você não faria novamente em Implantodontia?

Marco Bianchini responde a pergunta e dá dicas para evitar arrependimentos.

Em 2014 eu dei uma entrevista para a revista ImplantNewsPerio, onde uma das perguntas foi “O que você não faria ou teria acrescentado ao longo da sua experiência?”. Gostei muito dessa pergunta, até porque é uma questão que geralmente fazemos em nossas vidas pessoais e gera muitas reflexões, culpas e arrependimentos. Na verdade, assim como em qualquer área de nossas vidas, o nosso trabalho também nos apresenta situações e técnicas que não gostaríamos de repetir ou que abandonamos. Contudo, é preciso separar o joio do trigo e identificar o que realmente não funciona e o que está dentro da nossa gama de erros e incapacidades. Ou seja, abandonamos porque não conseguimos reproduzir aquilo que os outros conseguem.

Um dos temas mais interessantes que dizem respeito ao que eu não faria novamente está direcionado com o planejamento em Implantodontia. É um assunto que repetidas vezes falo aqui na coluna, e confessou que sou até chato com isso. Mas, vai congresso e vem congresso, e as pessoas parecem não querer entender. É impressionante a teimosia! Na verdade, tudo gira em função dos planejamentos que realizamos. Se você planeja bem, seguindo as regras da boa conduta em Implantodontia, você vai poder sempre inovar com as técnicas que surgem, agregando conhecimento – desde que este novo conhecimento não interfira na parte básica e elementar, como o enceramento diagnóstico, modelos de estudo e montagem em articulador. Com isso, e associado com os exames de imagens, você consegue decidir quantos implantes irá colocar e quais dentes deverão permanecer ou serem extraídos.

Quando você atropela este planejamento tradicional para utilizar uma nova técnica ou lançamento de empresa, você pode “dar com os burros n’água” e se deparar com um insucesso. Daí vem aquela vontade de culpar a nova técnica, quando na verdade foi você que forçou a barra. Logo vem o arrependimento, e esta nova técnica – que até parecia ser boa – é abandonada em função do insucesso que obtivemos. Isto me faz lembrar a época do surgimento dos implantes osseointegrados, que sofreram uma resistência tremenda por parte dos periodontistas. Muitos demoraram muito a aceitar e o trem passou. Hoje, a vara se inverteu. Muitos implantodontistas se negam a entender e estudar a Periodontia, renegando tratamentos conservadores e regenerativos que mantêm dentes e evitam implantes.

Quem está lendo esta coluna na esperança de encontrar aqui uma lista de procedimentos que eu abandonei e que me arrependo de fazer, infelizmente não vai se satisfazer. Técnicas vêm e vão, são abandonadas e retomadas sem muita explicação. Podemos listar aqui alguns, como o plasma rico em plaquetas, a distração osteogênica, os zigomáticos, os implantes curtos e a carga imediata. O que vale mesmo são as ciências básicas que regem qualquer especialidade e que vão nos forçar a executar um planejamento correto que irá dar um norte às inovações. E isso não é retórica, mas a mais pura verdade.

A literatura tem apresentado diversos guias para dar prognósticos em dentes comprometidos, para termos a certeza se devemos mantê-los ou extraí-los para colocarmos implantes. O mesmo vem acontecendo com o prognóstico sobre os implantes, onde taxas de sucesso e sobrevivência são frequentemente publicadas. O problema é que as pessoas são diferentes, com metabolismos diferentes e reagem de maneira diferente a alguns tipos de tratamentos. Assim, não se consegue criar uma receita de bolo para preservar ou condenar um dente ou para indicar esse ou aquele tratamento com implantes. Temos que analisar as situações individualmente e decidir caso a caso, usando o bom senso. Implante não é dente natural e não é melhor do que um dente natural sadio. Compreendido isso, o restante ficará mais simples.

Em termos técnicos, se eu fosse enumerar o que eu não faria mais em Implantodontia – e que me arrependo de ter feito – daria pra escrever bastante. Generalizando, hoje procuro ouvir mais os pacientes e entender bem o que eles realmente desejam. Só após isso é que defino meu plano de tratamento, deixando de lado imediatismos baratos e técnicas pouco estudadas. Meu saudoso pai costumava usar uma frase de efeito que eu gostava, mas que hoje não gosto mais: “não me arrependo de nada do que eu fiz, e sim do que eu não fiz”. Nós, dentistas, pelo contrário, temos que focar nos planejamentos corretos, gastar tempo com isso, definindo o que vamos fazer. Assim, iremos evitar arrependimentos, seja do que fizemos ou do que deixamos de fazer.

 

“E os escribas e fariseus, vendo-o comer com os cobradores de impostoss e pecadores, disseram aos seus discípulos: por que come e bebe ele com os cobradores de impostos e pecadores? E Jesus, tendo ouvido isto, disse-lhes: os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores ao arrependimento.” (Marcos 2, 16-17)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implandotontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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