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Publicado em: 01/09/2017 10h44

Dentista pode se tornar uma celebridade?

Marco Bianchini debate o limite para a valorização profissional na Odontologia.

Na última sexta-feira, finalizadas minhas atividades no IN 2017, resolvi relaxar com a minha família aproveitando a cidade de São Paulo sem compromissos agendados. Mudei para um hotel nos Jardins e desfrutei de um descanso merecido, após quatro palestras e a coordenação da sala do Plantão de Dúvidas. Graças a Deus, o congresso foi sensacional, principalmente porque foram sedimentadas técnicas tradicionais e comprovadas pela literatura, em detrimento de novidades mercadológicas que apenas complicam o dia a dia do clínico.

Já no hotel, fazendo um happy hour com meu filho Luiz Felipe, nos deparamos com a figura do juiz Sérgio Moro. Levei até um susto pelo encontro inusitado, mas me recompus e fui cumprimentá-lo, afinal, admiro muito o seu trabalho. Pedi até uma foto. Mas ele, com muita cordialidade, alegou que estava a lazer e que preferia não fazer a selfie, o que eu prontamente respeitei. Contudo, este pequeno encontro com o juiz mais famoso do Brasil me fez refletir sobre as pessoas comuns, que apenas fazem o seu trabalho corretamente, como todos deveriam fazer, e acabam virando celebridades. Por que isso ocorre? Não seriam eles homens iguais a nós?

No IN 2017 tive a oportunidade de conviver com várias destas supostas celebridades odontológicas. Renomados palestrantes do Brasil e do mundo estavam circulando por lá e abrilhantando o evento. Não era incomum ver os congressistas pedindo fotos com este grande time da Implantodontia mundial. Permita-me aqui relatar que eu também fui alvo de muitas fotos, e isto, além da alegria, infla bastante o ego. Mas, será que realmente se justifica tanta tietagem? Não estaríamos nós – professores, palestrantes e pesquisadores – alimentando um excesso de valorização profissional e aumentando a distância que separa o clínico do professor?

Conotação intelectual ou tietagem: como deve ser o reconhecimento de um bom profissional de Odontologia? (Imagem: Shutterstock)

 

Voltando ao juiz Sérgio Moro. Eu me pergunto o que nós, cidadãos comuns, temos de tão diferente dele para que isso desperte em nós um sentimento forte de admiração, merecendo que façamos um registro do encontro para posteridade. Ele não faz o trabalho que é pago para fazer? Não deveriam todos os juízes desta nação fazer o mesmo trabalho? E nós, dentistas e professores, no que perdemos para eles, juízes? Não prestamos nós um grande serviço de promoção de Saúde e ensino? Muitos profissionais da nossa área são verdadeiros abnegados. Educadores conscientes, não só da Saúde, mas da vida em geral. Servidores públicos e privados de um setor carente da área médica nacional. Certamente, se o juiz Sergio Moro conhecesse o trabalho de muitos de nós também pediria uma foto.

 

Infelizmente, a obrigação virou exceção neste país. Fazer o seu trabalho corretamente, com dedicação, honestidade e coragem virou algo extraordinário e que merece registro. E isto, na verdade, não passa de uma obrigação profissional. O fato só nos faz concluir que a maioria não faz o que deveria fazer e, quando vê alguém fazendo, o trata como celebridade. O que deveria ser comum vira descomunal. Seja o profissional um juiz, um professor ou um dentista, o Brasil carece de lideranças que deem o exemplo em suas áreas. O País se sente órfão de referências que sejam seguidas pelas novas gerações.

Voltando ao IN 2017 e às “celebridades” que lá estavam, acredito também que existe aí uma repetição do efeito Sérgio Moro, que falei anteriormente. Muitas vezes, por acharmos ser impossível fazer o que muitos palestrantes mostram, os consideramos descomunais. Tirando alguns, que realmente se acham acima do bem e do mal, a grande maioria são seres humanos iguais a nós, não se acham celebridades e se esforçam para que as suas técnicas e descobertas sejam feitas pela grande maioria dos clínicos. E aqui vai uma grande dica para quem assiste às palestras de um congresso: se o palestrante mostra coisas impossíveis, que só ele mesmo consegue fazer, não acredite. O conhecimento deve ser sempre replicado e facilitado. Quem ensina deve mostrar a técnica e ser um facilitador, e não um ilusionista.

Minha mulher, que é ortodontista, costuma dizer que se alguém quer ser mesmo famoso, que seja um cantor ou ator profissional. Aí sim merece virar celebridade. Nas demais áreas, os destaques profissionais devem ser valorizados, mas em uma conotação profissional e intelectual, jamais na tietagem. Tenho certeza que tanto o juiz Sergio Moro quanto muitos dos palestrantes do IN 2017 não desejam este rótulo de celebridades. Infelizmente, é a audiência que faz isto. Assim como eu fiz com o juiz, pedindo uma foto em vez de apenas cumprimentá-lo, muitos de nós fazem exatamente o mesmo com os palestrantes de congressos, alimentando egos e superdimensionando aquilo que deveria ser absolutamente normal e obrigatório.

 

“Quando Pedro ia entrando, Cornélio veio ao seu encontro, ajoelhou-se e curvou a cabeça diante dele. Mas, Pedro fez com que ele se levantasse e disse: Fique de pé, pois eu sou apenas um homem como você.” (Atos 10, 25-26)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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