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Publicado em: 27/10/2017 15h11

Microespiras no colar coronal dos implantes

Marco Bianchini acredita que a região cervical dos implantes é o calcanhar de Aquiles da Implantodontia.

Existe uma corrente de pesquisadores que, há muitos anos, afirmam que a porção cervical do implante (colar), por distribuir maiores tensões à crista óssea, deveria possuir rugosidade na sua superfície ou elementos de retenção, como microrroscas. Essa micro e/ou macrogeometria aumentaria a resistência do osso contra a perda óssea marginal, por conta do bloqueio da força exercida pela superfície do implante na crista óssea. Esses pesquisadores sugerem que a geometria do implante que exibe microrroscas no colar interfere positivamente na osseointegração (Figuras 1).
 

Figuras 1 – A. Desenho esquemático representando o conjunto implante-prótese com plataforma reduzida (observar a presença de microespiras na porção média e cervical do implante). B. Plataforma tipo hexágono externo (observar que as espiras seguem um mesmo padrão ao longo de todo o eixo do implante).

 

Após criar-se uma comunicação entre o meio externo e o implante, vamos ter a formação das distâncias biológicas peri-implantares (o tecido conjuntivo se forma completamente entre quatro e seis semanas, e a lâmina epitelial conclui sua formação entre seis e oito semanas). Nesse período, caso um espaço mínimo para acomodação do epitélio e tecido conjuntivo esteja indisponível, uma reabsorção óssea deve ocorrer para garantir o estabelecimento de um adequado espaço biológico. Muitos chamam isso de saucerização.

Considerando que o estabelecimento de um adequado selamento biológico tem íntima relação com a perda óssea marginal nos períodos iniciais, numerosos desenhos de implantes e formas de colar têm sido desenvolvidos com o intuito de minimizar o impacto da instalação do implante nos tecidos duro e mole. Nesse sentido, a presença de microespiras na parte cervical dos implantes, independentemente de suas plataformas, vem sendo adotada por muitos fabricantes. Isso acontece porque, em implantes com microrroscas na porção cervical, o primeiro contato entre osso e implante fica localizado em uma posição mais coronal, prevenindo futuras perdas ósseas (Figuras 2).
 

Figuras 2 – Adaptação dos tecidos moles sobre a plataforma do implante e o intermediário protético liso. A. Visão geral de todo o conjunto. Observar a presença de microespiras e a importante área de transição entre o osso e os tecidos moles peri-implantares na região cervical do implante. B. Aumento da área cervical, onde temos a adaptação conjuntiva.

 

Até a década de 1990, o colar da maioria dos implantes possuía uma superfície lisa polida, com o intuito de prevenir o acúmulo de biofilme no caso do implante ficar exposto no meio oral devido à perda óssea marginal. Além disso, ele facilita a inserção dos tecidos moles e favorece a manutenção do espaço biológico, evitando a saucerização. Atualmente, muitas modificações vêm sendo executadas pelos fabricantes de implantes, pois há razões para se acreditar que microrroscas na região cervical deles influenciam positivamente na manutenção óssea. Porém, não sabemos ao certo como essa modificação está contribuindo para esta manutenção do nível ósseo peri-implantar. Por isso, encontramos tantas formas diferentes de colar cervical nos implantes.

Quando analisamos a perda óssea marginal de diferentes implantes, precisamos estar atentos aos possíveis fatores que podem influenciar positivamente ou negativamente. Muitos dos implantes analisados em diversos experimentos diferem no formato do corpo (cilíndrico e cônico) e no desenho da cervical (perfil de colar divergente e reto; comprimento do colar liso; e adição ou não de microrroscas). Estas diferenças podem ser responsáveis por uma maior ou menor perda óssea. Entretanto, ainda não é possível dizer com 100% de certeza qual destas diferenças tem maior influência nas reabsorções ósseas peri-implantares.

Apesar de muitas dúvidas ainda nortearem a macro e a microgeometria dos implantes, uma coisa é certa: a região cervical dos implantes é o calcanhar de Aquiles da Implantodontia. Não é à toa que temos tantos “lançamentos” surgindo, com modificações específicas nestas regiões. Não acredito que nenhuma dessas modificações irá eliminar totalmente as perdas ósseas progressivas peri-implantares ao longo dos anos. Afinal de contas, assim como nós, os implantes também envelhecem, sofrem a ação do tempo e se desgastam. Isso, muitas vezes, não é doença e nem falha, apenas uma constatação de que nada dura para sempre.

 

“Acaso não sabes? Ainda não ouviste falar? O Senhor é o Deus eterno! Foi Ele quem criou toda a extensão do mundo. Ele não corre nem se cansa, nem é possível pesquisar sua inteligência.” (Isaías 40, 28)


 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 



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