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Publicado em: 24/11/2017 12h46

Qual conexão o dentista usaria em sua própria boca?

Questionado por um colega, Marco Bianchini reflete sobre o uso de implantes de plataforma tipo hexágono externo.

No dia 10 de novembro, publicamos aqui uma coluna sob o título “Qual implante usar na região posterior de mandíbula?”. Neste texto, eu fiz uma abordagem crítica, defendendo que ainda podemos utilizar os implantes de plataforma tipo hexágono externo nesta região, desde que as condições do caso fossem favoráveis para este tipo de plataforma. Este é um assunto que sempre gera muita polêmica, e não foi diferente desta vez. Um colega, Dr. Paulo Fernando Celestino Jr., fez questionamentos muito interessantes, que irei reproduzir e comentar aqui. Isto foi devidamente autorizado pelo Dr. Paulo, pois engrandece este espaço, fortalecendo uma discussão muito salutar, que nos ajuda a fazer as escolhas certas durante o planejamento de nossos casos.

Primeiro questionamento do Dr. Paulo:

Será que as conexões ''novas'', principalmente de conexões internas, não teriam uma mecânica mais favorável do que na conexão externa padrão HE? 

Acredito que as conexões internas, pricipalmente as de plataforma switching, que alguns insistem em chamar de cone-morse – eu mesmo chamo, pois virou um nome reconhecido por todos – oferecem, sim, uma mecânica mais favorável. Não pelo fato de serem internas, mas sim por terem o seu diâmetro reduzido (menor do que a plataforma do implante), o que caracteriza o termo “switching”. Estes desenhos se aproximam mais da anatomia dental, deixando um espaço adequado para a reconstrução das distâncias biológicas peri-implantates. Vale lembrar que podemos ter esta relação com qualquer tipo de plataforma de implante, bastando ela ter este desenho.

Observe as Figuras 1A e B, as quais já apresentei em colunas passadas:

Figura 1A Figura 1B
Figura 1A representa uma plataforma hexagonal normal, enquanto a figura 1B representa uma plataforma switching, onde o intermediário protético é mais estreito do que a plataforma do implante, permitindo uma melhor acomodação dos tecidos moles peri-implantares e dos componentes do espaço biológico peri-implantar. Não é o gap entre o implante e o intermediário protético (que está interno nas conexões ditas internas) que evita a peri-implantite, mas sim a altura e largura do intermediário protético.

 

Segundo questionamento do Dr. Paulo:

Será que a diferença de preço entre os dois sistemas de conexão justifica a utilização?

O preço não justifica nada ou justifica tudo. Se o nosso paciente pode pagar, vamos oferecer a ele o que achamos ser o melhor, e ponto final. Agora, se ele não tem condições financeiras para alcançar o padrão ouro, muitas vezes poderemos caminhar para opções seguras, que dão certo e não oferecem riscos. Você pode ir de São Paulo até Santos com uma Mercedes ou um Honda Fit. Ambos são seguros e cumprirão o trajeto perfeitamente. Cabe a você decidir o que vale mais a pena e o que você está disposto a gastar e investir.

Terceiro, e último, questionamento do Dr. Paulo:

Se fosse o caso, será que o senhor utilizaria essa conexão em sua própria boca, sabendo da infinidade de vantagens das outras conexões?

Esta pergunta veio apimentada e me fez refletir bastante. Confesso que me deu até dor de cabeça. Ela também  já revela a opinião do Dr. Paulo, que considera as conexões internas melhores do que as outras. Eu, particularmente, não concordo (e vamos deixar claro: eu posso estar errado, pois sei que muitos colegas têm a mesma opinião do Dr. Paulo). Acho que vale aqui transcrevermos alguns trechos lá da coluna do dia 10/11/2017.

Dizia eu lá no dia 10: “implantes do tipo hexágono externo devem ter a sua parte coronal colocada para fora do osso. O hexágono deve estar totalmente fora do tecido ósseo, evitando-se saucerizações indesejadas. Além disso, a distância mínima entre implantes e dentes é maior para este tipo de plataforma. Ela também deve ser respeitada para evitarmos reabsorções ósseas peri-implantares.” Assim, subentende-se que, quando eu não tenho condições de respeitar estes princípios básicos de colocação de implantes hexágono externo, eu devo partir para outros tipos de plataforma, como os implantes ditos cone-morse, por exemplo, exatamente como eu falei lá no dia 10: “certamente não haveria problema algum em utilizarmos implantes cone-morse nestas áreas.”

O leitor deve estar se perguntando: Professor Bianchini, responda logo, você usaria ou não um hexágono externo na sua boca, na região posterior de mandíbula?  E a resposta é não! Eu utilizaria, sim, um cone-morse ou plataforma switching.  Mas não pelo tipo de conexão interna, e sim pela possibilidade do posicionamento intraósseo do implante. Isso permite uma adequada formação das distâncias biológicas, desde que não se utilize os componentes 0.8 de altura de cinta ou, até mesmo, os de 1.5 que achatam o espaço biológico e acabam resultando em uma peri-implantite. Vejam as Figuras 2 e 3 abaixo:

Figura 2: peri-implantite sendo diagnosticada através do sangramento na sondagem e, a radiografia da Figura 3, que demonstra uma intensa perda óssea.

 

Figura 3: implantes cone-morse em região posterior de mandíbula com componente protético de cinta 0.8 e mais largo do que a plataforma do implante, o que contraria todos os princípios da plataforma switching.

 

A discussão que estamos propondo aqui não obriga ninguém a concordar comigo. Agradeço ao Dr. Paulo Fernando Celestino Jr. pelos questionamentos que me fizeram refletir sobre o tema. Infelizmente, nem sempre conseguimos colocar em nossos pacientes aquilo que colocaríamos em nossas bocas. Para nós, muitas vezes o aspecto financeiro pode não influenciar, mas para outros pode ter muita influência na hora da decisão. Nestas horas, devemos ter sempre em mente uma solução viável, eficaz, comprovada cientificamente e segura. Apesar das vantagens das plataformas switching ou cone-morse, os hexágonos externos ainda são o tipo de plataforma mais estudada e com maior casuística de sucesso publicada. Basta seguir corretamente seus protocolos de utilização.

 

“Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis”. (Mateus 7, 16-20)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 



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