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Publicado em: 15/12/2017 14h55

Crise de ausência na cadeira do dentista

Marco Bianchini lembra que a consulta odontológica pode ser um gatilho para a manifestação de crises, como a de epilepsia.

Nesta semana, vivi mais uma experiência singular na minha clínica particular. Durante um atendimento, a cliente teve uma crise de ausência, se levantou da cadeira e foi embora, voltando minutos depois, como se nada tivesse acontecido. Tanto eu como a minha auxiliar ficamos atônitos, sem entender nada, e muito menos saber o que fazer. Inicialmente, achei que a cliente não tinha gostado da nossa abordagem ou de alguma coisa que eu teria dito, mas só depois, passado o susto e conversando melhor com a paciente, é que pude entender o ocorrido.

Essa paciente me procurou para um tratamento específico em um molar inferior, que apresentava uma recessão gengival, giroversão e uma leve perda óssea na raiz mesiovestibular, com o início de formação de lesão de furca grau I. Planejei uma raspagem subgengival, para posterior reavaliação e provável abordagem cirúrgica regenerativa. Na primeira consulta, fiz os procedimentos padrões de anamnese e consulta inicial, porém nem eu perguntei, nem a paciente me relatou qualquer distúrbio psiquiátrico ou psicossomático. Até aí tudo bem, nada que contraindicasse o meu procedimento.

A paciente voltou, então, para uma segunda seção, na qual eu iria realizar a raspagem. Fiz uma leve anestesia isquêmica na área, que não consumiu nem meio tubete do anestésico, e iniciei o procedimento. De repente, a paciente ficou estática na cadeira, com olhar fixo para o nada e suas pupilas dilataram imediatamente. Seus olhos e a sua face pareciam totalmente paralisados, e ela não respondia a nenhuma pergunta que eu fazia. Isso durou uns 20 segundos. Quando ela se levantou, tirou o campo protetor, pegou sua bolsa e foi embora, me deixando de queixo caído. Menos de um minuto depois ela retorna, já com o olhar normal, perguntando o que havia ocorrido. Foi aí que, muito constrangida, ela me relatou que tomava medicação para epilepsia e sofria, eventualmente, dessas crises de ausências, mas que estava sendo totalmente supervisionada pelo seu médico.

A crise de ausência é uma manifestação da epilepsia. Antigamente denominadas "pequeno mal", as crises de ausência são um lapso da consciência, que dura de cinco a 30 segundos, quando a pessoa para o que estava fazendo. Os olhos do paciente podem girar para cima ou ficar olhando fixamente para o vazio, e a pupila pode se dilatar. Objetos que ele esteja segurando podem cair, e podem ocorrer automatismos musculares repetitivos como, por exemplo, piscar de olhos, estalar os lábios, mastigação ou deglutição. Nesse tipo de epilepsia não há confusão mental após a crise, e por vezes, o paciente nem a percebe. São mais comuns entre crianças, e geralmente, desaparecem na adolescência, sendo rara a ocorrência em adultos. Entretanto, algumas crianças podem ter as crises para o resto da vida ou desenvolver outras manifestações epilépticas associadas, que foi exatamente o que estava ocorrendo com a minha paciente.

Confesso a vocês que eu desconhecia totalmente esse tipo de manifestação da epilepsia. Por ignorância mesmo. Nunca tinha ouvido falar nisso e, muito menos, me interessado a pesquisar esses distúrbios psicológicos e psiquiátricos que podem nos surpreender, pois as crises de ausência simples podem ser tomadas durante muito tempo como mera falta de atenção e, assim, algumas pessoas podem ter crises de ausência durante anos antes que elas sejam detectadas. As crises podem ser frequentes e breves, durando apenas alguns segundos, e podem ser muitas por dia. Nas crianças de idade mais avançada, elas podem durar vários segundos e até minutos, e podem ocorrer apenas poucas vezes ao dia. Depois da crise, a criança se recupera e continua fazendo o que estava fazendo, sem guardar lembrança do acontecido.

A cadeira do dentista pode ser um gatilho para a manifestação dessas crises. Entretanto, nós acabamos nos focando mais no procedimento propriamente dito e nos esquecemos de questionar e “apertar” mais os pacientes durante as nossas anamneses. Como esse tipo de situação é muito rara, não damos a devida importância. Um erro crasso, que pode acarretar sérios problemas. Imaginem vocês se eu estivesse com um retalho aberto, extraindo um dente ou colocando um implante. E vale lembrar aqui que minha paciente já havia extraído um dente com seu dentista clínico na semana anterior. A sutura ainda estava em boca e tudo havia ocorrido dentro dos padrões da normalidade, confirmando ainda mais a excepcionalidade do caso.

Por fim, valeu mais essa experiência, que me força a aprender exatamente o que eu ensino: devemos estar sempre atentos às condições gerais do paciente para não sermos surpreendidos, como eu fui. Muitas vezes, os pacientes não nos relatam tudo da sua condição geral, até por acharem que já estão sob supervisão médica, e que não há necessidade de passar por mais um constrangimento em relatar alguns distúrbios psicológicos e psiquiátricos que ninguém gosta de ter. Felizmente, não houve dano algum ao paciente, e iremos prosseguir com o tratamento planejado, após um contato com o médico da paciente e, tomando as providências que esse profissional nos sugerir.

 

"E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo. E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. Ele reuniu todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém da Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel." (Mateus 2, 1-6)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 



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