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Publicado em: 12/01/2018 09h39

Sempre vale a pena substituir próteses fixas por implantes?

Marco Bianchini apresenta um caso clínico e questiona se a substituição é sempre o melhor caminho.

O advento dos implantes osseointegrados nos faz divagar em planejamentos que, antes do aparecimento da osseointegração, não nos ocasionariam tantas dúvidas. Explico melhor: atualmente, nos deparamos com casos que, no passado, apenas observaríamos e manteríamos sob controle e proservação. Com os implantes, vem aquela vontade insuperável de substituirmos próteses fixas e dentes com prognóstico duvidoso por reabilitações implantossuportadas.

Na minha volta ao trabalho, que aconteceu nesta semana, me deparei com uma situação dessas. Um paciente do sexo masculino, com 66 anos, se apresentou em minha clínica particular para uma avaliação geral. Ele gostaria de trocar as suas próteses fixas, que já usava há mais de 20 anos, por implantes. É o costumeiro caso de individualizar os elementos que estão unidos em uma fixa convencional. Observe a figura1.

Figura 1 – radiografia panorâmica mostrando as duas próteses fixas, nos arcos superior e inferior, que o paciente gostaria de substituir por reabilitações implantossuportadas. A ideia dele era individualizar os elementos. Observar também as perdas ósseas periodontais e os restos radiculares no interior do seio maxilar direito e na região do 15.

 

Não é possível realizar um planejamento adequado e avaliar corretamente a possibilidade de atender as aspirações do paciente apenas com essa radiografia panorâmica. Temos a necessidade de uma avaliação tomográfica e de uma tomada periapical. Assim, juntamente com o exame clínico, podemos dar um prognóstico periodontal adequado. As figuras 2, 3, 4 e 5 demonstram esses exames.

 

Figura 2 – tomada periapical. Observar que as perdas ósseas periodontais que apareceram na panorâmica se confirmaram nas periapicais. Entretanto, no exame clínico, observamos que a situação era estável, sem profundidade, a sondagem aumentada, necessitando apenas de um tratamento conservador de raspagem e alisamento radicular.

 

Figura 3A – corte tomográfico panorâmico. Observar a melhor definição da presença de um resto radicular no interior do seio maxilar direito, bem como na área do elemento 15.

 

Figura 3B – parte do laudo tomográfico do segmento 1.

 

Figura 4 – cortes tomográficos transversais demonstrando a real posição dos restos radiculares e também as condições ósseas em altura e espessura na região na qual o paciente deseja colocar implantes superiores. Observar que, além das dificuldades oriundas da presença dos restos radiculares, a disposição óssea é relativamente limitada.

 

Figura 5 – cortes tomográficos da região do 35, na qual o paciente também possui uma prótese fixa que deseja substituir por implante. Observar que nessa região temos um bom volume ósseo, tanto em espessura como altura.

 

Figura 6 – cortes tomográficos da região do 35, na qual o paciente também possui uma prótese fixa que deseja substituir por implante. Observar que nessa região temos um bom volume ósseo, tanto em espessura como altura.


No passado, casos como esse seriam apenas mantidos exatamente como estão, realizando-se o devido acompanhamento clínico e radiográfico, como frisei no início deste texto. Porém, atualmente, com a evolução da Implantodontia e a pressão dos próprios pacientes, muitas vezes entramos em águas perigosas, na tentativa de fazer mudanças naquilo que vem dando certo há muitos anos.

O caso em questão é de fácil solução no arco inferior. As figuras 5 e 6 demonstram que a colocação de um único implante na região do 35 é uma solução muito boa para o paciente e vai lhe oferecer um maior conforto, além de facilidade na higiene oral. Acredito ser um benefício para o paciente realizar esse tratamento no arco inferior, mesmo levando em consideração que  ele utiliza essa prótese fixa há mais de 20 anos.

Por outro lado, o arco superior direito nos mostra um sinal, no mínimo amarelo, se quisermos substituir a fixa por implantes. A presença dos restos radiculares – principalmente aquele que está localizado dentro do seio maxilar – dificulta o caso. O laudo radiográfico que apresentamos na figura 3B indica que o real caminho a seguir é manter essa raiz dentro do seio e evitar violá-lo, pois essa situação encontra-se estável há mais de 45 anos. O paciente nos relatou que, quando tinha aproximadamente 15 anos, um “dentista” prático realizou essas extrações. Durante o procedimento, o ele comentou que estava muito difícil extrair aqueles dentes.

Assim sendo, se quisermos colocar dois implantes na região dos elementos 15 e 16, teremos que utilizar implantes cone-morse de 3.5 de diâmetro, inclinando o ápice do implante da região do 16 mais para distal, a fim de fugir do seio maxilar. Além disso, a extração do resto radicular que se encontra fora do seio deverá ser realizada de uma maneira muito atraumática, para se evitar perdas ósseas desnecessárias e, principalmente, a violação do seio maxilar que se encontra próximo à mesma. Tudo isso tendo à disposição pouco volume ósseo. Baseado nestas informações, a pergunta que eu faço é esta: vale a pena?

 

Assim diz o Senhor: maldito o homem que confia no homem, e na carne busca a sua força, e afasta o seu coração do Senhor! Porque será como um arbusto no deserto, e não verá quando vem a chuva; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o rio, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se preocupa, nem deixa de dar fruto. (Jeremias 17, 5-8)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


 



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