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Publicado em: 6/1/2018 83h2

Lesões endo-periodontais desafiam o cirurgião-dentista

Marco Bianchini reforça a importância dos tratamentos consagrados, que exigem mais tempo de resposta, mas podem salvar dentes.

Até hoje, as doenças endodôntico-periodontais representam um desafio para o cirurgião-dentista. Uma única lesão pode apresentar sinais de envolvimento endodôntico e periodontal, o que pode induzir o cirurgião-dentista à realização de um tratamento inadequado. Geralmente, o diagnóstico da doença é difícil devido às íntimas conexões anatômicas e vasculares entre a polpa e o periodonto. Além disso, o fato dessas doenças serem frequentemente avaliadas como entidades diferentes dificulta ainda mais o diagnóstico.

A avaliação do prognóstico e o tratamento também podem ser desafiadores nas lesões endo-periodontais. Microrganismos, traumas, reabsorções radiculares e perfurações estão entre os fatores etiológicos e contribuintes para o desenvolvimento e progressão da doença. Frequentemente, o dente acometido por uma lesão endo-periodontal é inadequadamente condenado devido à falta de conhecimento do cirurgião-dentista. É fundamental reconhecer a relação entre as doenças para o manejo adequado da lesão. A realização de um diagnóstico preciso é um determinante crítico do resultado do tratamento.

A discussão que envolve a etiologia das doenças endo-periodontais é bastante intensa e, às vezes, controversa. O que ocorre é que, enquanto o suprimento sanguíneo da polpa, através do forâmen apical, permanecer intacto, a polpa será capaz de suportar os elementos nocivos liberados pela infecção periodontal. Já o oposto parece ser mais frequente, onde um canal necrosado e infectado, já com comprometimento periapical, parece favorecer a migração desta lesão para os tecidos periodontais. Assim, embora possa ocorrer uma infecção pulpar de origem periodontal, o caminho inverso é o mais frequente, quando as bactérias da polpa acabam contaminando os tecidos periodontais via forâmen apical ou canais laterais.

A estratégia para o tratamento das lesões endo-periodontais combinadas deve ser baseada em um correto diagnóstico diferencial entre as diferentes situações clínicas enfrentadas, determinando se os tratamentos endodônticos ou periodontais devem ser realizados de maneira independente ou combinada. Porém, é justamente neste aspecto da classificação dos diversos tipos de leões endo-periodontais que reside o problema, pois muitas vezes o clínico se confunde e não consegue identificar corretamente a real origem do problema.

Lesões pulpares primárias combinadas com defeitos periodontais secundários podem ser completamente solucionadas apenas por meio do tratamento do canal radicular. Polpas necróticas ou infectadas podem ocasionar fístulas semelhantes às bolsas periodontais. Como a etiologia dessas lesões é pulpar, o tratamento endodôntico está indicado. Este tipo de lesão apresenta melhora após a desinfecção e o selamento do sistema de canais radiculares. Procedimentos periodontais invasivos devem ser evitados nesse momento, pois isto poderia acarretar um sobretratamento, danificando estruturas periodontais sadias. Situações como esta requisitam uma reavaliação dois ou três meses depois de realizado o tratamento endodôntico. Na maioria desses casos, o problema periodontal regride naturalmente, dispensando o tratamento periodontal. Caso isto não ocorra, deve-se então partir para a terapia periodontal – iniciando-se pela não cirúrgica e, se esta não surtir efeito, segue-se para a cirúrgica. A Figura 1 ilustra uma situação como esta descrita aqui.
 

Figura 1 – Dente 37 que não respondeu aos testes de vitalidade pulpar (polpa necrosada), com lesão apical que se estende para as proximais e área de furca. Observar a inclinação mesial do elemento 38, que promove impacção alimentar e acúmulo de biofilme na área. Muito provavelmente, o tratamento endodôntico do dente 37 e a exodontia do 38 promoverão a cura dos tecidos periodontais do 37, podendo este elemento ser mantido em boca, desde que bem acompanhado posteriormente aos tratamentos propostos.

 

Na verdade, as lesões endo-periodontais são um assunto bastante batido dentro da Odontologia. Este tópico faz parte de todos os currículos de graduação há muitos anos. Entretanto, com o advento dos implantes osseointegrados, o investimento em tratamentos de lesões endo-periodontais vem sendo descartado. A maioria dos profissionais prefere condenar à exodontia um dente com este tipo de lesão, para a colocação de um implante posteriormente. Este é o resultado da preguiça mental que acomete muitos profissionais, que deixam de investir em tratamentos consagrados e que exigem um pouco mais de tempo de resposta, mas que podem salvar muitos dentes condenados inadequadamente.

 

 

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3, 17)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br



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