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Publicado em: 7/13/2018 10h33

Bom planejamento não é garantia de bom resultado

Marco Bianchini lembra que o cirurgião-dentista deve estar preparado para o imponderável, que pode entrar em cena e abrir espaço para o aparecimento de falhas.

Um dos temas mais falados na Implantodontia mundial é o planejamento prévio à colocação dos implantes. Todos nós estamos cansados de saber que devemos planejar adequadamente nossos casos: anamnese criteriosa para identificar o perfil do paciente, exames laboratoriais, modelos de estudo, montagem em articulador, enceramento diagnóstico e tomografia computadorizada. Esses são alguns dos requisitos para planejarmos adequadamente a colocação de um ou mais implantes. A obediência deste check-list de planejamento nos leva a reduzir a possibilidade de falhas.

Além dos itens que dizem respeito ao planejamento, é importante que o profissional que irá executar o tratamento esteja devidamente treinado e apto a realizar o procedimento. O treinamento para nos tornarmos bons implantodontistas exige anos de preparação. Após a graduação, necessariamente, teremos que nos aperfeiçoar em cursos de pós-graduação. Aqui entram as atualizações, imersões, aperfeiçoamentos e especializações. Sem falar nos congressos, que nos deixam a par das últimas novidades na constante evolução das especialidades odontológicas.

Uma vez que estamos preparados e treinados para executar um caso de Implantodontia, e que também realizamos adequadamente todo o planejamento prévio, chegamos à conclusão de que dificilmente teremos insucessos, já que cumprimos todos os requisitos básicos e mínimos para obtermos o sucesso dos nossos tratamentos. Entretanto, como em qualquer área técnica, o imponderável pode entrar em cena e, mesmo que tenhamos a certeza de termos feito tudo corretamente, as falhas eventualmente aparecem. Mas, o que é o imponderável na Implantodontia?

Tudo aquilo que envolve as habilidades e aptidões do ser humano pode falhar. Por melhor preparado que o indivíduo esteja em sua área de atuação, as falhas irão sempre surgir. Podemos errar em uma incisão que nunca erramos antes, podemos selecionar a plataforma de implante errada, mesmo que nunca tenhamos cometido este erro anteriormente. O implante pode ter ficado muito submerso ou mal posicionado porque, naquele dia, sem maiores explicações, nós erramos. Mesmo com todo o treinamento e preparo, erramos.

Na semana passada, o Brasil foi desclassificado da Copa do Mundo de futebol da Rússia. Segundo vários analistas, nunca houve uma preparação da nossa seleção de futebol tão bem feita para um Mundial. Parece que, pela primeira vez, tivemos realmente uma preparação profissional feita por especialistas que procuraram checar todos os itens necessários aos jogadores e comissão técnica, para que eles tivessem o melhor desempenho possível e o Brasil chegasse ao título. Entretanto, não foi o que aconteceu. Afinal, como em qualquer área que envolve habilidades técnicas individuais, o imponderável apareceu.

No futebol, o imponderável pode ser um goleiro adversário iluminado que defende tudo. Também pode ser um jogo infeliz de craques que perdem gols que não costumam perder, e assim por diante. Mesmo com todo treinamento e preparação bem executados, os jogadores e técnicos de futebol também falham. Na Implantodontia, como falei anteriormente, o adversário, em algumas situações, somos nós mesmos, que cometemos falhas que normalmente não cometeríamos. Pode ser também o paciente que, por alguma razão desconhecida, indetectável no planejamento, não consegue produzir uma reação antígeno-anticorpo adequada com o parafuso de titânio que inserimos, ocasionando uma não osseointegração.

Não adianta nos martirizarmos com as falhas que ocorrem na nossa profissão, da mesma forma que não adianta ficarmos elegendo culpados para a derrota do Brasil na Copa. Derrotas acontecem, seja no esporte, na profissão ou na vida. Às vezes, o erro foi nosso mesmo. Mas, em outras situações não. Simplesmente falhou porque, em alguns casos, falha mesmo e não há uma explicação plausível. É por isso que nada é 100%, seja no futebol ou na Implantodontia, pois áreas técnicas que envolvem habilidades individuais e particularidades do ser humano não são totalmente previsíveis.

O único caminho a seguir após uma derrota ou falha é ir adiante, refazer os planejamentos, corrigir as falhas (se é que existiram), recolocar os implantes perdidos, e bola pra frente! Replico aqui uma frase do jogador Marcelo, nosso lateral esquerdo e craque do Real Madrid, postada em suas redes sociais e que pode ser aplicada também na Implantodontia: “esse sonho foi adiado, mas tenho muita confiança de que o Brasil tá muito perto de conquistar esse título novamente! Vamos que vamos, vida que segue! Viramos a página, pegamos as coisas boas e levamos para a próxima convocação! Já já tem seleção outra vez!”.

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e quem está vivo refletirá sobre isso em seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos está na casa da alegria.” (Eclesiastes 7,2-4)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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