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Publicado em: 7/20/2018 11h

Doenças periodontais na puberdade

Adolescentes necessitam de atenção especial, principalmente nas mudanças comportamentais que influenciam no controle do biofilme.

Quem trabalha com Periodontia no consultório frequentemente recebe pacientes adolescentes ou pré-adolescentes com gengivite generalizada. Geralmente, eles vêm acompanhados pelos pais (às vezes mães superprotetoras) apresentando péssima qualidade de higiene oral. Os casos são bastante interessantes já que, dependendo do perfil de cada cliente, a saúde oral também apresentará respostas diferentes ao longo dos anos. Assim, alguns pacientes que se apresentavam com uma gengivite severa na época da adolescência, e que se mantiveram sob a supervisão de um bom dentista ao longo dos anos, conseguem pular para a fase adulta sem maiores danos. Entretanto, outros que não conseguiram um bom controle – não só da placa bacteriana, mas também das suas vidas no sentido mais amplo da palavra – acabam virando potenciais pacientes a receberem implantes osseointegrados.

A puberdade é definida como o período de transição entre a infância e a adolescência, quando ocorre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e a aceleração do crescimento, levando ao início das funções reprodutivas. Nesta fase, são observadas mudanças como o crescimento dos pelos, o crescimento dos testículos e o aparecimento dos seios, além do aumento do quadril nas meninas e do tórax nos rapazes. O marco principal da puberdade para os homens é a primeira ejaculação, que ocorre em média aos 13 anos. Para as mulheres, é o início da menstruação, que ocorre em média entre 12 e 13 anos.

Além de todas estas características físicas que aparecem nos indivíduos que se encontram na puberdade, e do desequilíbrio hormonal presente nessa fase da vida, não se pode esquecer das características comportamentais associadas a este período. Elas podem refletir um mau controle de placa, levando ao maior acúmulo de fatores etiológicos para o aparecimento de algum tipo de doença periodontal, mais especificamente a gengivite. A não percepção destas mudanças comportamentais por parte do dentista, além do não enfrentamento delas, poderá trazer consequências graves que o paciente carregará por toda a vida.

Clinicamente, durante a puberdade, os sinais inflamatórios da gengivite podem se apresentar bastante exacerbados, com intenso eritema e edema pronunciado. Pode ocorrer uma reação de hiperplasia gengival, principalmente nas áreas interproximais, onde existe o acúmulo de alimentos, de placa bacteriana e de cálculo depositados. Os tecidos inflamados podem ser lobulados e retraídos. O sangramento pode ocorrer durante a escovação dentária e mastigação. Muitas vezes, o sangramento generalizado pode ocorrer com quantidades mínimas de biofilme, como consequência das mudanças hormonais presentes. Cabe ao dentista avaliar cada caso de maneira individual.

O tratamento periodontal em indivíduos que se encontram na fase da puberdade consiste em um rigoroso controle mecânico da placa bacteriana por meio da escovação, com ênfase no uso do fio dental e manutenção de níveis aceitáveis de biofilme. O controle químico com o uso da clorexidina tópica a 2%, ou em forma de bochecho a 0,12%, também pode ser realizado. No aspecto da intervenção direta do dentista, uma meticulosa raspagem dental e aplainamento radicular para descontaminar a parede dental da bolsa periodontal devem ser executados quando necessário, implementando uma terapia de suporte mais regular do que o normal (mensal ou a cada dois meses). Isso deve ser feito para manter a saúde obtida, monitorando sempre a forma como as mudanças comportamentais influenciam no controle do biofilme.

O mais importante nesta fase da puberdade é conscientizar as crianças ou pré-adolescentes da necessidade dos cuidados de higiene oral que devem ter, a fim de evitar maiores manifestações periodontais. Esta conscientização não é uma tarefa fácil de ser realizada pelo dentista, uma vez que as mudanças comportamentais são acentuadas, dificultando a aceitação das recomendações por deste paciente. Além disso, pais extremamente protetores podem atrapalhar a relação entre o profissional dentista e o paciente adolescente. Assim, o auxílio de higienistas, psicólogos, psiquiatras ou psicoterapeutas pode ser bastante útil para os casos em que não se consegue a colaboração destes pacientes, a fim de que eles carreguem bons hábitos de higiene oral pelo resto de suas vidas e não se tornem futuros candidatos a receberem implantes por perdas precoces de elementos dentais.


 

“Aplica o teu coração à instrução e os teus ouvidos às palavras do conhecimento. Não retires a disciplina da criança; pois se a castigares com a vara, nem por isso morrerá. Tu a castigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.” (Provérbios 23,12-14)

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


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