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Publicado em: 9/7/2018 91h3

Uma nova visão sobre o trauma oclusal na Periodontia

Marco Bianchini traz novidades do último consenso sobre a classificação das doenças periodontais.

O último consenso sobre a classificação das doenças periodontais, que foi publicado agora em 2018, trouxe um artigo muito interessante sobre o papel do trauma oclusal na Periodontia. Esse assunto tem sido motivo de muita controvérsia – e discussões intermináveis – nos eventos científicos periodontais ao longo das últimas décadas. Porém, este artigo que iremos discutir hoje, aqui na coluna, parece ter clareado um pouco as ideias sobre esse tema.

Esta revisão narrativa determinou os efeitos do trauma oclusal e das forças oclusais excessivas no periodonto, incluindo o início e a progressão da periodontite, bem como a abfração e recessão gengival. As definições dos casos, as considerações diagnósticas e os efeitos da terapia oclusal também foram revisados ​​e discutidos neste paper, ajudando muito o clínico a entender e tratar os problemas relacionados ao trauma oclusal.

Por definição, o trauma oclusal é um termo usado para descrever uma lesão que resulta em mudanças nos tecidos do aparelho de inserção dental, incluindo o ligamento periodontal, o osso alveolar e o cemento. Essa lesão seria o resultado das forças oclusais que agem sobre os elementos dentais. O trauma oclusal pode ocorrer em um periodonto sadio ou em um periodonto reduzido pela doença periodontal prévia.

Como falamos anteriormente, o papel do trauma oclusal como indicador do início e da progressão da periodontite continua sendo um assunto polêmico em Periodontia, pois ele só pode ser confirmado histologicamente. Como o trauma da oclusão é definido e diagnosticado com base nas alterações histológicas do periodonto, um diagnóstico definitivo do trauma oclusal não é possível sem a biópsia da secção em bloco. Por razões óbvias, fica muito difícil  desenhar estudos com tamanha precisão. Afinal, teríamos que mutilar os pacientes para uma análise fiel. Consequentemente, múltiplos indicadores clínicos e radiográficos são usados ​​como substitutos de estudos histológicos, para auxiliar o diagnóstico presuntivo de trauma oclusal.

A maioria dos estudos e das investigações revisadas no último consenso de Periodontia concordaram que o trauma oclusal e as forças oclusais excessivas não iniciam a periodontite ou a perda da inserção do tecido conjuntivo. Quando a periodontite induzida pela placa bacteriana e o trauma oclusal estão presentes ao mesmo tempo, há evidências fracas de que esse trauma oclusal poderia aumentar a taxa de perda tecidual periodontal. Assim, o biofilme continua sendo o ator principal na destruição periodontal.

Quando o assunto passa a ser os diversos tratamentos para o trauma oclusal (ajuste oclusal, placas miorrelaxantes, etc), observamos que estas terapias de tratamento do trauma oclusal são indicadas como parte da terapia periodontal para reduzir a mobilidade e aumentar o conforto e a função mastigatória do paciente, mas não na eliminação da perda de inserção propriamente dita.

Outro aspecto importante analisado no consenso diz respeito às recessões gengivais e as suas associações com o trauma oclusal. Os dados existentes nas revisões e estudos consultados não suportam a existência de abfração como causa de recessão gengival, eliminando mais uma vez o componente do trauma oclusal como causador importante das recessões gengivais.

Assim, para surpresa de muitos, todos os pesquisadores concordaram que as forças oclusais excessivas não iniciam a perda de inserção periodontal das doenças periodontais induzidas por placa. Isso foi confirmado pela maioria dos estudos mais recentes, avaliados no consenso das doenças periodontais publicados agora em 2018. Embora permaneça sendo um assunto polêmico, as relações do trauma oclusal com a doença periodontal permanecem afastadas, cabendo a nós tratar os seus efeitos, como forma de aumentar o conforto dos pacientes, melhorar a função mastigatória e reduzir a mobilidade dental proveniente desses traumas.
 

Referência:
Fan and Caton - Occlusal trauma and excessive occlusal forces: Narrative review, case definitions, and diagnostic considerations. J Clin Periodontol. 2018;45(Suppl 20):S199–S206.


“Considerai os lírios, como eles crescem; não trabalham, nem fiam; e digo-vos que nem ainda Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. E, se Deus assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?”. (Lucas 12, 27–28)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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