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Publicado em: 9/21/2018 84h8

Mucosa ceratinizada ao redor de implantes

Há necessidade da presença de mucosa ceratinizada para manter a saúde peri-implantar? Marco Bianchini debate o tema.

O último consenso de doenças peri-implantares, que eu venho citando bastante aqui na coluna nos últimos meses, também teceu fortes considerações sobre assuntos que merecem continuar sendo investigados em futuras pesquisas, pois  não se tem certeza real sobre como eles atuam em nossos implantes. São eles: quantidade de mucosa ceratinizada, fatores genéticos, excesso de cimento em próteses cimentadas, condições sistêmicas, fatores iatrogênicos, sobrecarga oclusal e partículas de titânio. Dentre esses assuntos, a presença de mucosa ceratinizada parece ser o que ainda causa mais polêmica.

A evidência de que há necessidade da presença de mucosa ceratinizada para manter a saúde peri-implantar ainda é limitada. Contudo, avaliações sistemáticas indicaram que uma mucosa ceratinizada <2 mm de altura foi associada a mais acúmulo de placa e inflamação dos tecidos moles peri-implantares, quando comparado com implantes que foram rodeados por uma mucosa ceratinizada ≥2 mm de altura. A maioria das análises, realizadas em diversos estudos, demonstrou que, em pacientes com quantidade menor de mucosa ceratinizada, os valores relativos à quantidade de placa, índice de sangramento gengival, recessão da mucosa e perda de inserção eram sempre maiores.

Porém, o interessante destes achados é que, embora os locais com menor quantidade de mucosa ceratinizada estivessem quase sempre relacionados com  maior desconforto na escovação, essas áreas com pouco tecido ceratinizado não estiveram relacionadas com a perda óssea peri-implantar e, sim, com aumento da inflamação e presença de mucosite peri-implantar. Assim, parece haver um aumento da inflamação em áreas com pouca mucosa ceratinizada, mas isso não se traduz em perda óssea peri-implantar  ou peri-implantite.

Alguns outros achados demonstraram que, em pacientes periodontalmente saudáveis diagnosticados com peri-implantite, que apresentaram quantidade  de mucosa ceratinizada <2 mm de altura, observou-se maiores escores de placa e sangramento a sondagem,  mesmo esses se apresentando com higiene oral suficiente. Isso demonstra, de certa forma, que a ausência de mucosa ceratinizada dificulta a higienização por parte dos pacientes, mesmo naqueles que têm boas habilidades para um controle efetivo da placa.

Quando a abordagem se refere à espessura da mucosa ceratinizada, os conceitos parecem mudar ainda mais. Há uma quantidade significativa de estudos prospectivos controlados, com amostras de tamanho médio, que indicam que os tecidos moles finos levam ao aumento da perda do osso marginal. Porém, essa perda óssea parece não estar associada a um quadro de inflamação da mucosa peri-implantar. O difícil é saber exatamente qual seria a espessura ideal desses tecidos. 2mm de espessura parece ser uma medida interessante para se ter boas condições de saúde peri-implantar.

Embora os estudos sugiram que a ausência ou a redução da largura da mucosa ceratinizada podem afetar negativamente as medidas de higiene bucal realizadas, há evidências limitadas de que esse fator constitua um risco para peri-implantite. Entretanto, quando abordamos a perda óssea isoladamente, sem que haja uma inflamação junto, parece haver fortes evidências de que uma largura maior de tecido ceratinizado evita a perda óssea progressiva.

Assim, confirma-se que esse tema permanece sendo bastante controverso, embora existam fortes tendências a dar importância real à presença desses tecidos ao redor dos nossos implantes. Para facilitar uma educação continuada neste assunto, eu coloquei algumas referências bastante atualizadas sobre esse assunto, a fim de que todos possam perceber a sua real importância.  Até porque, se o tecido ceratinizado não fosse importante, ele certamente não estaria presente ao redor da maioria dos dentes e implantes, e Deus não o teria criado e colocado lá!

 

“Filhinhos, sois de Deus, e já vencestes os que são do anticristo; porque maior é o que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles são do mundo, por isso falam do mundo e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisso conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.” (1 João 4, 4-6).

 

Referências:
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Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


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