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Publicado em: 9/28/2018 10h17

Fumo como fator de risco para peri-implantite

O cigarro ainda é um grande vilão para os implantes? Marco Bianchini traz dados do último consenso.

Seguindo a linha de assuntos polêmicos que eu venho colocando em debate aqui na coluna, hoje iremos abordar o fumo como fator de risco para desenvolvimento da peri-implantite. Desde que eu comecei a atuar na Implantodontia – e aí já se vão muitos e muitos anos – o cigarro sempre foi tachado como um grande vilão para os nossos implantes. Seja por perda óssea precoce ou até mesmo a perda da osseointegração. Os fumantes são sempre colocados em um grupo de alto risco a desenvolverem complicações nos seus tecidos peri-implantares.

Esta separação dos pacientes fumantes como de alto risco para desenvolver a peri-implantite não aconteceu de graça. O tabagismo tem sido, desde sempre, fortemente associado à periodontite crônica, perda de inserção e perda de dentes. Assim sendo, durante muito tempo, principalmente a partir da década de 90, a maioria dos estudos relataram que os fumantes apresentavam perda óssea substancialmente maior do que os não fumantes1. Desde então, de acordo com esta observação, vários estudos subsequentes confirmavam uma forte associação entre tabagismo e peri-implantite.

Porém, na medida em que as pesquisas foram se intensificando e aperfeiçoando as suas metodologias, principalmente a partir de 2010, a maioria das publicações não conseguiu mais identificar o tabagismo como fator de risco para a peri-implantite. Dentro desta linha, o nosso estudo publicado em 2016/2017, em que avaliamos 183 pacientes com 916 implantes na Fundação da Universidade de São Paulo (USP), também não demonstrou que o fumo seria um alto fator de risco para a peri-implantite. Confesso que isso me deixou bastante apreensivo, chegando a pensar até que a nossa metodologia estivesse errada2.

Na verdade, o que ocorreu com muitas das publicações que consideravam o fumo como um fator de risco para a peri-implantite foi erro de interpretação estatística. No último consenso de peri-implantite, publicado agora em 2018, observou-se que alguns estudos relatavam uma associação entre tabagismo e peri-implantite em suas respectivas análises iniciais. No entanto, nos seguintes cálculos, com ajustes, o tabagismo não aparecia mais como um preditor relevante para peri-implantite3.

As razões para os achados conflitantes e a aparente fraca associação entre tabagismo e peri-implante atualmente não são bem compreendidas, mas podem estar relacionadas às diferenças na categorização de fumantes e não fumantes. Assim, os critérios para o fator “tabagismo” variavam consideravelmente de estudo para estudo, e dependiam unicamente de informações relatadas pelos pacientes para a avaliação do tabagismo. Desta forma, fica muito difícil de quantificar se um indivíduo que fuma três, cinco ou dez cigarros será enquadrado na categoria de fumante ou de não fumante.

Toda vez que a literatura muda de opinião, devemos aceitar os dados com cuidado e não extrapolar de imediato com nossos pacientes. Até porque novos conceitos podem aparecer rapidamente e mudar tudo outra vez. Achar que os pacientes fumantes podem sair por aí colocando implantes e que não terão nenhum problema é uma atitude arriscada. Por outro lado, culpar o cigarro por todos os nossos fracassos é não querer enxergar as demais razões que podem levar um implante a desenvolver peri-implantite.

 

“Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.” (João 4, 13-14)

 

Referências
1. Lindquist LW, Carlsson GE, Jemt T. A prospective 15‐year follow‐up study of mandibular fixed prostheses supported by osseointegrated implants. Clinical results and marginal bone loss. Clin Oral Implants Res. 1996;7:329–336.
2. Dalago HR, Schuldt Filho G, Rodrigues MA, Renvert S, Bianchini MA. Risk indicators for peri‐implantitis. A cross‐sectional study with 916 implants. Clin Oral Implants Res. 2017;28:144–150.
3. Aguirre‐Zorzano LA, Estefania‐Fresco R, Telletxea O, Bravo M. Prevalence of peri‐implant inflammatory disease in patients with a history of periodontal disease who receive supportive periodontal therapy. Clin Oral Implants Res. 2015;26:1338–1344.

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

 



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