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Publicado em: 12/21/2018 93h7

Tempo livre e as prioridades na vida

Em sua última coluna no ano, Marco Bianchini faz uma reflexão sobre o investimento de tempo na carreira.

À medida que os anos vão passando e vamos ficando mais velhos, ter tempo livre vai virando uma prioridade na vida. Lamentavelmente, esta é uma constatação que só nos damos conta depois de passarmos da casa dos 40 ou 50 anos. Algumas pessoas só se dão conta de que a areia do tempo está se esvaindo lá pelos 70 anos de idade. Entramos em nossos consultórios e, quando olhamos, já se passaram 20 ou 30 anos. Os mais jovens, então, são os que menos percebem isso. A frase que mais escuto dos jovens é sempre a mesma: “de que me adianta o tempo livre se não tenho dinheiro para gastar?”.

Como em todo final de ano, nós fazemos um mea-culpa e prometemos que vamos mudar de vida no próximo ano, eu resolvi trazer aqui para a nossa última coluna do ano um texto muito interessante, que faz uma reflexão espetacular sobre o tempo livre. Foi escrito por uma jovem autora: Ruth Manus, que parece ter percebido precocemente o valor do tempo livre. Sorte a dela! Aproveito aqui para deixar os meus votos de Feliz Natal e Feliz 2019 para todos que me acompanham aqui neste espaço.

 

A triste geração que virou escrava da própria carreira
 

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa. Tinha pena dos pais, que tiveram que pedalar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguel, a escola e as viagens em família para pousadas no interior. Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.

Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim, etc. Frequentou as melhores escolas. Entrou nas melhores faculdades. Passou no processo seletivo dos melhores estágios. Foi efetivada. Ficou orgulhosa, com razão. E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.

Era uma vez uma geração que aos 20 anos ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam na vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar. Ninguém podia detê-los. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.

O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo. O problema era uma nuvem, na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que era necessário e o que era vício.

O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto. Mas, sabe como é, né? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir. Essa geração tentava se convencer de que podia comprar saúde em caixinhas. Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano feito diariamente ao próprio corpo.

Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent. Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir. Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer se destacar na equipe? Sim. Mas para a vida, costumava ser não.

Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito. Aos 25, eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa. Aos 30, eles não foram no aniversário de um velho amigo porque ficaram até às 2 da manhã no escritório. Aos 35, eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.

Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente, começavam a se perguntar se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia. Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias em um hotel fazenda pudessem fazer algum sentido. Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal, tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro. Só não tinha controle do próprio tempo. Só não via que os dias estavam passando. Só não percebia que a juventude estava escoando entre os dedos e que os bônus do final do ano não comprariam os anos de volta.

 

“E, apareceu um anjo do Senhor a José, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo; Ela dará à luz a um filho e chamarás o seu nome JESUS; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz; Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, que traduzido é: Deus conosco.” (Mateus 1:20-3)

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 


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