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Publicado em: 3/29/2019 10h49

A influência do estresse nas doenças periodontais

Marco Bianchini traz informações de estudos clínicos que debatem a correlação entre a doença periodontal e o estresse.

Nas últimas décadas, o estresse emocional ganhou grande importância como fator desencadeante de algumas doenças. A comunidade científica mundial tem plena consciência e comprovação científica de que um indivíduo altamente estressado e com problemas psicossomáticos pode ser alvo de algumas patologias, especialmente por ter o seu sistema imunológico comprometido. Infelizmente, muitos colegas não dão a importância devida a este componente comportamental de nossa saúde geral, que pode prejudicar bastante o sucesso dos nossos tratamentos.

Os profissionais que trabalham com Periodontia em seu dia a dia clínico certamente já se depararam com casos em que rapidamente conseguimos uma estabilização do quadro inflamatório, com a cooperação do paciente e a redução dos níveis de biofilme. Surpreendentemente, estes mesmos pacientes, em um curto intervalo de tempo, se apresentam com níveis de recidiva das lesões periodontais, sem uma quantidade de placa que justifique esta resposta. Na maioria das vezes, o componente emocional associado ao estresse é o grande responsável por essa exacerbação de sinais e sintomas.

A doença periodontal induzida por biofilme microbiano é, na maioria das vezes, uma doença crônica, assim como a maioria das doenças de origem da psiquê, que influenciam o ser humano. Diversos estudos de natureza epidemiológica têm relacionado problemas psicossomáticos com parâmetros clínicos da doença periodontal. As vias de ligação entre o periodonto e o sistema nervoso central começam com um estímulo físico ou emocional, desencadeando impulsos elétricos e químicos, como o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e a adrenalina, capazes de interagir em órgãos endócrinos, como as glândulas adrenais, e em células imunoinflamatórias específicas, como células Th0 (T helper), ambas importantes na etiopatogenia da doença periodontal1.

Quando um quadro de estresse se prolonga por um tempo maior, tornando-se crônico, o que se observa, na maioria das vezes, é a supressão das funções imunes. Com isso, aumenta a suscetibilidade à infecções. Neste caso, os hormônios glicocorticoides, como o cortisol, exercem efeitos imunossupressivos, inibindo a produção ou as ações das moléculas pró-inflamatórias. Ocorre, portanto, um desequilíbrio que tem potencial influência nas respostas do hospedeiro frente às agressões bacterianas. Assim, conclui-se que o estresse e o cortisol influenciam diretamente a doença periodontal, independentemente dos hábitos de higiene do paciente. Desse modo, é bastante provável que o estresse esteja relacionado com a destruição periodontal por mecanismos fisiopatológicos e comportamentais2.

Recentemente, estudos clínicos mostraram uma correlação positiva entre a doença periodontal e o estresse, assim como alguns outros fatores psicológicos. Além disso, o estresse induzido experimentalmente em ratos aumentou significativamente a destruição periodontal nesses animais, enquanto as intervenções para modular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal reverteram esse efeito3. Estes achados demonstram que devemos ter especial atenção com pacientes que apresentam distúrbios psicológicos, principalmente relacionados com o estresse.

É de fundamental importância levar em consideração o estado emocional dos pacientes ao diagnosticar e planejar um tratamento periodontal. Mesmo os que estão estabilizados podem, em um dado momento, apresentar quadros de exacerbação da doença provocados por eventos estressantes capazes de ocasionar alterações fisiológicas e comportamentais1. Talvez aqui resida a resposta para muitos dos nossos tratamentos que parecem não funcionar ou que têm uma taxa de recidiva bastante alta. Acredito que antes de olharmos para a técnica que usamos, devemos olhar para a situação emocional dos nossos pacientes, que certamente influenciam nas respostas deles.

 

“Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto. Entrai pelas portas dele com gratidão, e em seus átrios com louvor; louvai-o, e bendizei o seu nome. Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e a sua verdade dura de geração em geração.” (Salmos 100; 3-5)

 

Referências

1. Oliveira LK, Oliveira LMB.A influência das alterações endócrinas e do estresse durante o ciclo menstrual sobre o periodonto. R. Ci. med. Biol 2011;10(3):284-9.

2. Johannsen A, Rydmark I, Söder B, Asberg M. Gingival Inflammation, increased periodontal pocket depth and elevated interleukin-6 in gingival crevicular fluid of depressed women on long-term sick leave. J. Periodontal. Res 2007;42(6):546-52;

3. Albandar JM, Susin C, Hughes FJ. Manifestations of systemic diseases and conditions that affect the periodontal attachment apparatus: Case definitions and diagnostic considerations. J Clin Periodontol. 2018;45(Suppl 20):S171-S189.

 

 

 
   


Marco Bianchini

Professor associado II do departamento de Odontologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); autor dos livros "O Passo a Passo Cirúrgico na Implantodontia" e "Diagnóstico e Tratamento das Alterações Peri-Implantares".

Contato: bian07@yahoo.com.br

 

           

 


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